Mate a sede com a água do menino africano feliz

Tome um, dê 10. E faça um menino africano feliz

Tome um, dê 10. E faça um menino africano feliz

Por O Outro Lado*
(Em Busca do Feno)

Sou um obcecado pelas favelices humanas. (Não creio que um dia vá conseguir escrever pro phino ou dissociar qualquer idéia estúpida do conceito de construir um puxadinho onde antes havia uma encosta florestada. A imagem é eloquente demais.) Minha mais nova obsessão é a mania inglesa de estar em paz com o que é politicamente correto. Na verdade, parece algo próprio das grandes forças, inclusive individuais: matar e roubar, mas sempre com uma boa desculpa, sempre por uma boa causa.

Aqui, na terra dos dentes podres, os caras não podem simplesmente tomar um café. Tem que ser um café orgânico, plantado de acordo com as mais rígidas normas de controle ecológico e comercializado de acordo com os mais éticos princípios do mercado justo. Com leite desnatado direto de um ubre de vaca bem amaciado.

Estou falando sério. O slogan da gigante Starbucks aqui é algo como *Starbucks e comércio justo: juntos podemos fazer a grande diferença*. Praticamente um *vem vamos embora que esperar não é saber*. E não é apenas a Starbucks. Também a Pret a Manger precisa estar em dia com o complexo de culpa inglesóide. *Todo o nosso café é plantado fora de áreas de floresta tropical, colhido por pessoas que não estão em situação de escravidão e comercializado com todo o fair trade possível. Of course.*

Na estrada para Liverpool chegou ao cúmulo quando fomos comprar uma água durante uma das paradas para descanso. A água, que por sinal custou uma fortuna, trazia um sorridente menino africano no rótulo. Pois bem, a marca da água garante que para cada um litro de água que eles vendem, 10 outros de boa água potável são entregues para populações carentes na África. Decidam vocês se isso é viável ou não. Evidentemente que passei a chamá-la de *água do menino africano feliz*. Agora estamos de bem com nossa culpa superpotente, podemos matar nossa superpotente sede em paz.

Ao mesmo tempo em que simpatizam com qualquer país mais pobre, a inglesada adora o Braziu. Só falta abaixarem a calça e rebolar a bunda branca na tua frente quando se diz que é brazuquinha. E não adianta dizer que tem vergonha. Eles insistem que nosso país é muito bom e pronto.

Num stand up comedy show, o cara perguntou de onde éramos e classificou o nosso país (meu não, de vocês) como o MAIS GLAMUROSO, seja o que isso quer dizer. Gostam muito do Braziuzão, mas sabem tão pouco que nem uma piada decente foram capazes de fazer durante o show. É que nem o Obama. Gostam muito dele, mas morrem de medo de fazer uma piada que possa soar preconceituosa.

Um brinde com aguinha do menino africano feliz.

* O Outro Lado retorna hoje da terra de Elizabeth, onde passou umas semanas afiando as unhas. Escreve aqui nas terças-feiras, salvo quando Rafa atrasa sua coluna de segunda-feira e muda a ordem sem que vocês percebam.

8 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Em Busca do Feno, O Outro Lado

8 Respostas para “Mate a sede com a água do menino africano feliz

  1. Como a indústria inglesa é generosa! [modo irônico ON]

    Pelo que lembro de ter aprendido por aqui, phino é ter generosidade como valor e, não apenas espalhá-la em rótulos por ai.

  2. Caroline Andreis

    tsc, tsc, tsc.
    É hora de voltar.
    Até porque eu preciso de você aqui. =)

  3. sextasessao

    Só tenho uma coisa a dizer:
    “O outro lado” está de volta à redação e já ganhou uma pauta para a tarde.

  4. maria luíza sá e madureira

    é o que eu discutia com um amigo outra hora: tentar ressignificar o espaço da publicidade e tornar suas mensagens algo além do ‘quero vender’ é dar idéia pro demônio. mantenhamos as coisas como sempre foram. que a publicidade se assuma como instrumento de vendas, e deu. morei em londres e vi coisas bizarras também. como as sacolinhas de supermercado, as ecobags, que todo mundo compra e usa. depois, claro, ainda leva junto com o rancho os sacos pretos para lixo, na falta de sacolas grátis do próprio estabelecimento. o super agradece.
    nenhum sentido.

    (http://mariamadureira.wordpress.com/)

  5. O Outro Lado

    Quero deixar registrado aqui o esforço de Sexta Sessão para achar a imagem no Google. Não é minha. Parabéns pelo esforço.

  6. Lendo esse texto lembrei de um episódio de quando eu precisei de atendimento médico aqui na França. Como não era uma urgência e eu ainda não tinha o seguro-saúde do governo, passei um bom tempo explicando para a atendente do consultório todas as encrencas que o governo francês tinha me feito passar porque funcionários da prefeitura da minha cidade perderam todos os meus registros e demandas de documentos.
    E aí a secretária, que até então estava de nariz torcido para mim e dizia que não tinha a menor possibilidade de eu ver um médico sem o seguro saúde, me perguntou qual era a minha nacionalidade. Diante da minha resposta, ela abriu um sorrisão e comemorou: “Brasileira? Que sorte! Como eu gostaria de ter nascido no teu país!”.
    Tá, né, acreditei. Até porque recebi atendimento médico alguns minutos depois.

  7. Bela crônica.

    Mas só um detalhe, quem ainda aguenta “stand up comedy show”? Sério… Me contaram que a coisa tá chegando com força em Porto Alegre. Medo.

  8. O outro lado

    Stand comedy show são que nem os animaizinhos selvagens, tem que estar no seu ambiente próprio, a saber, os países anglófonos.

    No Braziu stand comedy é esta patotinha do CQC.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s