Não há mais phinesse no voar

o futuro foi ontem

o futuro foi ontem

Por O Outro Lado*
(Em Busca do Feno)

Cresci numa época em que os check-ins eram avenidas abertas para que eu e minha família chegássemos aos balcões. Não me lembro de uma única vez em que tenhamos ficado mais de dois minutos esperando pelo cartão de embarque.

Isso era a década de 1980 na aviação. Os salões de espera eram relativamente vazios. As pessoas fumavam neles. Tínhamos como direito, no entanto, esperar nas salas vips, com amendoins e castanha de caju free.

Havia também refrigerantes e todo tipo de bebida alcoólica -e não eram das mais baratas, mas estavam à disposição do vício. Vi o Chico Buarque e a Marieta Severo numa dessas salas de espera da primeira classe no aeroporto Charles de Gaulle.

O gênio da MPB empinou por volta de uma garrafa e meia de scotch para depois entrar no avião e apagar em instantes. Marieta, phiníssima, discutiu aos sussurros pelos mesmos motivos que qualquer mulher sem classe discutiria. “Para com essa cachaça, Chico…”

Minha mãe babava, a proximidade com as celebridades sempre mexe muito com os brios de quem cresceu nas grotas catarinenses. Meu pai, o comandante, sempre foi mais estrela que todo mundo e ficava tomando seu Châteauneuf-du-Pape todo nonchalant. Quem nos proporcionou isso foi a Varig que todo mundo quereria ver falida, 25 anos depois. Era um símbolo de aviões que não caíam. Faliu. Caíram dois aviões depois, um de cada grande que ficou.

Um aeroporto dos anos 00 já não é muito diferente de uma (eca) rodoviária. As tarifas geraram muita inclusão, com filas enormes, e ninguém mais acha indecente sentar no chão, carregar caixotões, enfim, ser um perfeito retirante em um ambiente que transpirava phinesse há nem tanto tempo assim.

Fenômeno semelhante aconteceu com as casas legislativas depois que o PT subiu ao pudê, mas falo disso em outra ocasião. O fim da picada mesmo é que não existe mais aquele charmoso papeluxo que tu entregava no balcão, e a menina, sempre maquiadíssima e perfumada, recebia e perguntava: “gostaria de sentar na janela ou corredor?”.

Hoje em dia, você compra o seu bilhete pela internet e, no máximo, consegue imprimi-lo num papel qualquer. Quando tu faz o check-in automático, o bilhete parece um ingresso do cinemark ou uma nota de compra de súper. Paupérrimo. E tem que rezar para conseguir embarcar com atraso de apenas meia hora. A bordo, refrigerante em galão plástico de dois litrão, minduim (este persiste, é barato) e barrinha de cereá.

Apesar de tudo ter virado este horror, as lojas de rede tomaram conta dos grandes terminais, cobrando o quádruplo do preço justo por qualquer coisa. Infraero fica com parte do bolo. Em coletivas para explicar o caos aéreo, a estatal tem sempre a postura de empurrar a responsabilidade seja para quem for. Jatos, hoje, apenas para atravessar o oceano ou por motivos profissionais. De preferência, embriagado ao nível da inconsciência.

Uma homenagem à última companhia aérea de verdade:

*O Outro Lado teve uma infância dourada e caótica entre o Moinhos de Vento e o Boulevard Saint Jacques. Morre de nojo da TAM (Transporte Aéreo da Morte), da Gol (nome alusivo a futebol, logo, favela), da Ocean Air e da Azul, mesmo sem ter voado na última. Mostra sua a nonchalance aqui, a partir de hoje, toda terça. Sem atrasos de meia hora.

13 Comentários

Arquivado em Em Busca do Feno, Outro Lado, passado phino

13 Respostas para “Não há mais phinesse no voar

  1. Caroline Andreis

    Perfeito o tema escolhido pelo nosso colega. Voar se tornou desprazeroso.

  2. O comercial quase me leva às lágrimas….

  3. Ah, Rapha, tem que incluir o novo colega lá no “Sobre o coletivo phino”, mesmo que isso signifique remover Lady Glam (snif).

  4. “Quando tu faz o check-in automático, o bilhete parece um ingresso do cinemark ou uma nota de compra de súper.”

    Único parecer relevante sobre aviação pós-acidente da TAM. Sem mais.

  5. O Outro Lado

    Lari está no time dos que torciam pela falência da estrela brasileira, junto com seu consorte.

  6. Nunca, jamais. Mamãe, pouco phina, montou faqueiro e jogo de cama voando Varig pelo mundo e eu amava.

  7. sê bem-vindo ao meu ex-turno, pheno. como pudemos notar pela contribuição desta terça, só fizeste melhorar o espaço!

    — finada lady glam, que deus a tenha

  8. vivi

    quem botou essas letras azuis HORROROSAS em cima do comercial é tão tosco, mas tão tosco que conseguiu botar as tais letras num fundo AZUL e ilegível no fim.

    saudade dos anos 80..

  9. tati

    saudade do lencinho umedecido depois da refeição.

  10. Caroline Andreis

    agora eles só dão se tu pedir (FAIL), mas nos vôos internacionais tu encontra no banheiro.

  11. igor

    O Varigzinho no final…. me emocionei! 😥

    Momento saudosista este… os idos dos anos 90 ainda eram phinos para a aviação. Saudade dos Bandeirantes Varig que me arrancavam das grotas interioranas para a phinesse do mundo:

    “Oh! que saudades que tenho
    Da aurora da minha vida
    Da minha infância querida
    Que os anos não trazem, mais!”

  12. igor

    A phinesse no voar agora está em chegar perto da hora do vôo, as atendentes prontamente fazem seu check-in e você vai logo curtir a paz da sala de embarque.

    Mas não pare naquelas ‘tendas’ transbordando literatura de aeroporto. Seja phino, traga sua catch-up reading consigo!

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