Uruguai: do glamour ao point

Socorro! Virou POINT! Me tirem daqui

Socorro! Virou POINT! Me tirem daqui

Por L’Andreis*

Se você ouvir que algum lugar é POINT ou tem o point da noite ou em uma distância de 200 km do lugar houver alguém que fale POINT, esse lugar não é phino.

Desde os 80, quando eu nasci, ou seja, desde sempre, ir a Punta Del Este no verão era bochicho certo entre as piscinas do clube Juvenil, em Little Italy**, onde nasci. Eu nunca concordei com esta escolha. A viagem era longa, a água era fria, a comida era ridiculamente cara e não era tão saborosa. Além disso, ninguém dizia que era uma praia linda, o adjetivo sempre era charmosa, como aquela sua amiga de nariz grande, mas que tem um cabelo maravilhoso. Os adultos, ao chegarem lá, iam para o cassino, algo que sempre fui contra. Não sei quem inventou que perder dinheiro é phino. Até entendo a tradição do pôquer e do Bridge como confraternização entre amigos, mas meus contemporâneos têm o golfe, que se joga sem apostas e ainda por cima é ao ar livre.

Vinte e pouquinhos anos depois, entre os cadernos de arte e cultura, me deparo com muitas e muitas colunas sociais que dizem em suas legendas: Fulana Bom Sobrenome e Fulano Bom Sobrenome fazendo coisas glamurosas e caras em Punta Del Este. Passei um bom tempo arranjando desculpas para eles: Bom Sobrenome I tem fazenda ali perto, Bom Sobrenome II vende 90% da produção para o Uruguai, perdoados, eles também têm filhos e funcionários para alimentar com seus contatos na praia.

Mas, nessa segunda-feira, apareceu algo raro, porque rico de verdade não aparece em coluna social nem gosta de badalação. Pois é, apareceu a família Safra em Punta. Para você que não lê o Who is Who: uma das dez famílias mais ricas do mundo, que apesar de terem vindo fazer fortuna por aqui, vivem na Europa. Fiquei gelada como o mar uruguaio: pessoas que poderiam estar em um bangalô privativo na Polinésia, na casa da Ivete na Praia do Forte ou em um iate em St. Barth estão em Punta? Nos nossos vizinhos pobres agüentando vento que impede boas leituras na beira-mar e noites que obrigam o phino a usar casaco?

Meditei muito sobre o assunto. Um lugar que jornalista de balada chama de POINT DO VERÃO não pode ser eleito por gente assim. Veja bem: pessoa com berço pensa, tem boa educação, sabe calcular prós e contras, não é a Britney, compreende? Foi daí que concluí que nós, sul-americanos, pela primeira vez em muito tempo éramos alpha pra milionário nenhum colocar defeito. Para eles, Punta era uma praia no sul do mundo, com clima subtropical, bem frequentada, com boa infra-estrutura e ainda cheia de boas lojas com preços sul-americanos. Além disso, os irmãos Cohen estiveram ali em 2008. Punta, definitivamente, fora deste continente, é uma praia LADO B da classe A.

Se para nós representa aquela sofisticação falsa e deve até ter carros tocando techno com volume alto, para eles era uma opção nova, diferente, exotique. Mas não se iluda por isso, caro phino: Punta já foi. Como fomos pioneiros em encontrar alguma coisa (nem que seja uma praia), vamos continuar na crista da onda. Vamos escolher aquele cantinho de Alagoas onde a turma da MTV passou o ano-novo, uma praia amazônica ou uma praia de pescadores no Ceará e fazer virar um destino phino. Daí ficar anos indo lá e pagando pouco pelo aluguel e pela lagosta. Quando os Safras descobrirem, dizemos a eles o seguinte: “Passei anos veraneando lá, mas agora virou point”. Pobres Safras, vão ser sempre nossos betas na praia.

** Nome retirado do imaginário da capital gaúcha.

*L´Andreis teve muitas leituras interrompidas pelo vento da beira-mar em Punta e Santa Catarina antes de decidir pelo clima tropical no verão, mas praias não são seu xodó. Assim como SextaSessão e outros phinos ilustres, frequenta mesmo para não embagulhar. O que gosta é de esquiar no Vale Nevado ou na Suíça (nunca Aspen! Aspen é POINT!). Mesmo quando está descobrindo lugares phinos pelo mundo, escreve aqui às quintas.

Nota do editor: peço desculpas a todos os fervorosos fãs da colunista de hoje pelo atraso. A culpa da demora na publicação é toda minha. L´Andreis entrega sua coluna sempre com antecedência, antes do prazo combinado, o que é muito phino. Mas, infelizmente, tive problemas com minha internet em casa. Até pensei em ir ao cybercafé da minha rua, mas acho o recinto anti-higiênico. Grato pela compreensão.

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8 Comentários

Arquivado em fica aí a dica, L’Andreis, trip phina

8 Respostas para “Uruguai: do glamour ao point

  1. Colega passa por minha mesa e vê foto da escultura de Punta publicada neste wikiphino. Conta que conheceu ao vivo tal belezura uruguaia. Tece elogios sobre o monumento. Escuto pacientemente. Ao final do discurso, pergunta se eu conheço? Digo que não. Fim da conversa.

    Punta é o tipo de lugar “eu não vi e não gostei”. Charme pra mim é Paris. Pobres Safras. Pobre colega…

  2. Bom… eu já falei aqui que tem sempre aquele movimento migratório dos que pensam que são phinos e no final das contas acabam é fazendo “excursão” às avessas. Depois também tem Caras em Punta, essas coisas que não são nada phinas, no meu modesto entender.
    Realmente Punta era phina, também “Passei anos veraneando lá, mas agora virou point”,… os dedos na praia eram interessantes pixarem tudo. Nada phino…
    O vento de Punta não é phino! Mas ler na beira da praia: ah L’Andreis, isso é prá lá de phino !!!!
    Talvez eu seja realmente uma chata que discorda de tudo e não gosta de multidão mas acho que phino mesmo é uma praia longe do mainstream onde se pode ler, caminhar e claro, sentar debaixo do guarda-sol porque acho que phinos não se torram no sol e não têm melanomas!

  3. Já fui para outras praias uruguaias (inevitavelmente de águas frias), mas nunca Punta. Além de “point”, parece lugares de muitas “baladas” ou eventos que “bombam”. Nasci e morei no litoral de Santa Catarina até o final da adolescência – e já me basta. Freqüento praias com moderação. Acho sadio manter distância…

  4. Detesto praia (embora vá religiosamente uma ou duas vezes por ano por motivos não-turísticos). Detesto point.
    Fui uma vez a Punta e achei feia, fria, chata.
    Fui duas vezes a Paris (a 1ª por curiosidade, a 2ª por exigência do administrativo), e, sorry, Rafa, achei um imenso point francês.

  5. Caroline Andreis

    Acho que AS ALAGOAS vão vencer esse campeonato de praia para ir e se sentir bem. Uma praia onde se pode paquerar porque há carne boa para isso, comer lagosta na areia por 3 reais, e beber tanto que até se esquece que praia é péssimo.

    Sobre Paris: talvez haja (há de haver!) lugares em Paris que não são point, não? Faz tempo que não apareço por lá. Mas cidade grande sem praia tem disso: há opções.

  6. Adoro praia, mas com gente bonita, por favor. É o mínimo que se pode oferecer. Nada de praia deserta, acho brega. Mas não sou a favor de muito deslocamento por causa de praia. Então, não irei às Alagoas, mesmo que o objetivo seja lançar tendência.

    Agora Paris:

    Pra gostar, tem que ter olhar de parisiense; não de turista, porque daí só o que se vê é point pra tudo quanto é lado. Da próxima vez que o administrativo obrigar, querida colega SextaSessão, peça dicas pra mim, que indico um restaurante à beira do Senna cheio de estudantes universitários franceses lindos e bem vestidos. Esqueça o Louvre. Vá ao Palais de Tokio, ok? Champs Elysées? Pelamor, prefiro nem comentar…

  7. Administrativo só obriga a fazer algo uma vez. “Obrigar a ir novamente a Paris” já foi riscado da lista. Tem agora uma série de coisas que quer me convencer.
    But I said no, no, no

  8. leo

    caros,

    rafa não crê em mim, diz que sou seu amigo barbie. opino, igual.

    não conheço punta e cada vez que pronuncio essa fórmula mágica as pessoas me olham como se eu fosse uma vítima da talidomida.

    nunca me interessei, mas meu namorado gosta e pretendemos fazer aquela clássica viagem de carro passando por várias cidadezinhas uruguaias, além de muitas compras no free shop, sem nenhuma preocupação com a phinesse.

    talvez bem acompanhado, e com uma boa trilha sonora, seja bem bom. ah, provavelmente será no final do verão.

    ojalá seja phino!

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