Ingleses e aquele conceito que eles crêem ter inventado

Poor Michael, vai ter que trabalhar

Por O Outro Lado*
(Em Busca do Feno)

Os ingleses, suponho, devem brigar com os franceses pelo crédito de povo que inventou a phinesse moderna. Mais ou menos como os brasileiros e os americanos pela aviação, ou nem tanto: sabemos pelo menos quem deu a publicidade primeiro. No caso, a publicidade importa bastante. Mas, como ninguém patenteou a phinesse, provavelmente nunca saberemos. Mas o que eu suponho, e tenho a propriedade de ter uns lances de sensitividade muito precisos, qual tenha sido o primeiro pensamento phino.

Isso eu pensei em uma parada de ônibus do Thames Riverside (o que torna o pensamento muito mais chique): o primeiro impulso da phinesse foi pensar. “Bem que esta pele de gazela poderia ser mais bonitinha, além de só me esquentar. Pode ser até que eu consiga procriar mais e melhor assim.” Algo neste sentido. Ou ainda: “vou comer um pouco menos desta gordura de urso, assim meu quadril ficará menor e a pele de gazela vestirá melhor.” Bem fácil de imaginar toda a haut culture advinda daí.

Mas ao estilo inglês, ou o pouco que consegui detectar em uma semana.

Desde que chegamos, Michael Jackson não sai da capa dos tablóides. Não só dos jornais populares, maiores que qualquer jornalão bananeiro, mas também dos ditos sérios. Todos fazem os trocadalhos com o apelido de Jacko e as gírias “wacko” e “backo”. Normal. É que ele resolveu fazer na próxima temporada de shows uma aparição no O2, em Londres, tal qual múmia ressurgida, para pagar suas muitas contas atrasadas. Os ingleses adoraram a idéia. Os 10 shows certamente lotarão e existe o rumor de que haja outros 40 mais, de modo que o total chega a impressionantes 100 milhões de libras, ou isso em reais vezes no mínimo 3,60.

Estávamos hospedados na casa de um casal de jornalistas amigos. Toca a campainha por volta das 19h30. O dono da casa vai atender e ficamos escutando a conversa. Entre outras coisas, o inesperado visitante pergunta há quanto tempo nosso amigo está no Reino Unido. Penso imediatamente: a imigração, ainda bem que estamos legais. A evolução da conversa revela o interesse. Na verdade, o cara que apertara a campainha coletava doações para animais. Não animais inteiros, mas animais com problemas dignos do mais verdadeiro ser humano: gatos cegos, cachorros diabéticos, etc. Fotos mostravam quão séria era a situação dos cachorrinhos diabéticos.

Não levou nem uma libra. “Imaginem, eu voltando da Índia e vem um cara me mostrando cachorro com diabetes. Não ajudo bicho diabético.” Tu vê. Ingleses têm uma sociedade que se complexificou ao ponto de eleger como questão relevante a situação dos cachorrinhos diabéticos, que certamente valem a insulina que muitos seres humanos talvez precisem. Muitos ingleses ajudam os cachorros diabéticos. E muitos mais ajudam o Michael Jackson endividado.

Isso é phinesse, minha gente. É não ter com o que se preocupar e ainda arranjar com o que. O pior é que estão com todo um leste europeu para salvar da falência. Mas tudo bem. Ao Michael Jackson, aos cachorros diabéticos, à pele nossa de cada dia.

No próximo capítulo, tablóides e a família Real, imigrantes do Bananão e balada forte às 16h de um domingo.

*O Outro Lado já teria dado um balaço no meio da fuça do cusco muito antes de saber que ele tá diabético. Segue em busca do feno aqui, às terças, sejam elas ensolaradas ou muito frias.

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6 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Em Busca do Feno, em defesa do phino animal, O Outro Lado

6 Respostas para “Ingleses e aquele conceito que eles crêem ter inventado

  1. A phinesse com PH é nossa. E tenho dito.

    Triste realidade inglesa. Pobre Michael, pobres animaizinhos…

    Quanta incompreensão da humanidade!

    Belíssimo retrato de uma nação.

  2. Ingleses e franceses também brigam pelo futebol. So bloody phino!

  3. monim

    “É não ter com o que se preocupar e ainda arranjar com o que.”

    A história da tal Jade Goody prova isso.

    Para mim, prova também que em qualquer lugar do mundo tem comedores de lixo.

  4. Caroline Andreis

    Não posso ver bichos doentes. Se não me deserdassem por isso, entregava tudo para os cachorros.

  5. é, o pessoal presta mais atenção nos cães diabéticos (e me pergunto, como um cão exagera na glicose?) do que no pessoalzinho que morre de fome pelo mundo afora…

    nada nada phino e, muito menos digno.

  6. E essas férias, terminam quando?
    Voltaaaaaa!

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