Celular é coisa de pobre

Meu aparelho tá na merda

Por Rafa*

Ninguém me liga. Mas, infelizmente, eu preciso de um telefone por causa do meu trabalho. Tenho, por consequencia, um celular.

O meu é dos mais vagabundinhos, pré-pago, daqueles que se põe crédito de vez em quando. Troquei porque o outro que eu tinha estragou e era meio constrangedor. Teve uma época em que eu era chefe, e meu subordinados exibiam as mais puras novidades tecnológicas. Eu envergonhava eles, certeza.

Até que um belo dia troquei pelo meu aparelho atual.

Na hora de comprar, o atendente me perguntou: “qual era o meu objetivo com o celular?” Gente, como assim, que pergunta é essa? Deixei bem claro que buscava o mais baratinho, que não precisava de nada, que só queria falar. Bastava poder ligar e receber ligação; mandar e ler mensagens. Fim.

Tinha um que custava R$ 90, o mais em conta de todos, me informou o vendedor. “É esse mesmo”, fechei o negócio. Ele quis papinho, me disse que com mais R$ 10 eu levava um com câmera. Fiz cara de nojo e disse NÃO.

Fui embora da loja achando o novo bichinho bem ajeitadinho. É da marca Motorola, daqueles que abrem pra atender, dos mais pobrinhos, nem devem fabricar mais.

Até fui orgulhoso pro trabalho. Os subordinados da época debocharam. Não entendi nada. Os três, pasmem, eram mais novos que eu e ganhavam muito menos.

Mas tinham celulares ultra-mega-super-power de quase R$ 1.000.

Pasmem, capítulo 2: todos eram homens e heterossexuais.

E eu que pensava que curtir, apreciar e venerar aparelhos celulares fosse coisa de mulher e biba.

Porque lembro bem quando eu era jovem e os gatinhos ainda me ligavam… Imagina a cena: umas dez bichas saindo pra jantar e expondo na mesa suas novas aquisições tecnológicas. Eu aguentava até onde dava escondendo meu Nokia tijolão, mas ele era grande demais e incomodava no bolso. Quando eu colocava o pobrezinho na mesa, olhares me fulminavam. Deviam pensar: quem é essa bibinha pobre?

E eu era mesmo. Mas, com o tempo, fui ascendendo financeiramente. E não comprei um aparelho novo não, apesar daqueles olhares, que não eram fáceis de suportar. Investi em cultura, música, comida boa e em viagens além-mar.

Não me arrependo. Tenho amigos que trocam de celular e carro a cada seis meses, mas nunca tomaram um café à beira do Sena. Sinto pena.

E, apesar de tudo, mesmo naquele tempo em que eu era bichinha pão-com-ovo, dava um banho em toda aquela gente má: era quase sempre o que tinha o melhor papo e se vestia com mais elegância e estilo, mesmo sem dinheiro.

Vocês devem estar pensando: mas por que ele tá falando sobre celular se ele diz cagar pra isso?

Faço-me entender: porque o problema voltou a me rondar semana passada. Esqueci o carregador em Porto Alegre. E, no último sábado, me vi com a bateria acabando no meio do plantão do jornal. E se alguma coisa acontecesse e precisassem falar comigo?

Eram umas 19h e o shopping ainda estava aberto. Fiz o sinal da cruz e lá fui eu. Pensei no conselho dos amigos: “Rafa, muda pra um celular de conta, é bem mais barato.” “Boa”, pensei! Economizar é phino. Em vez de comprar um carregador novo, troco o celular, que hoje em dia sai de graça na hora de mudar pro pós-pago.

Além disso, os botões para aumentar e diminuir o volume do toque do meu atual estão meio estragadinhos. Mais um bom motivo. E, gente, essa é uma função muito importante; só não é mais que a de ligar e desligar…

Chego na loja, lotada. Explico minha situação no pré-atendimento. Uma moça me entrega a senha de número 354. Estava no número 340 naquele momento. Observo a fila: um bando de gente feia e mal-vestida. Pergunto se demora: de 30 a 40 minutos por atendimento.

Dou uma volta. Tomo um café. Se passam 30 minutos. Retorno. Está na senha 341. Me revolto e rasgo a senha na frente da vendedora, que nada tem a ver com isso. Agradeço mesmo assim, porque sou phino.

Procuro uma lojinha vagabunda que vende coisas pra celular. Uma família está sendo atendida e uns motoboys esperam pra saber se os aparelhos deles têm conserto. Observo. Dá pena do pai do guri que queria seu celular arrumado. Eu daria era uma tunda de laço nele e mandaria parar com essa bichisse de celular.

Os motoboys deixam lá seus Nokias para conserto. Uma perua horrorosa se mete na minha frente e pergunta se tem capinha pro aparelho dela. Tem coisa mais cafona que capinha pra celular? Socorro!!!

Eu pago R$ 45 pelo carregador e volto correndo pra casa. “Estou salvo”, penso.

Sigo sem um celular de conta. Ainda não sei o que é blue tooth nem tecnologia 3G. Pouco importa, no dia que precisar, eu aprendo. Mas garanto a vocês, phinos amados, que classe e bom gosto não me faltam. E não tenho mais vergonha de colocar o meu pau aparelho na mesa.

*Rafa acha que quem ostenta seu celular e dá muito valor pra isso ou tem pau pequeno ou é mal-amado ou é pobre. Prefere perder seu tempo, precioso, com revistas, CDs, boa comida, gente interessante, sexo e escrevendo para o em busca do phino. O resultado disso você pode conferir aqui, às segundas, sem hora marcada, de graça.

Adendo:

Texto phino de Jonathan Franzen sobre o tema no link abaixo. Requer senha.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1611200806.htm

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15 Comentários

Arquivado em passado phino, Rafa

15 Respostas para “Celular é coisa de pobre

  1. É bem freudiana a relação entre celulares e pau(s): interessante constatação. Fiquei imaginando como seria o meu (pau) visto que meu celular é de uma marca bem bagaceira, se nega a funcionar em várias ocasiões e tem uma Hello Kitty pendurada.

    Tá vendo porque eu prefiro utilisar o telefone da rainha?

  2. Os três office boys do jornal onde eu trabalhava tinham celulares muito melhores que o meu.
    Um dos guris, inclusive, é surdo de um dos ouvidos.

  3. Colega maluca 1

    Tenho orgulho de só trocar de celular quando realmente não pode mais ser utilizado…Prefiro gastar em academia e psicoterapia

  4. L´Andreis

    Acho o Blackberry e assemelhados bem legais por permitirem o envio de e-mails. Mas eu, pessoa física, não gastaria nisso não. Mas, como é a pessoa jurídica que paga (a produtora), uso o meu contente. No começo adorava os e-mails que vinham com a assinatura: Este e-mail foi enviado com meu Blackberry da Claro. Infantilidade, eu sei. Geekice ou jequice talvez.

  5. Rafa,
    faço minhas todas as tuas palavras! (como sempre).
    Eu só troco quando ganho da operadora ou alguém como o ex-marido (que adorava trocar) me dava um novo.
    Hoje carrego um cor-de-rosa bem de perua, porque quando o pretinho básico foi roubado comprei um igual na liquidação Submarino, porém nessa cor que ninguém vai levar prá casa por engano! (será que é phino dizer liquidação?!)
    O pior de tudo é que o “consultor de vendas” da loja, seja ela qual for, realmente acha que é um analista de mercado e que vai poder “mudar” a tua vida depois de te aconselhar esse ou aquele celular.
    Não vejo muita utilidade em carregar esse troço o tempo todo, tipo: se eu estou numa festa, numa boate (ainda se diz boate?), qual a necessidade do bicho funcionando se supostamente meus amigos estão ali? Não tenho filhos, e meu gato ainda não sabe telefonar, portanto, no emergency calls!
    Pior é a turma que atende no ônibus, na lotação, no restaurante e grita bem alto “não estou te ouvindo” e a seguir faz relatório de onde está, com quem está e prá onde vai. Overhearing a conversation* é um saco, ninguém merece.
    Só meus alunos mais desesperados conseguem ligar para meu celular fora das 14 horas em que eu fico na escola, então foi assim que eu desesti de ter celular ligado quando não estou trabalhando. Eu não sou médica, certo?!

    * Ouvir a conversa dos outros sem querer é um saco…depois aquelas palavras ficam martelando no teu ouvido o dia todo!

  6. Em busca do feno

    “Na hora de comprar, o atendente me perguntou: “qual era o meu objetivo com o celular?””

    Momento em que se chega no pico SP de ser. “Qual sua disponibilidade em comprar uma camisa?”, se fosse na Daslu.

    “Até fui orgulhoso pro trabalho. Os subordinados da época debocharam. Não entendi nada. Os três, pasmem, eram mais novos que eu e ganhavam muito menos.”

    99% das pessoas que trabalham no teu ex-local de trabalho são playboyzinhos que moram na casa de papi e mami e nem precisam do emprego tanto assim.

  7. Rougée

    Ai, tão boa a época dos Nokia tijolos 5120 e 6120!

    Rafa, acho que vale a dica do comentário da Colega maluca 1: acrescentar na lista dos bons gastos a academia e a psicoterapia.
    Afinal, nada mais phino que manter o corpitchu quando até seus amigos magros (aqueles do metabolismo acelerado) estão ficando pançudos e pagar alguém para te ouvir sem ter que discar.

  8. Rafa, valeu a dica, o texto é ótimo.
    Então lembrei da categoria de pessoas que eu mais detesto, a das que têm celular pai de santo, o que só recebe. Mais louco disso é que tá cheio de “playboyzinhos que moram na casa de papi e mami”, como dito acima, que ficam te dando chamadinha curta prá tu ligares de volta. Aí não dá prá curtir o gatinho né!!! Realmente celular é coisa de pobre e nada phino!

  9. eu queria um iphoneprontofalei

  10. eu queria um iphoneprontofalei

  11. Temo que este teu Motorola seja igual ao meu. E o pior que comprei um celular melhor pro meu namorado. Presente de Natal. Melhor que o meu! Tem até AM/FM. Não tem câmera, o dele. Quer foto? Compra uma máquina digital, ora!

  12. L´Andreis

    Ms. Riverside: liquidação não cai bem, Tu lê e imagina uma senhora gorda com bigode e meio desdentada falando. Agora OUTLET, ah, OUTLET. Carmen Mayrink Veiga (=DIOSA) já disse que não tem problema nenhum em comprar em outlet para misturar com peças atuais. Além disso, o Outlet que vende as roupas do seriado Sex and the City tem fila na porta. Pagar mais barato = phino. Contar para os outros,nem sempre.

  13. L’Andreis,
    com todo o respeito ao teu comentário, sabe que eu tenho problemas com essas coisas usadas em inglês ou seja na língua que for no comércio e tal… custo a achar que é phino.
    Explico: um dia corrigi minha mãe que insitia em dizer que no quarto dela tinha um “clôsi” e eu insistia em corrigir: “Mãe, se pronuncia /clóset/”. Ela me respondeu um sonoro: “Bem capaz que eu vou falar assim prá todo mundo achar que to falando errado…” Aí não há o que dizer… diga-se de passagem ela é uma senhora phina.
    E nessa linha segue a “kia /sporteije/ que deveria ser /spórtag/ e tal! Perguntei da liquidação mas acho que eu mesma já tinha me determinado que prá mim o phino é ser autêntica. Talvez eu usasse promoção, para ser phina!
    Então, caros phinos, com a devida vênia, vou discordar da colega phina! Não sou contra o uso dos anglicismos no português, sou contra a maneira como são usados em demasia. Não vejo muito sentido na “inter-língua” se os interlocutores não são sabidamente falantes de outras línguas. Quem sabe eu escreva sobre isso no meu blah blah blah! Além do mais…ainda nem sabemos usar a reforma ortográfica, então não acho muito razoável sabermos usarmos termos de outra língua.

  14. Caroline Andreis

    Justo.
    Mas eu ainda serei a Blair no episódio de Gossip Girl em que ela se desfaz de uma amiga porque ela conta que comprou sapatos em um outlet. O diálogo: Que linda tua blusa – Ah, comprei na Renner, não me parece phino. Mesmo que tenha comprado eu apenas sorrio e agradeço. Mas, isso só ocorre porque é importante pra mim na minha posição de empresária. Não posso deixar a retaguarda aberta. Em outros casos diria que comprei num brechó da João Pessoa por 5 reais.

  15. “Ah, comprei na Renner, não me parece phino”
    Aliás nada phino! Morra mas nunca diga onde comprou nada!!! Cá prá nós…quando te perguntam onde tu comprou, não dá vontade de responder: Por quê? Vais comprar igual?! hahahahahah
    Nada phino perguntar onde comprou!

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