Julho 9, 2009...1:31 am

O inferno é não ser uma ilha

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O inferno são os outros

O inferno são os outros

Por L’Andreis*

Há um documentário francês chamado “Crônicas de um Verão”, do mestre Jean Rouch com o teórico Edgar Morin. Clássico do cinema verdade, nele os diretores investigam a felicidade em um verão francês. Na consagrada paisagem parisiense, transeuntes são indagados sobre qual a causa de suas vidas serem miseráveis. É 1960, e a cidade está longe de ter problemas com trânsito, superpopulação, turistas e lixo demais.

Definitivamente, Paris é próspera e bela. Tem saúde, educação e emprego pra todo mundo. Então, o que faz com que aquelas pessoas digam que não são felizes?

É assustador quando se ouve que todas, absolutamente todas, não são felizes por conta de relações interpessoais. Não são apenas corações despedaçados, é a cunhada que atormenta, a sobrinha que inferniza, o sogro que desdenha, o chefe que grita.

Todo o phino que se preze tem o seu momento “dor e champanhe”. Apesar de ser bem 90, ainda cabe em uma tarde de domingo chuvosa, se você tiver um hobby de seda tipo diva e o cabelo bem escovado. A razão de um phino jamais será a conta do cartão de crédito, o despejo do apartamento, o clássico da xiliquenta classe B “NÃO TENHO ROUPA”.

Phina chora porque engordou e não poderá mais sair com as amigas pra comprar jeans sem entregar que veste 40, estraga a escova porque o namorado não teve classe pra trair ou porque o gatinho fica em um talvez que só prova que ele é doentinho, tadinho. E daí se pergunta:

- Por que eu gosto de gente assim? Entre um gole e outro.

Crônicas de um verão: educação e cigarrillas

Crônicas de um verão: educação e cigarrillas

Como na França em 1960, nossos problemas podem ser considerados fúteis, “pura falta de laço”. A verdade é que, com ou sem laço, estaríamos melhor em uma cultura menos hipócrita e mais carinhosa. Em 2005, tivemos a idéia de fazer a versão de “Crônicas de um Verão em Cuba”. A nossa certeza, de estudantes de cinema que estavam em contato com os cubanos há algum tempo, é que lá as respostas seriam só felicidade.

Cubanos não escondem sentimentos, não fogem de situações. São clássicos vulcões latinos que dizem o que pensam, doa a quem doer. Não têm questões a serem resolvidas, já solucionaram tudo à base de rum, salsa e alguma gritaria.

Um dos meus principais defeitos é ser tão européia em um primeiro momento e tão cubana no segundo. Não grito e não xingo na hora, mas depois fico remoendo e baixa a mulata habanera. Fail.

Estou inclinada a pensar que essa história de guardar tudo e chorar no cantinho só interessa a quem causou o choro. Já que temos que conviver com o ex, a cunhada, a sobrinha, o sogro e o chefe, que a gente retribua, com certa phinesse, a mesma energia de volta da fofoca, do desprezo, da grosseria. Sempre sorrindo e falando baixo, claro.

Verão em Cuba: noção nenhuma e charutos

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*L’Andreis demorou 27 anos para aprender que chorar no cantinho dá câncer e vai levar mais 27 pra se dar conta que bom mesmo é morar em um sítio com 18 cachorros, como a musa ruiva Hilda Hilst. Enquanto isso, aproveite que ela ainda tem internet e escreve toda a quinta aqui.

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