
O inferno são os outros
Por L’Andreis*
Há um documentário francês chamado “Crônicas de um Verão”, do mestre Jean Rouch com o teórico Edgar Morin. Clássico do cinema verdade, nele os diretores investigam a felicidade em um verão francês. Na consagrada paisagem parisiense, transeuntes são indagados sobre qual a causa de suas vidas serem miseráveis. É 1960, e a cidade está longe de ter problemas com trânsito, superpopulação, turistas e lixo demais.
Definitivamente, Paris é próspera e bela. Tem saúde, educação e emprego pra todo mundo. Então, o que faz com que aquelas pessoas digam que não são felizes?
É assustador quando se ouve que todas, absolutamente todas, não são felizes por conta de relações interpessoais. Não são apenas corações despedaçados, é a cunhada que atormenta, a sobrinha que inferniza, o sogro que desdenha, o chefe que grita.
Todo o phino que se preze tem o seu momento “dor e champanhe”. Apesar de ser bem 90, ainda cabe em uma tarde de domingo chuvosa, se você tiver um hobby de seda tipo diva e o cabelo bem escovado. A razão de um phino jamais será a conta do cartão de crédito, o despejo do apartamento, o clássico da xiliquenta classe B “NÃO TENHO ROUPA”.
Phina chora porque engordou e não poderá mais sair com as amigas pra comprar jeans sem entregar que veste 40, estraga a escova porque o namorado não teve classe pra trair ou porque o gatinho fica em um talvez que só prova que ele é doentinho, tadinho. E daí se pergunta:
- Por que eu gosto de gente assim? Entre um gole e outro.

Crônicas de um verão: educação e cigarrillas
Como na França em 1960, nossos problemas podem ser considerados fúteis, “pura falta de laço”. A verdade é que, com ou sem laço, estaríamos melhor em uma cultura menos hipócrita e mais carinhosa. Em 2005, tivemos a idéia de fazer a versão de “Crônicas de um Verão em Cuba”. A nossa certeza, de estudantes de cinema que estavam em contato com os cubanos há algum tempo, é que lá as respostas seriam só felicidade.
Cubanos não escondem sentimentos, não fogem de situações. São clássicos vulcões latinos que dizem o que pensam, doa a quem doer. Não têm questões a serem resolvidas, já solucionaram tudo à base de rum, salsa e alguma gritaria.
Um dos meus principais defeitos é ser tão européia em um primeiro momento e tão cubana no segundo. Não grito e não xingo na hora, mas depois fico remoendo e baixa a mulata habanera. Fail.
Estou inclinada a pensar que essa história de guardar tudo e chorar no cantinho só interessa a quem causou o choro. Já que temos que conviver com o ex, a cunhada, a sobrinha, o sogro e o chefe, que a gente retribua, com certa phinesse, a mesma energia de volta da fofoca, do desprezo, da grosseria. Sempre sorrindo e falando baixo, claro.

Verão em Cuba: noção nenhuma e charutos
*L’Andreis demorou 27 anos para aprender que chorar no cantinho dá câncer e vai levar mais 27 pra se dar conta que bom mesmo é morar em um sítio com 18 cachorros, como a musa ruiva Hilda Hilst. Enquanto isso, aproveite que ela ainda tem internet e escreve toda a quinta aqui.
12 Comentários
Julho 9, 2009 às 2:21 am
Excelente texto. Eu também descobri que chorar no cantinho dá câncer, mais foi vendo Mon oncle d’Amérique, do Alain Resnais. Lá explica que como não vou poder virar cubana com meu chefe, por exemplo, viro cubana com a pessoa errada. E essa com outra. E essa com outra.
Julho 9, 2009 às 2:39 am
Descobri que eu uso a minha cubana menos do que deveria…
Julho 9, 2009 às 6:55 am
como não uso meu lado afro pra por as mãos na cintura e descer o barraco (tentando ser phina). exerço mais o meu lado lusitano (também pouco phino). vou acumulando minhas mágoas até que elas virem um fado… talvez, eu devesse me inspirar nas cubanas ou então nas espanholas. sempre achei o barracos dos filmes de Almodovar interessantíssimos…
Julho 9, 2009 às 2:35 pm
Sabe que eu parei de ser agressiva quando vi que isso só trazia agressividade de volta pra mim e eu não estava pronta pra aturar.
Mas agora eu prefiro levar de volta. Na hora. Que no calor do momento, eu nem sinto a pancada. =)
Julho 9, 2009 às 5:28 pm
eu sou italiano esquentadinho mesmo.
Julho 9, 2009 às 6:14 pm
“estaríamos melhor em uma cultura menos hipócrita e mais carinhosa” = saudades da juventude alemã. Juro por Deus que são carinhosos!
Julho 9, 2009 às 7:47 pm
“Cubanos não escondem sentimentos, não fogem de situações. São clássicos vulcões latinos que dizem o que pensam, doa a quem doer. Não têm questões a serem resolvidas, já solucionaram tudo à base de rum, salsa e alguma gritaria.”
Quero dar um reboot e virar cubana, pode ser?
Julho 9, 2009 às 8:20 pm
ah, a juventude, Rafa.
eu não queria só ser cubana, SS, dava tudo para estar lá agora. =)
Julho 9, 2009 às 9:03 pm
Primeira parada: Cayo Largo.
Vambora!
Julho 9, 2009 às 9:06 pm
Ahhhhhhhhhhhhhhh!
Eu morro por ficar uma semana em Cayo Largo. Me curei de um coração despedaçado lá.
Junto com outra coisa: i-ta-li-a-nos.
Julho 10, 2009 às 12:33 pm
sei que estou atrasada na leitura, mas não pude deixar de comentar a respeito da melhor frase já lida nos últimos tempos: “estaríamos melhor em uma cultura menos hipócrita e mais carinhosa”
concordomuitocomtudoisso.com/verdade
Julho 11, 2009 às 2:46 am
[...] semanas depois, inesperadamente, essa moça apareceu.Não podia ser mais diferente. Era jovem, 14 anos mais jovem, fina, rica, classuda, [...]