Para brindar 2009

- Schizophrénique!

- Schizophrénique!

Por Dany Darko*

Este episódio aconteceu no final de 2008, mais precisamente no dia 23 de dezembro, quando procurávamos taças de vinho e já tínhamos entrado em várias dessas lojas bregas de decoração e utensílios domésticos, todas de nome pseudo-chique e de atendentes muito bem vestidos e com pinta de dono do estabelecimento – embora a gente sempre saiba que o dono de uma grande loja metida a phina com cristais alemães coloridos e lustrosos faqueiros de prata na vitrine nunca estão na linha de combate, às 17h do dia 23 de dezembro com cabelo penteado para trás com gel.

Conto a vocês, amigos phinos, que a nossa busca não era nada complicada; queríamos taças de vinho que não tivessem a espessura de uma casca de ovo e que não quebrassem nos dez primeiros segundos em que entrassem em contato com nossa epiderme – cinco primeiros segundos, no meu caso. Na França, país que tem uma vinícola a cada esquina, e duas caves a cada quarteirão, isso não deveria ser tão complicado. Mas NOT.

Depois de entrarmos e fugirmos saírmos de várias lojas, encontramos uma que exibia exatamente o tipo de produto que queríamos, preço acessível, no nível de lotação aceitável e sem tantas decorações e músicas de Natal que torram a paciência de qualquer consumidor sem espírito natalino nessa ou em qualquer época do ano.

Logo que abrimos a porta, uma vendedora na idade da loba, com os olhos exageradamente delineados em marrom e cabelos à la Farrah Fawcett 1978, nos cumprimentou com desprezo – o que eu respondi no mesmo tom e com o olhar de fica bem aí no teu cantinho e não vem torrar minha paciência que eu não preciso dos teus conselhos fúteis.

Nos dirigimos até o fundo da loja, onde avistamos as taças. Apesar da distância da porta de entrada, eu ainda sentia o olhar da peruete queimando no meu cangote. Sem muita enrolação, encontramos os produtos que queríamos e estavamos zarpando. Antes de sairmos do lugar, fomos abordados por outra vendedora: uma garota no final de sua adolescência que definitivamente não passou pelo ortodentista quando tinha 12 anos de idade, mas que sorria mesmo assim, sem medo de ser simpática.

E foi só por isso que resolvemos dar atenção para a moçoila, mesmo já tendo encontrado a porcaria das taças de material mais espesso, com as quais sinalizamos para a jovem que seu trabalho de encheção de saco era inútil porque só precisávamos efetuar o pagamento e sair daquele estabelecimento com decorações douradas e cheiro de spray de jasmin onde começava a tocar The Total Eclipse of Your Heart.

A jovem já havia liberado o caminho e entendido que deveria economizar sua valiosa saliva, quando a vendedora Pantera, talvez impulsionada pela emoção da trilha sonora, resolveu se materializar na nossa frente, numa mistura de laquê e tons bege. Foi quando eu percebi que ela usava blush terracota e seus lábios haviam sido cuidadosamente aumentados por truques de maquiagem aconselhados em revistas femininas – transbordava na maquiagem, cheirava a pancake. Também usava um salto fino que nos diminuía bem uns 15 centímetros em relação a ela e que destacavam o olhar fatal e blasé sobre suas vítimas: nós.

Sutilmente se colocou à frente da adolescente e preencheu com os quadris acentuados pelo cinto degolador de cinturas todo o espaço que nos deixava o caminho livre. Quis saber o que procurávamos e o que estávamos levando. Discordou dizendo que os cristais da tão excelente marca que eu não lembro o nome – tirou a taça da mão de petit-ami e bateu a ponta da unha sobre a borda do cristal, fazendo plim-plim – estava aquém de nossas expectativas já que era muito requintada e frágil. Pelo que entendi, não éramos dignos de possuir aqueles magníficos produtos.

Ah, mas vá tomar no seu trou du cul!

– Vamos sair a-go-ra daqui – reclamei em português no ouvido de petit-ami.

Mas ela não liberava a saída e agora discorria sobre o material e qualidade da marca. Disse que dificilmente encontraríamos taças de vinho do jeito que queríamos – fora de produção há várias décadas e démodé. Agora também éramos velhos.

– Flo, diz aí pra Farrah que a gente está cagando pro delineador dela e que a gente desistiu de comprar as breguices dessa loja porque a gente gosta mesmo é de tomar vinho em copo de vidro.

Inútil. Sob o efeito do coquetel de fluoxetina com valium e lexotan, Farrah francesa não parava de discursar e de fazer plim-plim batendo a unha na taça. Eu já estava ficando com medo.

Mas a educação francesa de petit-ami nos fez permanecer sei lá quantos minutos de explicação sobre cristais e taças de vinho pacientemente aguardando senhora histérica calar a gamelona. Enfim, ela deu a petit-ami três segundos. Ele, então, se manifestou:

– Nós só queremos comprar taças de vinho que não se quebrem com tanta facilidade, ok?

O que ela disse após escutar qual era o objetivo do consumidor desesperado, asfixiado pelo cheiro de jasmin e laquê e com a namorada buzinando « vamimbooooora » no pé do seu ouvido? Ela encerrou com chave de ouro a situação mais bizarra que já vivi com vendedoras in my whole life:

– Para bater na cabeça de sua namorada?

E antes de eu colocar a taça no mesmo lugar de onde eu a tinha retirado e de saírmos da loja sem o que tínhamos finalmente encontrado, tive o prazer de utilizar uma nova palavrinha que eu havia aprendido naquele dia mesmo, lendo um material do téorico J.P Esquenazi sobre o status semio-pragmático do telespectador da TF1 quando ele assiste aos bestiais programas desta emissora:

– Schizophrénique!

Lições educativas do dia

Número 1: vá na Ikea.

Número 2: não use drogas do final dos anos 70, sejam elas Lexotan ou blush alaranjado – não sei o que é pior.

*Dany Darko mora em Grenoble e namora um moço francês, mas tem preferido amigos búlgaros em 2009. Não faz escândalo. Quando se altera um tiquinho de nada, comenta sobre essa sensação estranha aqui, neste wikiphino. Sempre às quartas.

5 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, fica aí a dica, tendência

5 Respostas para “Para brindar 2009

  1. Utilizar vocabulário novo para ofender vendedoras feias é muito phino. Só não entendi ainda que taça é essa que vocês queriam comprar. Tem pra homem? (brincadeirinha, ihihihihih)

  2. Agora que o Natal e o Réveillon já passaram, não importa mais, Rafa. Até o final do ano que vem, vamos beber no gargalo mesmo.

  3. Sen – sa – sio – nal!!!!!!
    Não sei do que gostei mais, da tua resposta phina, da pergunta phina da Farrah ou da Bonnie Tyler de trilha incidental!!!
    Acho que não sou lá muito phina por gostar de “Total Eclypse of the heart”! Adoro a interpretação extremamente dramática da fofa Bonnie deprimida e que diga-se de passagem também usava um visual Farrah.
    Dany, adorei o texto, continuo tua fã!!! Ah, achei o máximo, só não entendi porque se vocês procuravam phinos copos de requeijão…

  4. Mas phino impossível.
    Insultar em fracês, quem merece ser insultado, e com um único adjetivo, preciso.
    O insulto que guardo para uma necessidade, ensinado-me por Ms Riverside na língua britância, é “obnoxious”.

  5. Muito boa saída, Dany…
    Quando a gente acha que já viu de tudo vindo de franceses, eles nos mostram que podem ir muito mais além!!

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