Margo Channing way of life

“Tirei um peso de minhas costas, o Exército não me merecia mais”

A biba disse: “Tirei um peso de minhas costas, o Exército não me merecia mais”

Por Dany Darko*

Logo que cheguei na França, em agosto do ano passado, conheci um amigo de petit-ami, muito efusivo, que dedicava atenção e cuidados a todos os meninos da turma, mas, especialmente a petit-ami. Atenção e cuidados evoluíram para carinhos, e eu já estava com medo do que estava por vir, mas como toda pessoa phina, me contive nas primeiras semanas.

A situação tomou graves proporções quando, certa noite – brincadeira de bêbados – cada um tinha que dar um beijo na bochecha da pessoa à sua esquerda. Assim, eu beijei petit-ami que beijou pessoa efusiva, que, por mera coincidência (justificativa que ouvia desde que havia conhecido pessoa efusiva), estava sempre ao lado de petit-ami.

A proximidade gerada pela brincadeira abriu precedente para que pessoa efusiva desse passos adiante. E ele não perdeu tempo. Nessa mesma noite, pessoa efusiva abraçou petit-ami várias vezes, pediu para experimentar sua comida, deu doce na boca dele e pediu bisous na despedida.

No final da festa, quando nos separamos do grupo, pedi explicações:

– Quando é que tu vais cortar o teu amigo gay, hein?

Petit-ami ficou transtornado com a minha declaração. E me disse que pessoa efusiva não era gay, mas excessivamente carinhosa. Completou que o conhecia desde a faculdade, que trabalhavam juntos há alguns meses e garantiu que jamais havia visto a criatura com outro cara.

– E nem com outra guria, aposto – respondi.

E então petit-ami me olhou como Margo Channing olha Eve Harrington em A Malvada quando descobre a verdadeira e maléfica personalidade de sua companheira. Vejam só, Betty Davis me desprezou!

Calei-me, mas não consenti. Por algumas outras semanas, aceitei que pessoa efusiva ligando quase diariamente para convidar petit-ami para programas (aos quais eu estava obviamente incluída: mas era só o que me faltava não ser!) ou simplesmente para conversar, já que no trabalho, eles não se encontravam suficientemente. Arrã.

No dia da inauguração do nosso apartamento (evento obrigatório por aqui sempre que se chega a um novo imóvel), pessoa efusiva foi a primeira a chegar e não desgrudou um minuto do couro de petit-ami.

Na frente de todos os amigos, contou que petit-ami quase tinha orgasmos no trabalho quando comia Snickers, pedia bisous a cada minuto e, quando viu que nos beijávamos, me lançou a proposta de partager meu namorado com ele. Eu, de novo, com muita phinesse, respondi, sorrindo e serena:

– Amigo, deixa eu te explicar uma coisa: no Brasil, não tem essa de partager os namorados, não. O que é meu é só para mim. E tu trata de cuidar do que é teu. Estamos combinados? (notem: bem serena)

Ao que ele teve a cara de pau de responder, com toda a segurança do mundo:

– Aqui na França, também não dividimos os namorados: nós os conquistamos.

Chocada com tamanha audácia, relatei o ocorrido a petit-ami, que, novamente me assegurou que não era nada daquilo que eu estava pensando. Ainda tive que ouvir que minha compreensão do francês não era lá aquelas coisas, e que, provavelmente, eu deveria ter entendido algo errado.

Lavei minhas mãos. Decidida a não mais discutir, passei a ignorar as investidas de pessoa efusiva. Mas sem antes advertir que petit-ami é quem estava dando margem à situação.

Os episódios seguintes ajudaram a confirmar minha tese. Nos meses que se seguiram, pessoa efusiva fazia um escândalo cada vez que petit-ami me beijava ou me abraçava. Notei certa interferência quando petit-ami fazia questão de se afastar de seu amigo.

Independente disso, o interesse dele estava todo o tempo focado na gente. Chegou a pedir a atenção de um grupo de quase vinte pessoas, durante um jantar – ele em uma extremidade da mesa, nós na outra – para dizer que nossos carinhos eram excessivos. De efusivo, passou a ser chato.

– Ele não me deixa em paz! – reclamou petit-ami, certa vez.

– Claro, a criatura é apaixonada por ti.

– Mas tu, ainda com essa história?

Sim, ela durou seis meses. E nunca soube direito como ela acabou, o que sei é que não foi final feliz. Em janeiro deste ano, tive que ir ao Brasil renovar o visto e só voltei para a França na metade de fevereiro. Nas primeiras semanas de Brasil, recebi um email de petit-ami: “tu tens razão, pessoa efusiva é mesmo gay”. A grande descoberta do ano. E foi a minha vez de encarnar Margo Channing. “I detest cheap sentiment.”

De volta à França, notei mudanças logo nos primeiros dias: pessoa efusiva desistiu de sair sempre conosco e parecia sempre irritada com petit-ami, que era alvo de críticas e já não merecia tantos carinhos e atenções. Esses cuidados, por sinal, passaram a outro menino do grupo, pessoa tímida, que agüenta firme, há quase um ano, as investidas de pessoa efusiva. Por sinal, pessoa efusiva agora jura, de toda a alma, que é apaixonado por uma garota: pessoa misteriosa, já que a personalidade desta é guardada a sete chaves e está longe de ser revelada.

*Dany Darko atrai bibinhas, seja na França, seja onde estiver. Raramente tira um bom proveito da situação. (E quem tira?) Escreve aqui às quartas. Mostra o glamour também aqui nos outros dias.

4 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, relaçã? sã?

4 Respostas para “Margo Channing way of life

  1. “certa noite – brincadeira de bêbados – cada um tinha que dar um beijo na bochecha da pessoa à sua esquerda” – o que é isso senhor? SOCORRO!!!

    a propósito, pessoa efusiva é gatinho?

  2. Francês adora brincadeira de bêbados, Rafa. Preciso explicar como terminam certas festas? Alias, esse será o assunto do proximo post.

    Pessoa efusiva é “loca”. Muito loca. Ou seja, não, né?

  3. falando em gay, eu vejo meu amigo do banheiro todo dia na padre chagas. rodeado de gays e chamando-os de ‘meu amorrrr’. é gay, sim. eu tinha razão.

  4. Carol Andreis

    Adorei o codinome “pessoa efusiva”. Usarei para toda e qualquer sirigaita que quiser esfregar o silicone no peito do meu amado (porque ele é alto, forte e mulato – suspiro de felicidade).

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