Vergonha internacional

esquia comigo hoje, sem preconceito?

esquia comigo hoje, sem preconceito?

Por Dany Darko*

Com o inverno chegando aqui acima da linha do Equador e a neve já dando os ares da graça, inicia também a época mais aterrorizante do ano: a abertura das estações de esqui. O período é deveras celebrado pelos europeus, que praticam o esporte desde que deixam de engatinhar. Mas o temor da estréia dos invernos nada tem a ver com quem domina a arte de deslizar montanhas com phinesse, mas com aquelas criaturas que acreditam que esquiar é como jogar pelada no final de semana e que vexame é aceitável e, às vezes, até necessário, onde ninguém te conhece.

Brasileiro, né. Brasileiro já sai colorido de casa: calça alaranjada, agasalho verde-limão, gorro vermelho combinando com as luvas, óculos fosforescentes – tudo bem baratinho pechinchado nas feiras de artigos usados das comunidades árabes. Na mochila, vai a bandeira da pátria amada e os utensílios da capirinha. Para dividir as alegrias deste esporte que nada tem de coletivo (mas brasileiro precisa sempre andar em manada), ele encontra outros conterrâneos, aqueles da bandinha de pagode. E sempre tem lugar para o berimbau, acessório indispensável para praticar esportes na neve.

Rumo à montanha, dentro do ônibus, a animação começa. O grupo de pagode tem repertório que varia de Zeca Pagodinho à Ouviram do Ipiranga, regado à martelinhos camuflados de 51, já que aqui a chinelagem é proibida dentro dos veículos de transporte coletivo. Mas brasileiro « sempre dá um jeitinho », vocês sabem. Assim, a cachaça vai na garrafinha d’água. E a quentinha está esperando a hora do almoço: brasileiro bom não gasta dinheiro nos restaurantes das estações de esqui, até porque lá não tem farofa.

Ao chegar ao destino, é fácil separar nossos compatriotas de todas as outras nacionalidades, visto que os primeiros parecem a alegoria de carnaval da Mangueira celebrando a primeira vez na vida que vêem neve, e os segundos… bem, os segundos parecem pessoas “normais”.

Já na pista, fica óbvio identificar os verde-amarelos: são aqueles que esquiam tão bem quanto sacos de batatas nos lugares destinados às criancinhas (geralmente gratuitos). Enquanto os pequenos dominam os instrumentos do esporte com destreza invejável, nossos amigos mal conseguem se manter em pé nos esquis e passam boa parte do tempo gelando a bunda no chão e pedindo socorro para se desgrudar do solo.

Caso não consigam, acabam ficando bem no meio da passagem das pessoas, momento que aproveitam pra abrir a quentinha e repor as energias. E ainda arrumam briga se alguém resolve reclamar da falta de phinesse.

O momento alto do dia é reunir os conterrâneos para a famosa foto com a bandeira brasileira. Esse ritual de comemoração da nacionalidade sempre termina com a entonação de “tá dominado, tá tudo dominado”.

Mas não está. Porque, no dia seguinte à experiência do esqui, quando acorda e percebe que o estrago foi tão grande que não consegue nem levantar da cama, ele se dá conta que falta phinesse no sangue e na alma para continuar freqüentando as estações. Esse é o ponto em que ele resolve montar um time de futebol: Vergonha Internacional Futebol Clube. É, infelizmente, brasileiro não desiste nunca.

*Dany Darko não quer esquiar com você, seja na França, seja onde estiver. Se sentir muitas saudades dela, volte aqui na próxima quarta. Ou clique aqui e suplique por seu amor -a la francesa, é claro, gato.

6 Comentários

Arquivado em contribuição phina, correspondente internacional, Dany Darko, fica aí a dica

6 Respostas para “Vergonha internacional

  1. tenho muito medo quanto tudo está dominado por brazucas…

  2. odeio parecer turista, isso me isenta de vergonha?

  3. Denise Frizzo

    Nunca li uma materia que defina tao bem os brasileiros no exterior!! Dany, simplesmente demais teu texto!

  4. L´andreis

    É por isso que vou pra Antártida.

  5. Julia

    Lella! ta foda mulher, desse jeito tu vais escrever um livro, “como detonar brasileiros no exterior”, cansei, tais parecendo argentina …. mas ainda te adoro

  6. erica

    ainda acho que brazileiro leva uma fama injusta.
    nada, nada pior que coletivo de italianos e espanhóis. sim, ganham de brasileiros.

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