É difícil ser phino em Paris

Ex-BBB Gyselle Soares phina em Paris? NOT

Ex-BBB Gyselle Soares phina em Paris? NOT

Por Dany Darko*

A vida no exterior adicionou ao meu status uma série de novas funções – ou obrigações, para muita gente cara-de-pau – que, merci, tenho tentado dispensar e repassar desde que pisei en France. E, como percebo que isso não é karma, mas é parte de qualquer criatura que deixe seu país de origem, divido com vocês, wikiamigos, algumas situações out-phinesse pelas quais eu tenho passado para que vocês saiam à francesa se isso vier a acontecer com vocês. E reforço a declaração de Tonha Fever: é difícil ser phino em Paris.

1. Ponto turístico – Um brasileiro fora do país vira ponto turístico para a família, para os amigos e para quem quer que fique sabendo que você abandonou a pátria amada, idolatrada – e me salve, me salve! desse mundo de gente que, de uma hora para a outra, resolveu querer me visitar. E denoto que recebo alguns poucos membros da família (minha mãe, meu irmão e minha cã: fim!), amigos legais e phinos, o Cillian Murphy, o James McAvoy, o Matthew Macfadyen e o Louis Garrel (que já deve morar em Paris, mas que talvez gostaria de esquiar aqui em Grenoble, não é?). E zé fini c’est fini minha gente!

Que não me surjam ex-colegas de jardim de infância 1985 que viram no meu orkut que eu não moro mais na Little Italy (Bibliografia: L’ANDREIS, Em Busca do Phino, 2008 ) do interior de Santa Catarina pedindo estadia durante suas férias. Ou ex-colegas de trabalho que resolvem ressurgir das cinzas e avisar que estão chegando não sei quando na minha casa (ainda bem que não passei endereço pra ninguém!). Ou ex-namorado que tem a cara de pau de me revelar por msn que mantém contato comigo para se um dia ele resolver dar o ar da graça no Velho Mundo.

Se você é um desses caras de pau, utilize uma veia de bom senso lá do fundo de seu coração e parta do princípio que você só é bem-vindo quando é convidado. Caso contrário, ligue para a CVC, digite no google « albergue juventude França », escreva para a Márcia Goldsmith ou vá na Porta da Esperança.

2. Help-desk, call center ou Mãe Dinah – Quando a gente mora fora, todos os problemas alheios de viajantes se concentram na gente. Minha caixa de email vive lotada de mensagens de pedidos de ajuda. « como eu faço para conseguir o visto? », « é difícil (adicione qualquer verbo) na França? », « tem vôo de Paris para (adicione qualquer cidade do mundo)? ».

Para esses casos, é bom frisar ao interlocutor que a consulta na sua bola de cristal é cara, que você recebe os honorários com antecedência, não aceita cheque, nem cartão de crédito, só Euros.

Cheguei ao cúmulo de receber um email de uma pessoa desconhecida, brasileira, que está ilegal na Europa e que tenta fugir da imigração porque quer aproveitar o máximo de sua estadia aqui e viajar enquanto não é descoberta e deportada. « O que eu faço para não ser presa pela imigração francesa? ». Resposta: se entregue na embaixada brasileira mais próxima de você.

E xispa, xispa daqui!

3. Papai Noel, coelho da Páscoa ou Reis Magos – Você vira centro de compras e distribuição de mercadorias sem ressarcimento de gastos. O mundo passa a exigir que você envie perfumes, maquiagens, chocolates, cartões postais e chaveirinhos da Torre Eiffel. A conversa sempre começa assim: « Deve ter (insira qualquer produto) lindo(a)s na Europa, não é? ». E você, colega de exterior, não caia no erro de dizer que sim para não virar muambeiro. Mas também não diga que você é pobrinho e que não compra nada porque isso é resposta de brasileiro não-phino chinelão na Europa. Diga que sua vida é muita ocupada e que você não tem tempo de ficar olhando os preços da Lancôme aqui. E que você não tem um direct line com a Lapônia.

4. Relógio e previsão do tempo – Por que diabos tem sempre uma criatura no msn que quer saber que horas são ou como está o tempo no país onde a gente vive? Estou há um ano e meio tentando achar a utilidade prática disso. Pior é que sempre recebemos a indispensável informação do horário e do tempo de volta: « Aqui em Porto Alegre são 10 horas e está um calor insuportável ». Hum e daí, né? Como se eu não tivesse morado metade de minha vida no Rio Grande do Sul e não conhecesse o verão portoalegrense.

5. Agência de notícias – Todo mundo acha que você tem a obrigação de saber de tudo o que acontece no continente onde você vive. « Teve uma nevasca em (adicione qualquer cidade da Europa) com muitas vítimas ». UAU! Uma nevasca, em pleno inverno europeu? Nunca vi, não.

Essa situação acontece ao contrário também. As pessoas se acham no dever de informar você do que acontece fora de onde você vive. Tive um bombardeio de relatórios diários no msn e por email sobre a morte da Eloá – como se a internet e o Jornal Nacional não chegassem aqui no Velho Mundo. E eu dizia: UAU, um seqüestro no Brasil?

6. Central de fofocas e agência de fotos – De repente, todo mundo começa a torrar sua paciência se interessar pela sua vida e a saber como é a experiência de morar fora de seu país de origem. E aí o mesmo todo mundo quer ver suas fotos de viagens. « Me manda suas fotos por emails ou « me manda o link do seu Picasa » passam a ser frases frequentes de seu cotidiano.

Na verdade, o grande interesse gira em torno de sua data de retorno – outra utilidade prática duvidável se sua data de retorno está distante. Porque a menos que essa preocupação venha de sua mãe ou amigos próximos, duvido que vá fazer diferença.

Se esse interesse parte daquele mesmo mala que vive te pedindo presentes e souvenirs, aí você vai ter que responder um milhão de vezes « dezembro do ano que vem » até que dezembro do ano que vem esteja a um mês de sua volta. Nesse caso, leia o item número três. E o lembre que tem Cacharel, Lancôme e Lindt no Brasil também.

7. Ouvido de penico – Aquelas pessoas que não têm nada a ver com você, mas também não nada melhor pra fazer no momento, além de te entupir de abobrinhas online:

« Acho que você não volta mais, não é? ». Resposta: «Desculpa, mas não tenho direct line com Zeus ».

«Oi, tudo bem? Me manda notícias! »: Formato de recado frequente no orkut. Quer notícias? Liga a Globo News!

« Vou te visitar quando você chegar »: Mentira, não vai. Quem realmente gosta de você e vai te visitar quando você voltar da viagem não precisaria te dizer isso.

8. Personalidade – As pessoas criam um ícone de você e passam a te tratar pela idéia que elas criaram de você no imaginário nonsense delas. E aí você passa a ler informações sobre você mesmo na Caras pela internet à fora. Teve gente garantindo a alma que eu tinha casado. Cheguei até a ler que era mentira que eu estava na França. Que eu tinha deixado Porto Alegre e estava de volta e escondida em Little Italy do sul de Santa Catarina.

Se isso acontecer com você, não desminta – o silêncio e o desdém, na maioria das vezes, é índice de phinesse. Let them eat polenta.

*Dany Darko não mora em Paris e raramente manda notícias do país onde vive. Não quer ter sua vida publicada na Caras. Mas se expõe um pouquinho aqui, somente às quartas, por fins educativos.

9 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, vergonha alheia

9 Respostas para “É difícil ser phino em Paris

  1. É engraçado isso. As pessoas acham que basta ir pra Paris pra ser phino. NOT. Há muito parisiense não phino, principalemente os que usam cintão Dolce & Gabanna. Foi uma das primeiras coisas que vi ao desembarcar na cidade e quase voltei. Graças a Deus tenho bom gosto e sei freqüentar oslugares certos. Obrigado pela lição de hoje, Dany. Muito útil, como sempre.

  2. Rougée

    Esse post está extremamente phino, Darko! Os anos em Paris te tornaram ainda mais ácida! 😛

  3. amanhã tô chegano a *** [não coloquei o nome da cidade pra não atiçar outros ex-colegas de trabalho]. tem colchão sobrando? bota mais água no feijão!

  4. Julia

    Tais virando francesa….

  5. lalila

    erro de português não é phino….utiliZe
    (in “Se você é um desses caras de pau, utilise uma veia de bom senso ” )

  6. Lari

    Dany, me manda o link do seu Picasa?
    (tô acamada, eu posso!)

  7. Obrigado pela correção lalila… mas um errinho bobo desses não é problema não, Dany deve estar esquecendo um pouquinho o português tendo que se comunicar diariamente em francês. Pobrezinha, não deve nem tá a par da reforma. Ainda bem que ela tem leitores tão phinos como você para ajudar.

    Muito obrigado!

  8. Ops, é verdade mesmo, Lalila! Não é burrice, não, é puro esquecimento. A maioria dos verbos que em português são com “z”, utiliZam (haaaa!) “s” em francês, como, por exemplo, o verbo “utiliser”.
    Bisous, mes amours!

  9. Denise

    Dany Darko não existe!!
    A gente podia abrir uma escola juntas, que tal? Já tenho uma sugestão de nome para o curso: “aprenda a dar seu recado no âmago com a sutileza de uma pluma”.

    Ps.: eu não deixaria de dizer isso: eu precisaria ler esse texto 95 vezes para perceber um S no lugar de um Z. Parabéns para quem encontrou, pois uma coisinha tão pequena dentro de um texto desse…

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