Minha sogra é o que há

Lingua-de-sogra de festinha apita menos que a da minha

Língua-de-sogra de festinha apita menos que a da minha

*Por SextaSessão

Ontem acordei tentada a propor a coisa menos phina do ano e perder mil pontos na teoria da dignidade. Ou ganhar, se a parte interessada se interessasse. Planejei o enredo, o local, os detalhes e o horário.

Prometia dar certo, até eu lembrar que quinta-feira é noite de escrever e desenhar para o Phino. Obrigada, Rafa, por me fazer manter a classe e as roupas no corpo.

Agora vejam a minha situação: meu post é na sexta, quando todos estão com um pé no final de semana, prontos para descer do salto da phinesa e sijogar na vida. Tarefa difícil, então melhor escolher um tema fácil, agradável e rápido.

Minha sogra.

Falo sério. Com oitentinha completados este ano, ela é o que há de glamour na terceira idade. Dia desses, bicha decoradora que mora na Padre Chagas encontrou ela e minha cunhada: “estava pensando nas peffoas mais chiques do Moinhos de Vento e na hora me lembrei da senhora, sempre lin-dá.”

Tem uns 1,55m de altura e 40kg, olhos azuis-piscina, cabelos loiros e revoltos, ao estilo Yeda, e não precisa de óculos. Prefere blusas de mangas longas mesmo no verão porque “os braços estão um horror com essas pelancas”. Fora isso, nunca a ouvi se queixar da perda da beleza – que era grande, segundo as fotos – mas se irrita com as falhas de memória. “Tudo bem, dona T.?” “Ah, com a cabeça desse jeito, vai se levando.” Mantém a forma perambulando pelo bairro. Da hidroginástica ela saiu: “cansei. Só tem velha”.

Fala muito. É incontrolável. Não consegue olhar nos olhos de um ser humano sem começar uma conversa. Troca uma idéia até com caixa de farmácia. Mas não faz a íntima. Mantém aquela distância de elite que trata com gentileza as classes proletárias. Já se um amigo pergunta “como vai?”, ela conta mesmo: “estou meio gripada, mas já me enchi de vitamina. Agora, acabei de ver o 007. Não gostei. Os primeiros que eram bons”… e discorre.

Só usa sapado de saltinho, saia lápis e blusa – jamais calça, estampados ou vestido floreadinho de velha. Mas é um tanto distraída com o visual. Um dia foi almoçar no shopping com um scarpin básico num pé e um scarpin peep toe no outro. Minha cunhada surtou. “Mãe, não sai da mesa. Não te mexe. Vou na Datelli comprar um sapato e já volto”. Mal a filha saiu, dona T. foi toda serelepe para a cafeteria pedir um pingado. “Ninguém vai notar. Se nem eu notei…”.

Elevador do shopping, crava os olhos no cofrinho aparente de uma jovem avantajada. “Mãe, o que é isso? Tu não pode ficar olhando para as pessoas assim. Que vergonha”, protestou o filho. “Vergonha é aquela bunda cheia de celulite com a calcinha aparecendo.”

Dona T. tem um amigo travesti que mora na Itália, e combinam um convescote todos os anos, quando ele vem a Porto Alegre. Se refere a ele como mulher, elogia a phinesse da amiga, as línguas que ela fala, o marido italiano, as viagens que ela faz. Não ignora que sua amiga faz pipi de pé. Só não liga.

Domingo desses, almoçávamos num restaurante da Independência quando o administrativo aponta para um armário de quatro portas, meu colega de academia, e avisa: “é amicíssimo da mãe”.

“O quêêê, tua mãe se dá com marombado?” “Ele é cabeleireiro e é uma bicha”. No bufê: “o-iê, tudo bem? Como tá tua mãe? Saudades dela.”

Viúva de dentista, dona T. tem um único critério para definir a beleza humana: os dentes. “O fulano é muito bonito. Tem uma dentaduuura.” Administrativo me informa: fulano parece um bugio. Outra vez, um canadense amigo da minha cunhada andava por estas bandas. “Ele é muito simpático, mas é a coisa mais feia do mundo”, me preveniu a sogra. Pois era um coroa bem ok, só que tinha os dentes amarelados e tortos.

Minha sogra tem uma família eclética, que inclui um parente ex-ministro e outro piloto, de alcunha João Maconha, porque operava linhas informais com destino ao Mato Grosso do Sul. Há uns 15 anos, quando dona T. era uma garotinha de 65, foi ao Rio esperar a filha que voltava de Paris. João insistiu em levá-las para jantar. Antes, foram sorver um aperitivo num bar escuro em Copacabana. Ele foi ao balcão, teve um diálogo rápido como uma moça de minissaia e botas brancas de cano alto e a levou para a mesa, apresentando-a como amiga.

Dona T. convida a operária da indústria do entretenimento sexual para sentar ao seu lado e começa uma conversa doméstica. Algo como tirar manchas de roupas e as vantagens de usar no chão as então modernas ceras plásticas (tacolac, lembra?). A conversa e a janta seguiram no mesmo tom. Minha cunhada constrangida, minha sogra animada e falante. “Ô, mãe, tu não notou que aquela mulher era uma prostituta? Que tipo de papo foi aquele de vocês?” “É claro que eu vi. Mas tu queria que eu conversasse com ela sobre o quê? De trabalho?”

*SextaSessão dir-te-á quem é ao dizer-te com quem anda. Tem uma sogra TPF e GLS ao mesmo tempo. Prefere desenhar a escrever, mas só descobriu agora que não tem nenhuma foto da sogra para inspirar a ilustração. Pinta neste blog nas sextas e borda aqui nos outros dias.

7 Comentários

Arquivado em muito phino, relaçã? sã?, SextaSessão

7 Respostas para “Minha sogra é o que há

  1. O q é TPF? e como a capa dessa semana da revista será minha, e eu fiz uma “matéria do bem”, como bem avaliou minha colega, vou ali me jogar e já volto. (inspiração para o fututo do post: como seremos nós velhinhos? meeeedo)

  2. L´andreis

    Amei a sogra. Quero conhecê-la e levá-la para um brunch. Passa meu número pra ela!

  3. TFP: tradição, família e propriedade. A coisa mais à direita da direita. É que omiti as teorias da sogra sobre política, segurança pública e controle da natalidade.

  4. Pingback: Elogiar a sogra é para quem pode « Sextasessao’s Weblog

  5. Não sei da sogra, confesso que sou um pouco alérgica, então evito. Mas o texto é sensacional!!!

  6. Pingback: Essa é a história de um homem do mal « Em busca do phino

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