Sorvendo de borco a melhor parte da comida

molho bolonhês feito com todo o amor

Por O Outro Lado*
(Em Busca do Feno)

Toute la cuisine dans la sauce, reza o phinérrimo dito francês. Na
prática, quer dizer é o seguinte: sem o creminho de leite flambado no
conhaque e engrossado na maizena, arroz é só arroz. Pode ser a melhor
carne, ela tem que ser suculenta e/ou levar aquela bernaise em cima.
Bem passada é o catzo. Sushi só com shoyu, arruinando todo aquele
arranjo saudável de carne crua, alga e o cereal do bem. Brasileiros
exageram na dose e fazem o rolinho boiar no molho preto. As
estatísticas nacionais de infarto não negam nosso gosto pelo
colesterol e o sal.

Eu vou pelos dois: quero o sangue escorrendo e um creminho de banha
gostoso num vermelho amalgamado. O coração que se vire pra bombear o
meu depois. Esquece o churrasco, essa comida primitiva e nada phina.
Mas repare: o bárbaro que se alimenta do bicho morto e espetado não
dispensa a cerveja em lata para empurrar a proteína bucho adentro. Não
deixa de ser molho.

A paixão pelo molho é inata, mas a prática em sorvê-lo vem da
educação. Um pequeno parêntese.

Minha mãe não é apenas germânica, mas blumenauense. Sim, natural
daquela cidade de onde o Bonner vem transmitindo o Jornal Nacional.
Isto quer dizer duas coisas: que cresci ouvindo muito grito e tomando
muita porrada. E que aprendi, por estes e outros meios, a dar um
valor quase eucarístico à comida. E, claro, ao molho.

Com a força dos hábitos lapidados pela necessidade das gerações
ancestrais, o aproveitamento da comida e portanto do molho alcança as
últimas conseqüências. Não foi em nenhum outro lugar senão em casa que
desenvolvi o hábito de sorver aquela sobrinha de molho que fica no
prato emborcando o mesmo em direção ao rosto. Não é aceitável deixar
aquele precioso líquido das sobras de creme, vinagre balsâmico e a
própria seiva da carne no prato. É a chave de ouro para a refeição
digna.

Meu gosto pelos molhos e por comidas ensopadas encontra respaldo na
tradição chinesa e oriental – bem como o de emborcar o prato. Quem tem
o privilégio de morar em uma cidade com um bairro japa pode procurar o
tradicional restaurante chinês e conferir. Lá estará o tio chinês
sorvendo seu molho, deixando pingar na camisa que um dia foi branca.
Não é preciso chegar a este ponto, claro.

No conforto do lar, no entanto, não veja necessidade alguma de se
reprimir. Sobrou aquele molho bolonhês que você fez com todo o amor e
vinho chileno no prato? Pra que engordar misturando mais massa,
emborque seu prato e se delicie. Ambientes em que não se importa com a
opinião dos seres humanos ao redor também são passíveis da homenagem à
melhor parte da comida. Numa praça de alimentação de shopping
paulista, cercado por aquelas pessoas motobóis e horrorosas, não veja
por que desperdiçar. Dependendo do molho, não se envergonhe e lamba o
prato. É libertador.

*O Outro Lado emborca molho por aí há 28 anos. Não dispensa um bom gordurame chinês nem petiscos árabes no Paraíso. Prefere não falar de suas preferências quanto a outros fluidos.

Nota do editor: As opiniões aqui publicadas por “O Outro Lado” em sua coluna “Em Busca do Feno” são de total responsabilidade do autor. Os cinco colunistas que aqui escrevem não compartilham das mesmas idéias. O espaço dado serve única e exclusivamente para dar voz aos excluídos da phinesse. Leia, reflita e veja o que não fazer. O phino é o seu caminho? Você realmente vai se esforçar para tê-lo? Abrirá mão de certos prazeres? Está na sua mão. Ninguém disse que seria fácil.

5 Comentários

Arquivado em dica culinária, Em Busca do Feno, O Outro Lado

5 Respostas para “Sorvendo de borco a melhor parte da comida

  1. tive uns dez tipos de medo da cena na praça de alimentação.

  2. Este testemulho tem um contraste delicioso: a descrição phina para um hábito porco. Mas fica claro que o autor tem potencial para desenvolver o polimento e o glamour, o trecho “cercado por aquelas pessoas motobóis e horrorosas” é de um esnobisbo digno de L’Andreis, a mais phina entre nós.

  3. O outro lado

    Esnobismo alegretense, superior ao argentinismo.

    E por que é um hábito porco? Só se o prato não estiver bem lavado, o que fará da refeição inteira uma porcaria.

  4. sextasessao

    Comendo feijão e arrotando peru. Esse esnobismo alegretense é herdado, não nativo, que eu sei…
    Não classifico mais teu hábito de porco, mas não te acompanho em almoço-com-molho quando eu for aí, combinado?

  5. Pingback: Menos bolsa Dior e mais modos à mesa « Em busca do phino

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