Brasileiro sempre vou ser

"É o Brasil", diz Michael Love

Por O Outro Lado*
(Em Busca do Feno)

O Brasil nunca vai dar certo. Jamais.

Vai ter petroreais do pré-sal e vai usar pra expandir favela pra
cima da Mata Atlântica. Pra sempre. Nunca vai mudar. A vocação pra
favela e pra sem vergonhice é perene e eterna.

Falar de phinesse no Brasil é nada mais que uma veleidade. A volta ao
chão é o suor que pinga do sovaco ao menor movimento. Com 30° e esta
umidade de janeiro, é melhor que você se toque, tome tua água de côco
com banana e esqueça teus coeurs d’artichaut grillées e teu vinho
tinto.

Tive mais uma prova disso neste fim de semana. Fui me meter a phino
naquele projeto mal enjambrado de Alpes bananeiro, aquela cópia da
cópia da cópia. Sim, porque Campos do Jordão é um produto terciário de
Europa, é cópia de Gramado, que já é uma cópia fracassada de
civilization.

O fracasso é tamanho que ainda fico na periferia da ex-cidade dos
tuberculosos, hoje capital da Minalba e de uma cerveja que, vá lá, é
realmente sublime. Mas a freqüência local, quando boa, lembra muito um
programa Amaury Jr. Quando menos se nota, está cantando um “Keep It
Comin’ Love” no meio daquela gente paulistóide-executivo e horrorosa.

Costumamos ficar na cidade de Santo Antônio do Pinhal, uma Osasco da
capital das Serras. Porque sim, queremos é pagar barato.

Costumamos fazer isso pra retardar o câncer de morar em
São Paulo e respirar. A cidade não tem nada, mas a boa opção de
estadia se deve à pousada chamada Verdes Alpes, na qual é possível
ficar os fins de semana por um preço bem atraente no verão.

Terminada a estadia, vou entregar a chave ao dono da pousada. Meio
obliquamente, como quem não quer nada, diz que tem uma casa que está
para alugar por preço fechado o ano inteiro. O preço? R$ 400. “O ano
todo?” “O ano todo, confirma.”

Saímos então para a caminhada hipócrita que sucede o
fondue, debatendo o assunto. Era sem dúvida um excelente negócio,
principalmente tendo em vista que a alta temporada, de junho a
setembro, acaba trazendo preços impraticáveis para o desfrute do
simulacro de civilização.

Antecipamos a volta e anunciamos pro caipira: “estamos interessados na
casa”. Ele abre e nos mostra a casa, dizendo que desocuparia em
fevereiro. Ligamos pra pai e mãe pra dar a nova, ambos ressaltando o
incrível preço de R$ 400 o ano. Pouco depois, o caipira mineiramente alerta para “uma coisa”. Tem uma taxa
de água e luz, de R$ 30.

Opa. Já não era um preço tão bom assim, mas ainda daria menos de R$
50 ao mês. Somamos, na companhia do caipira, chegando à quantia anual
de R$ 760. Ainda bem razoável.

Fazendo muitos planos, baixo o valor da poupança e saco o dinheiro,
enquanto o caipira vai em uma lanhouse para imprimir o contrato. Estou
com o dinheiro na mão esperando o caipira. A companheira não cabe em si de
contentamento, e eu também estou cheio de tesão, projetando um ano de
fins de semana na Serra bananeira por preço fechado.

O caipira chega com o contrato. Entre erros de informação e de
português, lê-se o valor do aluguel: R$ 4.800. Perguntamos a que se
deve aquele valor, já que o preço acordado era de R$ 400. O caipira,
nervoso, revela a manobra de João-sem-braço: mas R$ 400 era “porrr
mêis”. A companheira esconde o rosto com as mãos, eu não consigo conter um
certo enjôo.

O João-sem-braço ainda tenta salvar o negócio oferecendo R$ 300 ao
mês, mas não adianta: é isso que é o Brasil, e já faz mais de 500
anos. E eu me dou conta de que não sou mais que um pobre querendo
levar vantagem de outros mais pobres ainda.

*O Outro Lado quer uma casa no campo. E ponto. Desabafa aqui quando dá na telha e segue em busca do feno.

12 Comentários

Arquivado em contribuição phina, Em Busca do Feno, lar phino lar, O Outro Lado

12 Respostas para “Brasileiro sempre vou ser

  1. “Em busca do feno” pega preconceito, elitismo, insulto e realismo desconcertante, mistura tudo e serve num texto phinérrimo.
    Adoro.

  2. Colega maluca 1

    Muito boa… achando que ia ganhar em cima do caipirrra..

  3. Pingback: Insultos sublimes « Sextasessao’s Weblog

  4. Adoro quem se expõe brutalmente para dar lição pro Brasil. O Outro Lado, coluna hoje está um primor.

    Mas vamos combinar, Campos do Jordão é brabo. A única vez que coloquei meus pés lá, em grupo, claro, deu muito meeedo… Antes o bom e velho tapete vermelho do Palácio dos Festivais. Aquilo, sim, é que é crasse e gramur.

  5. Ms.Riverside

    Cá prá nós…o que te fez pensar que o sujeito “emprestaria” a casa prá ti a troco de tu pagares a luz?
    Muito sinceramente, acho que nem você nem ninguém são phinos fazendo esse tipo de programa (“Fui me meter a phino
    naquele projeto”).
    Esse tipo de coisa se chama novo rico tentando ser phino. Novo rico phino já é um contrasenso (será que é contra-senso?), phino que é phino não precisa de dinheiro prá ser phino. Phino que é phino realmente não paga caro pela estadia!
    E viva o O Outro Lado e viva o Feno Phino!!

  6. L.

    … um caipira se achando mais esperto que o outro?

    hãmmmmmmm…

    Mas eu tb o sou: comprei uma centrífuga destas que transformam a beterraba-laranja-cenoura em suco fresquinho, questão de segundos.Não consigo usar pq para lavar é preciso paciência de campeão de lego. As peças são cheias de cantinhos, enchem de respingos e pra ter um copo de suco gasta-se 10 litros de água na limpeza dos compartimentos… e tb uns 40 minutos da vida!

    De que adianta o monstro que bate até melancia inteira se depois, a vontade é bater a cabeça do dono da empresa (marca famosa)!

    O anúncio dizia ser impossível ter saúde de verdade sem ser dono de uma joça daquelas….

    Uma grande promoçao…600,00 !

    Será que vi o anúncio do eletrodoméstico foi no programa do Amauri Jr ???

    Eu quis ser saudável e `phina`; deu certo não!

  7. anonimo ous

    que bando de doido
    todos, inclusive os comentários.

    muito legal

  8. O outro lado

    Óbvio que o preço nunca ia fechar, mas a beleza do negócio era justamente essa: grana na mão para sabe-se lá o que ele pretendia investir e casa na Serra o ano inteiro. Óbvio que fomos ingênuos e sem noção, mas não era uma proposta tão absurda assim.

    E Rafa, a região de Campos é legal, sim. Cheia de araucárias. Araucárias são o melhor tipo de árvore, toda aberta. Repara bem. Um bosque delas é algo que nem o mais belo mato europeu oferece.

  9. Araucárias? Deusulivre. Eu quero é umas gostosaaêêêÊ!!!

  10. Colega maluca 1

    Araucárias sim, Rafa.. só tem no hemisfério sul, sabia? Europeus ficam boquiabertos. Surpresa com inclinação ecológica do Outro Lado

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