E se você saísse à inglesa?

Como assim vão embora sem dar bisous?

Como assim vão embora sem dar bisous?

Por Dany Darko*

Na França, quando se chega a uma festa ou a um lugar onde encontramos conhecidos, a boa educação française sugere que a gente os cumprimente com três ou, dependendo da região onde estamos, quatro beijos (!!!). Até aí nada de anormal, certo? O grande problema é quando nessa festa/lugar o número de pessoas é de cinqüenta e lá vai fichinha e a gente não conhece a metade delas; nunca os viu na vida.

Não tem como escapar: é preciso cumprimentar todo mundo, independente de qualquer desculpa, raça ou religião, e se tiver gripe ou herpes. Caso contrário, a gente passa ou por mal-educado ou por antipático. Às vezes, a gente leva tanto tempo só nas saudações, que quando termina a distribuição de bisous, a festa já acabou e está na hora de ir embora. Haja saco beijo.

E quando a gente vai embora, o mesmo ritual é repetido, sem choro ou cansaço. Mesmo que você não tenha falado com todas as 763 pessoas do lugar, que não vá com a lata de alguém ou mesmo que você tenha vontade mesmo é de dar uma tunda de laço em certas criaturas. Phinesse francesa manda que, antes de bater, tem que se despedir.

Exemplifico: fui obrigada a conviver com uma mala durante um final de semana inteiro porque estávamos hospedadas em um mesmo hotel para o casamento de um amigo em comum no norte da França. Não darei detalhes do que a baranguete aprontou porque é tanta falta de phinesse que vale assunto para um post inteiro. Na hora em que finalmente consegui me separar da xarope, achei que um cruzado de esquerda « tchao » seria claro e suficiente porque « au revoir » deixaria aberta a possibilidade de nos vermos. Mas ela veio me dar beijos de despedida. E ainda me larga um « à bientôt » (até breve), que tive o prazer de não responder.

Nada a ver com simpatia, mas a cultura francesa é temperada pela etiqueta, pelas regras e pela necessidade de normatização. Aqui, até cachorro tem lugar específico para fazer suas necessidades. Tudo bem que esse é o sistema deles e, querendo ou não, as coisas funcionam bem desse jeito. Mas às vezes é tanta formalidade que cansa.

« Aqui, eu faço o que eu quero », indica a placa dos banheiros públicos dos totós

« Aqui, eu faço o que eu quero », indica a placa dos banheiros públicos dos totós

Diz pra um francês que, qualquer hora dessas, você vai ligar pra ele pra vocês conversarem pra ver o que acontece. Ele vai ficar sentado do lado do telefone o resto da vida dele. E, depois, quando te encontrar, vai te cobrar e certamente perguntará: por que você fez uma promessa e não a cumpriu?

Na minha faculdade, uma professora chamou a atenção de uma aluna estrangeira que a chamou de « tu » ao invés de « vous », expressão de respeito, mas que nem sempre é muito clara para quem não é daqui. E um garçom corrigiu um amigo brasileiro que, na hora de escolher o que queria comer, não utilizou o « eu gostaria », mas o « eu quero », e isso é tomado como falta de educação. O conterrâneo repetiu o pedido, dessa vez usando a expressão correta « Je voudrais… ». E o garçom interveio novamente: « Agora, peça por favor ».

E daí que, diante disso tudo, não dá nem para sair à francesa. Porque aqui, sair à francesa, corresponde, na verdade, a « sair à inglesa ». Claro que eu me faço de louca e saio do jeito que eu bem entendo, seja na França, seja na China, seja no Burundi. Educação não tem limites, mas a minha paciência, sim.

De qualquer forma, meu grande momento vergonha nacional quebra de protocolo não aconteceu em um hemisfério alheio, mas em uma certa champanharia de Porto Alegre. Enquanto o editor desse wikiphino insistia em toda a forma em chamar minha atenção e em me puxar pelo braço, eu expliquei para ele que eu sabia que minha presença era essencial para a felicidade de sua noite, mas que ele me deixasse ir que meu brilho já estava no fim. « Rapha, preciso ir embora, me deixa » « Tudo bem, Dany, mas tu vai sair pela janela? ».

Ops, foi por pouco. Mas, acalmem-se amigos phinos, são sou eu quem vai sujar a honra e o orgulho da nossa nacionalidade aqui: as janelas dos bares na França são trancadas. Como estou a par desse sublime detalhe? Sei lá, intuição.

*Dany Darko dança, canta e representa para manter a phinesse. Na França, é claro. Já por essas bandas tupiniquins, se permite certos deslizes, que só conta aqui, às quartas. Nos outros dias, apenas representa… o Brasil, aqui.

9 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, festas phinas, fica aí a dica, vergonha própria

9 Respostas para “E se você saísse à inglesa?

  1. Como posso esquecer desse fatídico episódio? hahahahahhahahha

    (eu sei, muita champanhe na cabeça, mas abafa.)

    O bom de esquecer é que sempre é uma surpresa seguida de muitas gargalhadas.

    Mas, quanto aos frances, preguiça de tanto beijo e de garçons patéticos. “Sil vous plais no teu cu”, o cara devia ter dito. Ah, se fosse eu…

    Faça-me o favor.

    Preguiça… É por isso que eu prefio a mala educação espanhola de Almodóvar.

  2. É por isso que chamam os brasileiros de mal educados. Eles ainda não aprenderam que descontração é igual a ‘descomplicação’ …

  3. Di

    Que tanta phinéssi na França! As pessoas são obrigadas a serem falsas, cumprimentando todas as pessoas, sejam de seu agrado ou não.

    Mas isso é normal, está etiquetamente correto!

    Ótimo post Dany…

  4. Na França tem que pedir “Por favor, com licença, desculpe, se não for incômodo, eu gostaria, se possível…” bah, nem lembro o que eu ia pedir!

    Se bem que aqui em PT (sempre minhas comparações …) as pessoas se ofendem se forem tratadas por “tu” sem ter intimidade. Até para pedir desculpas tem que se cuidar. Tem que dizer “Desculpe” e não “Desculpa”, porque “desculpa” é conjugação para segunda pessoa… Para não errar, melhor dizer “Peço desculpas”.

  5. Não se atira beijinho aéreo na França?
    Acho ótimo aquele estalar de lábios vazios acompanhado de um abanico.
    Nos faz passar por queridinhas e nos poupa da proximidade física indesejável.

  6. Thielli

    Dany, adorei o post e, mais que tudo, o banheiro dos cães!! Tudo bem que não precisa toda essa frescura francesa, né, mas é bom a gente ser educadinho de vez em quando.
    Percebi que estava perdendo um pouco a educação (e até a percepção da boa convivência com os outros) quando vim morar em Cuiabá. Não que aqui seja o fim do mundo da má educação (apesar de 99,9% das pessoas acharem que aqui só tem índio, onça e, agora, muita soja), mas está a anos-luz do que já aprendemos no Sul.
    Explico: tenho dois cães lhasa apso e, em Porto Alegre, sempre saía com os lindinhos para que pudessem fazer suas necessidades levando saquinhos para recolhê-las. Acontece que aqui as pessoas não estão muito acostumadas com isso (são poucas que vejo na rua com as sacolinhas) e no meu condomínio deixava os pequenos correrem pela grama sem preocupação para se aliviarem. Só para constar, é um condomínio de casas, então tem bastante grama. Até que uma vizinha me chamou a atenção e quase morri de vergonha!
    Apenas aí me toquei do que estava fazendo, de quão egoísta e mal-educada eu estava sendo! Tudo isso para dizer que é preciso, sim, existir regras (implícitas ou explícitas) para algumas coisas, senão a gente não consegue viver! Mas, novamente, não precisa tanta frescura como na França ou em Portugal, onde meu cunhado mora e haja paciência com regras!

    Beijão pra todos!

  7. vivi

    parece que estou ouvindo o meu chefe falar: “we, FRENCH people, leave in the English way”.

    uai.

  8. Rafa: tomara que as janelas na Alemanha também sejam trancadas!

    Di: a etiqueta aqui é obrigação, especialmente entre os mais velhos. Mas entre os mais novos (ou “os jovens, como diria nosso editor phino) até que as coisas vêm mudando.

    Monica: sabe que eu também vivo morrendo de medo de não usar o modo de tratamento correto? Bom, por essas e outras é que sigo chamando os sogros de “vous”. O Florent morre de rir das saias justas que eu passo.

    Sextasessão: beijinho aéreo+tchauzinho é minha fórmula preferida. Vários franceses que estudaram em Porto Alegre acham o máximo que os porto-alegrenses se cumprimentam fazendo o gesto do “hang-loose”. Vê se eu posso com isso.

    Thielli: quanto tempo, guria! Legal te ver por aqui! É, tu tens razão, tem coisa que, com a convivência, a gente acaba deixando passar. Mas é como eu escrevi, cheios de regras implícitas ou explícitas, a verdade é que as coisas funcionam bem por aqui. E ainda sobre cachorros, em alguns parques, eles reservam áreas especiais para os totós brincarem também. E é comum a gente encontrar distribuidor de saquinhos pelas ruas.

    Vivi: teu chefe é aquele que fazia questão das colherinhas de café lustradas? Benzazeus, essa criatura vale um post!

    Beijo, amigos phinos!

  9. Ms.Riverside

    Bueno…já dizia a minha avó: “quem chega cumprimenta, quem sai se despede”!!!
    Três beijos, quatro beijos… que loucura…
    Eu instituí que nos íntimos só dou 1 beijo, 1 só, mas sincero. Nos não tão próximos são 2 do tipo “no ar” e não na bochecha!
    E se tiver muita gente, dizia a etiqueta que se dá um “oi” phino e um “até logo” quase calado, pois que o gesto estará no olhar [que lindo isso!].
    Mas Danny Darko tem razão, sair sempre antes do brilho se apagar!

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