Fale com ele

Parece que é transviado, mas isso eu não sei se ele é. Corta o cabelo dele!

Parece que é transviado, mas isso eu não sei se ele é. Corta o cabelo dele!

Por Dany Darko*

Confiar não somente as madeixas, mas todo o crânio a uma criatura que a gente não conhece direito exige muita oração durante toda a vida e mentalização do desapego – cortar os cabelos é um exercício de phinesse.

Já tive a orelha picotada, já levei tesourada na cabeça, já quase me arrancaram a sobrancelha grudando pente ao meu piercing e o pescoço queimado pela chapinha. Demorei cinco anos para achar um cabeleireiro em quem eu acreditasse em Porto Alegre e passei quatro anos entrando no salão sem falar nada, porque ele sabia de tudo. Até que ele fez uma descoloração que me deixou quase careca e meus cabelos vermelhos terminaram amarelos. Logo depois, vim embora para a França.

Em um dia de tpm, tentei cortar os cabelos em casa, sozinha à la Joana D’Arc. Catástrofe sedimentada, corri para um salão no outro dia para tentar arrumar o desastre. Além de levar xingão da coiffeuse durante todo o tempo em que ela me dizia que não podia fazer muita coisa para salvar a minha alma e me ameaçando de eu ir para o inferno dos descabelados, paguei 40 euros e saí do Jean Louis David parecendo um champignon.

Mentalizei o desapego, paguei, orei e passei quase o ano sem pensar em cortar as madeixas novamente. Até que a necessidade era gritante e o tamanho da juba também. Então, rumei a procurar outro estúdio que não fosse Jean Louis David para eu não reencontrar a loirosa que me estapeou o cucuruto a fim de me ensinar bem a nunca mais me aventurar em casa. Aprendi. Mas nunca mais voltei lá.

Mas, semana passada, percorri grande parte dos cabeleireiros nos pés dos Alpes até achar um que fosse à altura desproporcional aos meus traumas. Na porta de vários deles, eu grudava as têmporas nos vidros para olhar a lata de quem estava por dentro. Lugar com muita perua velha, às vésperas do meu aniversario pré-balzaquiano, NOT. Estúdio só com cabeleireirAs, temo: mulherada reunida é sempre complô ou confusão. Olhei salão emo e salão gótico. Não, obrigada. Cabeleireiro muito abibalhado vai querer eliminar a concorrência. Coiffeur muito fashion que se auto-denomina de hair stylist vai, provavelmente, fazer um corte da moda: dispenso.

Já estava quase desistindo quando encontrei um salão em uma rua escondida, sem letreiros dourados ou fachada vitrine. Abro a porta e sinto o clima: uma manequim despida na entrada (medo), som electro indiano muito alto (medo), ambiente era completamente obscuro com escadas que levavam para um mezanino sem luz (medo), paredes eram vermelhas com decorações orientais e fotos de nus (medo) e recepção de um cabeleireiro careca (maior de todos os medos). Tudo indicava que eu não sairia viva de lá. Mas ele foi gentil comigo e tinha horário naquele momento, e eu, bem phina, resolvi não demonstrar minhas emoções e sair correndo e resolvi aceitar a proposta que o destino me sugeria.

“Fale com o Olivier”, me indicou o careca, enquanto eu andava pelo lugar olhando a cabeça das outras pessoas pedindo para ser abduzida por uma nave extraterrestre . Tinha uma loira punk tendo a raiz retocada pela versão feminina do Chororó (ou do Xitãozinho, sei lá). Um outro cabeleireiro moldava uma versão morena da Brigitte Bardot. Nesse mesmo momento, o cabeleireiro fashion do salão-vitrine entra e é atendido pelo Olivier, meu quase futuro cabeleireiro. E eu, que fim teria?

Logo depois, Olivier me chamou, sorridente. Me conduziu até o seu posto, penteou meus cabelos e disse que queria fazer algo DIFERENTE. Foi procurar uma foto em seus arquivos e voltou com uma imagem de uma loira adolescente de cabelos lisos desfiados e curtíssimos. Se ele conseguisse me transformar mesmo na Taylor Momsen, eu oraria para sempre só por agradecimento.

E ele iniciou seu trabalho. Quando a coragem permitia e eu abria os olhos por meio segundo, via tufos de cabelos vermelhos sendo atirados por todos os lados. Foi então que começou o conversê. Olivier quis saber o que eu fazia na França, meu signo e ascendente, meus projetos para o futuro. “Eu sinto que você é uma pessoa muito plural”, me confidenciou, me pedindo, sempre sorridente, para eu contar sobre os meus planos.

Típico de quando estou apavorada de terror, desandei a tagarelar. Olivier se impressionou. Disse que quando eu havia entrado no estúdio, pela minha aparência, ele teve a impressão que eu era uma pessoa de personalidade muito forte, mas, que ao conversar comigo, percebia que eu era, na verdade, pra la de douce. “Seu exterior é um artifício para você equilibrar o seu ser”. Ai que lindo.

O coiffeur français contou que tinha passado dois anos na Índia sendo iniciado no budismo e que participava de rituais religiosos de uma tribo africana, mas admirava mesmo os brasileiros. Conheceu o candomblé por meio de uma amiga brasileira e me contou que, quando fosse ao Brasil, gostaria de ir até um terreiro para participar de uma sessão.

Disse que os brasileiros são pessoas de espírito muito elevado, com um nível de aceitação de religião e misticismo muito alto, aptos para a compreensão de todo e qualquer ritual, o que indicava uma abertura muito grande na nossa alma, mesmo que não tenhamos uma religião definida. “Definitivamente, vocês são seres superiores”, ele garantiu. Derreti, né. “Então raspa aí minha careca”, quase que eu pedi.

Olivier demorou mais de uma hora e meia cortando, alisando, encrespando de novo, escovando, fazendo e desfazendo cachos e penteando de mil formas o resto que sobrou do meu cabelo – não foi muito. No final, eu já estava estirada na cadeira, quase entrando em transe com o coiffeur. Saí de lah HORREVEL, com dois tocos de cabelo arrepiados e alisados que ainda não consegui abaixar. Mas fiquei feliz de encontrar um cabeleireiro que fez o trabalho de um terapeuta. Digamos que o momento foi phino – e é o que vale. O resto já nem sei.

*Dany Darko sente saudades do Brasil só quando tem que cortar o cabelo. No auge de sua fase emo, usava tic-tacs coloridos. Não tem muito orgulho dessa época. Às quartas, direto da França, conversa com você, como se estivesse no salão de beleza. Faz pés e mãos também aqui.

9 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, religiosidade, vergonha própria

9 Respostas para “Fale com ele

  1. Dany,

    quando vieres a São Paulo te ofereço o Nando, meu cabelereiro. Ele fez em mim na última sexta o cabelo must-have da estação, segundo a revista Details (o que não é pouca coisa).

    Fala pouco e não é gay. Tu vai adorar.

    BICHA DO MAL disse hoje que eu tenho que deixar o meu cabelo assim, SEMPRE. No fundo, ele quis dizer que antes tava horrível. Mas não importa a opinião dele.

    Fora isso, texto está delicioso. Ri em voz alta nas duas vezes que li.

  2. Lindinha, depois de cortar o cabelo em Pequim com um coiffeur chinês que falava só 3 expressões em inglês (lavar, cortar e venha cá), comprei uma peruca – por incentivo de um careca-ca.
    Se tu não te importares de parecer uma versão anos 2000 da Farrah Fawccet, te mando pelo Sedex.

  3. Bah, ótimo texto! Ri muito e me lembrei de várias situações que já passei também. Principalmente a de ficar imaginando como evaporar do salão e fugir dos papinhos típicos.
    Quando eu fui ao Brasil de férias, logo nos primeiros dias fui no meu cabelereiro do interiorrrr, que tem o cabelo mais feio do mundo (totalmente assimétrico, com luzes, com mullets, com franja, meio liso, meio crespo) mas que sabe o que faz. E quem não tinha me visto antes de cortar o cabelo, só falava que estava com “ar europeu”. Sei! Se eles soubessem que aqui a moda é Chitãozinho e Xororó para pior…
    Faltou a foto do cabelo. Aposto que está lindo!

  4. Ms.Riverside

    Jamais aceite a proposta “fazer algo diferente”, jamais dá certo! Só existe uma coisa que se pode dizer a cabeleireiro: “corta só as pontas, sou muito tradicional”…
    Agora ele ser gay ou não pouco importa. Cortar cabelos independe de sexo, creio eu, uma tentando-ser-phina-em-decadência.

  5. eu corto meus cabelos há 13 anos com a mesma pessoa, não importa os 630km que nos afastam. duas vezes por ano a maudinha toma conta da minha cabeça e faz o que quer. sempre bem feito, óbvio. não vivo sem! :p

  6. o bom do cabelo é que cresce.

  7. Aqui na Alemanha as coisas sao assim tb…
    Uma cabeleireira groooooooossa queimou a minha testa e, quando eu reclamei, jogou o secador na bancada e falou “seque vc mesma entao”. O corte ficou um lixo e eu nao paguei.
    Outra fez um champignon, quando tudo o que eu queria era um chanelzinho no estilo falso curto.
    Agora mesmo estou na torcida pra que o cabelo cresca logo, e tome grampinho e tic tac enquanto o dia da minha viagem pro Brasil nao chega…

  8. Eu achando que pavor de cabelereiro era exclusividade minha. Me sinto mais a vontade na cadeira do dentista.

    Vim, li e gostei.

  9. igor

    Definitivamente, a cadeira do coiffeur é o lugar mais incognitante que existe!
    Nunca sabe como vai sair de lá, em todos os sentidos!

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