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cada um tem a arte que merece

cada um tem a arte que merece

*Por L’Andreis

Ao contrário do de sempre desta coluna, deixarei a L´Andreis um pouco de lado hoje, até porque ela mesma diria que ironia e maledicência estão ficando datadas.

Uma das coisas mais interessantes e profundas que houve no navio foram os leilões de arte. Ao contrário de L´Andreis, não fui criada cercada de obras de grandes mestres pela mansão. Minha família sempre prezou o conforto e a comida (muita, sempre, de todos os tipos), e a cultura eles me mandaram aprender na Europa. Com dezessete anos e sendo tosca em arte consegui chorar três vezes em museus: no do Prado, na Galeria Ufizzi vendo Botticcelli e também de frente para o Davi original de Michelângelo.

Eu não sabia direito porque aquilo me afetava. Não era razão áurea, Fibonacci ou Adorno. Era algo mais profundo que eu queria entender e buscar. A sensação foi o que eu descobri depois se chamar SUBLIME. Um termo de Kant para algo que não é só prazeroso, divertido ou bonito, mas algo que nos atinge a partir do peito e deixa tudo dormente.

Ainda naquele barco tive essa experiência quando levantei a mão para dar um lance no leilão. Não era uma quantia grande. Não, nada disso. Era talvez o quadro mais barato dali. Nem era de um pintor e sim de alguém muito importante para mim e para meu marido: Charles Schutz. É esse mesmo. O do Snoopy.

A peça era um original do mesmo, e meu lance foi aceito para efetivar a compra. Saímos de lá tremendo. Uma das maiores emoções da nossa vida. Para todos no leilão éramos uns bobos que não sabiam nada de arte, mas entre nós dois sentíamos realização plena: um Schutz original na sala.

O que me levou a levantar a mão foi o discurso feito pelo gerente da galeria. Cabelo pra trás com gel e terno italiano, ele não seria visto com bons olhos pelos meus amigos em Porto Alegre. Ele começou contando, para nossa surpresa, que tinha doutorado em violão clássico e continuou falando que sua paixão por artes plásticas o tinha levado a deixar a música. A razão da paixão era o que ele dizia ser, apontando um quadro de Miró que vale 700 mil dólares, o porquê de um artista valer tanto: propósito, determinação e integridade.

A primeira palavra que Picasso foi capaz de falar foi lápis. Para ter um momento L´Andreis, Manolo Blahnik desde os 3 anos usava os maços de cigarros da mãe para fazer sapatos para lagartos e pássaros nas Ilhas Canárias. Eles não podiam fazer outra coisa. Quem sabe tentar serem médicos ou engenheiros, mas o propósito deles se perderia. Assim, eles foram atrás do que lhes parecia o óbvio: seguir no que sabiam e no que sentiam.

Por razões que me fariam estender muito, o Schutz ficou no navio. A vontade de colecionar arte veio comigo e vai seguir. Muitos odeiam Miró e já disseram muitas vezes que seus traços poderiam ser feitos por uma criança de sete anos. Mas se oferecessem a qualquer um de nós 700 mil dólares para fazer igual, estaríamos lá, de pincel na mão. Ele não teve isso e a maioria das pessoas que conhecemos também não tem esse incentivo para fazer o que se propõem.

Este texto, por exemplo, está sendo escrito por alguém que a vida inteira só se expressou pela escrita e já foi maltratada por isso. Talvez muitos digam que eu escrevo como alguém na quarta série. Mas é o que eu sei fazer e é o que eu ofereço pra vocês neste ano-novo.

*L’Andreis escreve aqui às quintas. Antecipou sua coluna porque dorme cedo. Além disso, vocês, phinos amados, merecem esta linda reflexão de ano-novo. Dany Darko está em Londres, desprezando todos os brasileiros que encontra pela frente. Volta na semana que vem. Rafa está tentando manter a classe no Rio e, ao que parece, está conseguindo. Lady Glam está ausente nas últimas semanas porque está ajudando na reconstrução de Santa Catarina com seus bons modos, mais precisamente em Ibiraquera. SextaSessão está se recuperando das queimaduras, mas sexta estará aqui, como sempre, para dar a sua lição semanal. Ótimas entradas (e saídas, por quê não?) para todos. O “Em Busca do Phino” volta em 2009. E você não vai perder, é claro.

3 Comentários

Arquivado em festas phinas, L’Andreis, trip phina

3 Respostas para “Oferenda

  1. Lindo, lindo. Ótimo começo de 2009 com esse texto.

    Tenho até vergonha de contar, mas eu só chorei uma vez, em Buenos Aires, no Malba, vendo um guia do museu gato dar um show de arte para as crianças. Ele explicando o auto-retrato de Frida e, depois, incentivando os pequenos a produzirem os seus, com um espelhinho ao lado, foi algo inesquecível… Queria pedi-lo em casamento e fugir pra bem longe, pra um lugar bem frio. Mas o cara não era gay. Sorte da namorada.

  2. L ´Andreis

    Ah, que lindo relato, Lord Rafa.
    Fofurices e doçuras assim são dignas nesta época. Depois só aspartame.

  3. Chorei uma vez. Na National Gallery, na frente de ‘Penteando o Cabelo’, de Degas. Porque adoro a pintura, mas também de solidão, saudades de casa, cansaço… Chorar de tristesa na frente de um Degas é phino, né Rafa?

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