Voltei de Londres… e tava sooo last week

queria tanto um cintão dolce & gabbana

queria tanto um cintão dolce & gabbana

Por Vivi*

Nem glamourosa, muito menos phina. A minha vida na Europa pode ser resumida por calos nos pés, esporros de chefes, muito almoço em frango frito, muitas gírias cockneys, muito shifts, muito trabalho. Alguma diversão. Mas pouca phinesse.

Passei um ano em Londres. Pra quem nunca passou um ano em Londres (ano-novo ou visitar primo não contam), viajar pra lá é lindo: os parques, as feiras, os mercadinhos de rua, o Big Ben (!), a rainha (!). Nessas condições. Mas morar naquela cidade estudando num-cursinho-de-inglês-na-Oxford-Circus e tendo uma vida de garçonete faz tu ter uma visão bem menos entusiasta da capital inglesa.

A minha Londres era meu trabalho de garçonete. O meu chefe principal, o Stiofan, um irlandês bibíssima, sempre reclamava que eu usava o avental amarrado na cintura, e não no pescoço. A minha colega inglesa, Yvette, conseguia discutir por horas sobre a forma de colocar manteigas nos potes que iam às mesas.

A questão girava em torno da polêmica sobre se o produto deveria ser acondicionado em cubinhos dentro dos recipientes ou colocado no microondas por 20 segundos, para, amolecido, ser posto no potinho de tal forma a ocupar todo o recipiente raso – não sem depois passarmos uma faca sem serra em cima da manteiga, para ela ficar plana (a minha NUNCA ficava plana) e um guardanapo a posteriori, para limpar as sobras.

O Yann, meu chefe francês, esse sim mais phino a ponto de comer morangos e beber champagne em Wimbledon, me dava aulas, todas as noites, sobre como polir talheres. A teoria, para um simples mortal capaz de somar 1 com 1, consistia em colocar os metais em uma bacia com água quente e vinagre, pegar um pedaço de pano e esfregar facas, garfos e colheres, de tal forma a tirar as manchinhas que ficam quando a louça é deixada para secar naturalmente. Simples? Pois não era.

O Yann era capaz de brigar ferrenhamente para defender a sua técnica, que era composta de variações tais como a melhor forma de segurar o pano, o melhor tipo de tecido, a quantidade exata de vinagre a ser posta, a forma de polir para que os metais ficassem mais brilhantes.

Eles conseguiam dissertar sobre essas mediocridades por muito tempo. E gerar polêmicas e reuniões semanais com toda equipe de garçonetes e bartenders. Essa era a vida deles. Mas não a minha.

Meu outro trabalho era numa boate, servindo bebidas. Ali sim era muito mais animado e mais leve. Não lembro de ter ouvido nenhuma reclamação de que os copos estavam mal polidos. Lá a coisa era mais tranqüila e as conversas giravam em torno de festas, faculdade, viagens, países de origem.

Metade da equipe era contratada pelo gerente principal (geralmente universitários indies de 20 e poucos anos que faziam moda e cheiravam coca todo fim de semana) e metade pelo gerente secundário (africanos e alguns brasileiros ilegais). Eu fui contratada pelo gerente principal, estranhamente – dado que combinava mais com a segunda casta. O primeiro grupo falava em um inglês praticamente indecifrável e cheio de gírias – o que tornava nossa comunicação bastante complicada.

Já com o segundo, eu ia à forra. Dançava qualquer música (de Amy Winehouse a Britney Spears) ao ritmo de tribos africanas com o pessoal da Tanzânia, aprendia gírias cocneys (dos “mano”), conversava sobre formas de se defender da imigração com os brasileiros. Enfim, me sentia em casa com a perifa do The Roxy – e adorava.

Quando eu estava no The Roxy era o único momento em que sentia orgulho da minha classe. Porque os papos eram divertidos, eu gostava de conhecer coisas sobre a África e aprender dancinhas. Tudo regado a muito frango frito, o prato principal da perifa londrina.

Logo que eu voltei pra Porto Alegre, não sentia falta alguma de lá. Porque eu voltei pruma cama fofa, com ar-condicionado, almoço em buffet em shopping center, carro na garagem, um emprego de jornalista, um cartão de banco gordo. (os phinos de verdade que me desculpem, mas essa conjunção, para mim, é o supra-sumo da phinesse. ainda mais pra quem veio da perifa como eu vim).

Voltei pruma vida pequena-burguesa, confesso, mas confortável e menos medíocre. Estava cansada do meu dia-a-dia de garçonete. Minhas alegrias consistiam nas viagens que fiz e nas festas que ia eventualmente.

Eu até que me esforçava: mandei currículo pra trabalhar numa bilheteria de cinema, fiz curso na BBC, produzi um filme que não chegou a ser rodado por falta de equipe (meu ex-namorado, economista, seria o produtor, e minha amiga, faxineira, seria o boom).

Eu conseguia me divertir, ir a festas onde rolava muito álcool, fazer tour em pubs por toda cidade, mas a vidinha de garçonete e suas chatices predominava. Há que se ter MUITO desapego de phinesse para ficar lá a longo prazo nessas condições, coisa que não tive.

Três meses após ter desembarcado no Salgado Filho e depois de comer um bife a parmegianna com Coca Light, ler a Folha e ligar o computador pra rever as fotos, até sinto falta dos meus amigos, dos países que visitei. E não descarto a possibilidade de voltar. Mas só com algum mestrado encaminhado.

Tenho a impressão de que, se eu convivesse com pessoas mais parecidas comigo e em um ambiente em que eu me sentisse produtiva, a eventual vida de garçonete até seria suportável outra vez.

*Vivi aprendeu gírias cocneys em Londres, mas não as prenuncia nem sob tortura. Ontem, jogou fora seu cintão Dolce & Gabbana e resolveu começar caminhada rumo à phinesse neste espaço, com textinho dominical.

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3 Comentários

Arquivado em contribuição phina, correspondente internacional, fica aí a dica

3 Respostas para “Voltei de Londres… e tava sooo last week

  1. O mais legal de Londres foi ter conhecido dois suíços. O loiro porque era lindo e me levava em shows legais que eu nunca teria ido. O moreno porque trabalhava num banco que estava pagando curso e tudo o mais pra ele viver na terra da rainha. Quando ele cansava de McDonald’s com os brazucas, me levava pra comer em restaurantes phinos. Eu tinha 20 anos na época e não lembro de ter feito refeição melhor do que quando fomos num restaurante francês… A conta foi absurda, era tipo um Fasado londrino, sei lá. Foi só um mês, mas foi pura felicidade. E um pouco de glamour tb, por que não?

  2. Pedro

    O grande dilema é escolher se é melhor ser chique em Porto Alegre (blé!) ou ser ralé em Londres. Ainda tenho que experimentar a segunda pra decidir.

  3. rafael

    on the principles of the presentation of butter

    tu sabe que eu fiquei muito inclinado praquela técnica em que o pote vai ao microondas. posso até ver como a manteiga fica bem parelhinha.

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