
A cara de bicha favelada da capital paulistóide se revela na Gay Parade
Por O Outro Lado*
(Em Busca do Feno)
Vou dar o lead logo no começo que é pra sobrar mais tempo pra falar mal do universo. Um homossexual que tenha sofisticação jamais vai se enfiar na avenida Paulista para uma Parada GLBTZXYZ. Ele vai procurar uma boate. Uma Pacha, uma Pink Elephant. De preferência não vai nem a uma casa noturna para tal ou qual público. Ele já tem seu parceiro, com o qual celebrou uma união civil estável e dividiu seus milhões. Não vai nem estar no Braziu. Sem filhotes, viajará para engolir uma jeba por trás em Parrí. Nosso editor é um exemplo de bicha com bom gosto: cagou pra parada gay e foi pra Berlim. Perguntem se está lamentando.
A Parada da Avenida Paulista é uma drag queen se mostrando. Algumas chegam a distribuir panfletos oferecendo seus serviços. “Sou Adriana DBV, Dê de Divertida, Bê de Bonita e Vê de Vaidosa”. Pergunta se ela tem idade. “Drag queen é atemporal, beim.” Preguiça.
Seguimos caminhando. O chope no Bob’s, que costuma ser de uns R$ 3, continua o mesmo, mas por R$ 6. As atendentes estão vestidas de arco-íris. A fachada dos hotéis também. Sigo com o gravador em uma mão e o chope na outra. Só quero um personagem realmente bom. Algo como um yorkshire vestido de arco-íris, algo que alegre a torcida. Encontro um metalúrgico de Diadema com um nariz de pênis – encapado com uma das milhares de camisinhas distribuídas pelo governo. “É pra estimular a prevenção”, diz o paulistóide, viado como a própria viadagem e pobre como a própria favelice. Sei. Não rendeu nota, muito forte.
Tento ouvir um grupo de pessoas que estão simulando sexo, vestidas, amontoadas umas por cima das outras na avenida. “RONALDO”, começam a gritar, apertando os mamilos do repórter. Desisto temporariamente. Retomo e novamente sou assediado fisicamente. Todos héteros.
Casais entrelaçam as línguas. Raros são gays. A maioria, pessoinhas sem o menor pedigree que estariam fazendo isso em algum shopping. As famílias levam suas crianças pra elas aprenderem que não é feio titio dar beijo de língua no titio. Bebês choram com a violência do som dos trios elétricos. A menina de uns 10 anos diz que os colegas estranham mamãe gostar de outra titia. Ela acha normal.
Cai a noite, a Parada já está descendo a Consolação. Começam a aparecer as primeiras pessoas caídas nas calçadas. A lesbo-homem carrega a lesbo-mulher que chora – sem nenhum motivo aparente. As drags não estão a fim de dar depoimento. No carro de som, um travesti grita: “Se eles não nos aceitam do jeito que somos, FODAM-SE! Obrigado às famílias que vieram”, conserta em seguida.
Pessoas correm. É um arrastão. Há mais espaço pra correr. Sinto que começa a ficar perigoso. Aparece um corintiano com o supercílio estourado. Um Guarda Civil Metropolitano parece ter vontade de levá-lo preso pelo crime de estar sangrando. “Circulando, todo mundo!”, gritam os PMs, num movimento de cacetete. Os atendimentos médicos superam a casa dos 300.
A avenida Paulista é evacuada com energia, borrachada e gás pimenta pela Rocam. A prefeitura inicia seu trabalho de limpeza, retirando toneladas de detritos da via. O desfile foi por respeito, mas o que durou foram as internações. Um deles foi enterrado num cemitério próximo a um aterro sanitário. Até a próxima. Gerou dinheiro, a bagaceirice está eternizada.
*O Outro Lado não tinha nada contra a Parada Gay até ir numa. Desrespeita minorias neste espaço todas as terças, quando não está bichado ou esgotado.
6 Comentários
Junho 23, 2009 às 10:58 am
a primeira (e única) parada gay que eu fui foi aqui em porto alegre, há uns 5 aos. me impressionei muito de ver uns caras muscolosos de sunga micro simulando ato sexual em cima de um carro de som, sendo que estava cheio de crianças no parque.
eles eram atores de uma produtora de filmes gays..
Junho 23, 2009 às 5:18 pm
meodeos!
Oo
heheheh
Boa semana!
Junho 23, 2009 às 6:38 pm
Narrativa sensacional. E o melhor é saber que é tuuuudo verdade.
Junho 23, 2009 às 6:54 pm
“Vou dar o lead logo no começo que é pra sobrar mais tempo pra falar mal do universo”
nem li o resto. morri aqui. <3
Junho 25, 2009 às 1:29 pm
Melhor foto.
Julho 6, 2009 às 3:18 am
[...] Daí que no meu último final de semana em Berlim tinha parada gay. Bom, não preciso nem dizer que foi ótimo. Que as pessoas eram civilizadas, que tinha barraquinha de comida, que era pura diversão, mas que tinha um lado político sério. Foram cerca de 500 mil pessoas, e era possível transitar com calma, sem estresse entre os participantes. As pessoas bebiam, sim, mas não tinha gente caindo no chão como numa certa cidade brasileira, onde morrer também faz parte (relembre aqui. [...]