Menos bolsa Dior e mais modos à mesa

Norman Bates quer jantar com você

Norman Bates quer jantar com você

Por SextaSessão*

As preferências gastronômicas e os modos à mesa são o termômetro definitivo da phinesa. Não adianta a pessoa se cercar de todos os produtos glamourosos e caros, viajar pelo mundo, ter rendimentos milionário e uma coleção de jóias Tiffani se não souber comer.

É diante de um prato, seu conteúdo e o desenrolar do relacionamento entre sujeito e alimento que se revela de onde ele saiu e onde vai chegar no mundo do glamour. O Em Busca do Feno nos deu um petisco esses dias sobre o tema. A descrição de seu hábito de emborcar o prato contra a boca para sorver as últimas gotas de molho e a expressão “aquela gente motoboy e horrorosa” me fizeram pensar em quem se comporta mal à mesa e em tele-comidas. Segmentamos:

Estivadores à mesa
Há gente que segura os talheres e corta a carne como se estivesse diante de um animal vivo. Fincam o garfo firme para o bicho não escapar, ao estilo Norman Bates. Uns cortam a comida e depois trocam os talheres de mãos para levar o alimento à boca (dos pecados, o menor). Outros trançam os dedos no garfo e fazem contorções incríveis nos punhos para abocanhar o pedaço cortado. Há quem baixe a cabeça, para o trajeto ficar mais rápido e os respingos que soltam da boca caírem no prato. Outros apóiam os cotovelos na mesa à moda estivador.

Gente que corta espaguete e palita os dentes dispensa comentários. Certa vez, o administrativo, que tem modos exemplares, esboçou a intenção de cortar um talharim. “É só na manteiga. Sem molho é mais difícil… escorrega do garfo”, tentou se explicar. “Te vira, dá um jeito. Devia ter pedido fusilli, pene ou nhoque.”

Comer bastante é ok. Repita quantas vezes quiser, só não deixe a comilança empilhada no prato no formato-vesúvio, nem com um ovo de codorna no topo. É trash. Ouvindo meu comentário sobre uma jovem na mesa ao lado, “Colega Maluca 1” respondeu dia desses “mas eu também como como um estivador…” A tranqüilizei, ela não come “como”, mas “tanto quanto” um estivador.

Quando minha irmã e eu éramos garotas, a cada novo ficante ou candidato a namoradinho, as perguntas que fazíamos uma para outra eram: “ele beija bem?” “ele te disse coisas” e “já viu ele comendo?” Tinham que ser aprovados no test drive da refeição antes de serem considerados aptos a freqüentar nossa casa. Meu irmão violou a regra, namorando uma garota bonita que segurava o “animal vivo” no prato. Até hoje, quando nós lembramos da existência da menina, sempre comentamos sobre sua falta de etiqueta alimentar.

Tele-jantar
Os motoboys são responsáveis por trazer um dos maiores malefícios da área alimentar: a tele-comida. Está trabalhando e não pode sair? Ok, não vá se entupir de biscoito. Peça uma tele-refeição. Mas nada justifica chamar tele-jantar em casa.

O faminto, ao invés de se arrumar, perfumar e ir curtir um restaurante acompanhado de outrem ou sozinho, prefere esperar a comida já em processo de esfriamento acondicionada num pote de plástico, alumínio ou papelão.

O comilão vai receber o alimento de um motoqueiro com aquela roupa de nylon horrorosa e o capacete usado como gorro, encaixado acima da testa – erguido o suficiente para manter o eyes contact com o cliente. Se estiver chovendo, o nylon molhado dá um visual de bombeiro, e o troco é entregue dentro dum saquinho plástico úmido. O consumidor vai ter que arrumar a mesa, esquentar a refeição no microondas e depois lavar a louça. E tudo isso por preço semelhante ao que gastaria ao ir até o estabelecimento gastronômico.

Falta de carro, restaurante longe, pressa ou “está chovendo” são inaceitáveis como argumento. A única desculpa tolerável é ter filho em idade pré-civilizada que não pode acompanhar os pais no restaurante.

Amiga minha estava saindo com um cara. Tomaram uns cafés pós-expediente e trocaram uns beijos. Ele queria seguir da cafeteria para casa. Ela avisou: com café tu merece só beijo, se quiser mais, vamos ter que jantar. Dias depois veio o convite. Ela passou na cada dele e, ao ver rapaz vestido sem glamour, indagou se não iam jantar. Ele: “Em seguida a tele-pizza chega. Vamos comer aqui, assim a gente fica mais juntinho”, disse, puxando a gata pela cintura. Ela empurrou gentilmente: “então aproveita e liga para a tele-bisca, porque eu estou indo”. Achei justo. Muito justo.

* SextaSessão aprendeu a enrolar espaguete antes de ser alfabetizada. Não fala com pessoas que pedem tele-pizza e comem com a mão. E ensina: o que tem cheiro é meia suja, comida tem aroma. Escreve aqui, janta fora e bebe vinho sempre nas sextas-feiras. Nos outros dias, goes on a diet aqui.

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7 Comentários

Arquivado em dica culinária, fica aí a dica, SextaSessão

7 Respostas para “Menos bolsa Dior e mais modos à mesa

  1. L.

    enrolar espaguete, enrolar a folha de alface…coisa tao phina que, na sequencia, a gente enrola qualquer um! gente phina é gente safa.

  2. Muito aprendi sobre phinesse na casa de SextaSessão lá em Cafundó. É um dos lares mais phinos da cidade. A coisa que mais amava era a cozinha toda repartida, com salinha pra jantar. Depois quebraram tudo, reformaram e fizeram uma cozinha enorme. Não fui a favor. Mas fica na minha memória aqueles tempos phinos da infância. Mande um beijo pra tia Ana.

  3. Ah…nem me fala em lack of manners…
    Sujeito pretendente a namorado, lá no início da minha vida acadêmica, fazia tudo prá me conquistar. Era veterano e eu bixo da faculdade de Letras. Um dia ele me convida para uma pizza no almoço. Até fiquei interessada e fui. Me leva então a uma nova pizzaria na cidade – a primeira a vender pizza em fatias, vinha servida num papelão horroroso e com a gordura escorrendo papelão afora. Eu, muito rio-grandina achei um horror não poder usar talheres. Pior ainda foi ver o cara “sorver” o óleo que escorria da pizza…
    Em outra ocasião, quando ele ainda pretendia me conquistar aparece na minha casa no meio de uma tarde quente empunhando um “xis qualquer coisa” e uma champagne.
    No further comments!
    E tem um amigo que ainda acha um absurdo quando eu cogito, antes do primeiro encontro, se o sujeito sabe usar os talheres ou não…francamente!

  4. Colega maluca 1

    Esclarecendo: como tanto quanto estivador, mas é para manter todas as curvas e atividades físicas avançadas. Estou a apenas 1 kg do meu peso ideal neste verão!

  5. De tudo, o pior é a “língua-hélice” de algum ser que se acha humano quando mastiga e fala. Essa eu não perdôo.

  6. Pingback: Como tu comes?… « Sextasessao’s Weblog

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