There is no place like Porto Alegre

Ai que saudades que eu tenho da aurora da minha vida!

Ai que saudades que eu tenho da aurora da minha vida!

Por Dany Darko*

Um dos momentos mais marcantes in my whole life, no final da adolescência, era sair na noite de Porto Alegre. Explico: a mudança do ambiente pegação na praia marombados bronzeados e loiras goxtosas siliconadas do sul de Santa Catarina, para a cidade que eu adotei de CORAÇÃ não foi somente um momento de transição intelectual por conta da entrada na universidade (eu pensava isso naquela época) mas uma transição na vida social (eu penso isso até hoje): o mundo ANDERGRAUNDI (a gente dizia assim naquela época). Rafa e L’Andreis sabem do que eu estou falando.

Sim, pintei os cabelos de vermelho. Sim, coloquei piercings. Sim, fiz tatuagens. E mantenho tudo isso até hoje, mas sem aquele estigma adolescente da necessidade de diferenciação ou manifestação. O normal, pra mim, é ser desse jeito. Também tenho cicatrizado o meu complexo amigo-gay. E desisti de namorar bibichinhas pra ficarmos falando sobre como a gente queria pegar o Gael García Bernal. Era divertido, durante a adolescência portoalegrense. Hoje, passou da validade.

E esse enorme nariz de cera serve só para dizer que, depois de quase dois anos morando en France, sinto falta da família, dos amigos, das calcinhas brasileiras, de suco de laranja e… das festas de Porto Alegre. Calma, mãe. Isso não é um coming-out: também já passei da idade pra isso.

Relembro: 1999 foi o ano em que eu descobri que eu podia dançar a noite inteira sem a macharada passando a mão na minha bunda, lambendo a minha orelha e berrando no meu ouvido: “Oi, vamos conversar?”. Tinha sido assim, até então, no sul de Santa Catarina.

E a sensação de 1999 se estendeu pelos longos 7 anos em que eu vivi na capital gaúcha até o atual exílio. Também fiz dessas boas festas no Rio, mas sempre preferi Porto Alegre. Não que eu frequentasse somente as festas homo – que eram sempre as mais divertidas – , o que me fascinava no mundo ANDERGRAUNDI era a ausência de certos códigos implícitos de comportamento, que é não ter códigos implícitos para nada. Como ter que passar três horas do dia me montando em penteados, maquiagens e vestimentas para esperar o ataque do sexo oposto e ter minhas necessidades sexuais saciadas, dependendo da boa vontade ou do interesse deles.

Até a metade da década atual, eu podia sair de camisola, coturno, dançar a noite inteira, não ter dificuldade de me desvencilhar dos cortejos indesejados (« sou lésbica, foi mal ») e ter todo o tempo do mundo para escolher o gatchenho que eu queria beijar quando eu bem entendesse, quisesse ele conversar ou não. Os códigos eram bem explícitos, na verdade. Essa era a minha casa.

E o que tem de diferente nas festas da França, Dany? Amigos phinos, eu revelo. As diferenças estão completamente superadas por aqui, o que significa que são raras as festas em que se faz a separação por opção sexual ou outras preferências. O que significa que não existem festas lado B tão divertidas. O que significa que os lugares têm todos a mesma cara e as pessoas também. O que significa que sempre tem homem porre all night long babando na nossa orelha. E, sim, existem os clubes gays, que são extremamente segmentados, muito PC do B para o meu gosto.

O que acontece é que todo mundo se junta em qualquer lugar e aí fica complicado o meu trabalho de detecção de macho chato. Ou seja, nem sempre aquela conversa com um suposto amigo gay de fila de banheiro tem um final feliz. E a gente já não sabe mais se quando a criatura vem te falar que o teu cabelo é lindo de MÓRRER é porque ele te inveja ou porque ele quer te comer.

Vai comer aqui ou levar pra casa?

Vai comer aqui ou levar pra casa?

Além disso, com um emaranhado de culturas que se tornou a ZOROPA, não é possível prever o que pode acontecer após uma inocente conversa. Você pode ser mal interpretado só porque você estava sendo educado e não receptivo. Ou perseguido por uma pessoa a quem você passou o número de telefone por pura insistência e falta de reação. Ou agarrado sem a menor cerimônia por outro que pensou que a sua simpatia indicava que você estava ali a trabalho. Nada contra as prostitutas, viu? Mas ainda penso insistir mais um pouco no Jurnalixmo.

E agora vocês entendem por que as francesas têm fama de antipáticas. No perigo, elas batem mesmo, gritam e fazem escândalo, descem do salto se for preciso. Preciso dizer que no meu manual de phinesse não veio esse capítulo? “Aprende com elas”, me instruiu petit-ami. Então, amigos phinos, estudei, aprendi e hoje sou outra mulher.

E eu contava tudo isso, em português, para uma amiga colombiana e lusofone, na fila do banheiro de um pub, quando se aproxima uma criatura que a gente viu no banheiro masculino fazendo xixi de porta aberta e comentando que ele adora Libertines enquanto tocava Arctic Monkeys.

– Ustedes sont mejiicaines? – ele chega, sem antes lavar as mãos, e tenta se comunicar em FRANCENHOL.

Ambas fazemos a egípcia.

– Ustedes sont espagnoles?

– No – minha amiga se vira para mim e continuamos a conversar em português.

Como se o nosso SIMANDADAQUI não tivesse sido suficiente, ele grita, se interferindo na nossa fofoca:

– Y USTEDES NE PARLAN PAS FRANÇAIS?

– Pas avec toi. Contigo, no – respondo.

Entramos no banheiro, enquanto ele resmunga alguma coisa que a gente não faz a mínima questão de interpretar. Na saída, a criatura já tinha evaporado e devia estar cuspindo baba de cerveja na orelha de outra vítima.

Mas, sim, voltamos a encontrá-lo, no final da noite, com um bando de amigos bêbados, do lado de fora do pub. Ele nos aponta, os amigos se reúnem. A medida em que a gente vai saindo do bar, eles nos cercam. E quando a gente passa por eles, o grupo inteiro entoa:

“Bamboleo, bambolea/
Porque mi vida, yo la prefiero vivir asi/
Bamboleo, bambolea!!!”

Desce, glamourosa!

Desce, glamourosa!

A vingança do grupo, em nome do amigo que mija de porta aberta, confunde Libertines com Arctic Monkeys e não lava as mãos antes de abordar as pretendentes, foi não parar a cantoria até que nós fôssemos embora. E aih Gipsy Kings entoado por um bando de machos bêbados mal-sucedidos na saída de uma noite é o que me foi destinado.

GEINTEIM, todo o meu passado ANDERGROUNDI foi barrado pela minha estrangeirice e pela burrice masculina. Perdi meu brilho.

E é isso que eu vou contar para meus sobrinhos-netos (porque duvido se procriarei) quando eu for uma velhinha de cabelo rosa, tic-tacs, com os braços todos tatuados e saia rodada. Vou relembrar a soirée em Lausanne, na Suíça, depois do show do Vive la Fête. E outra, em Dublin, com amigos franceses e uma amiga brasileira. E uma melhor ainda, em Madrid, quando fui visitar uma outra amiga gaúcha. E aquela, no Réveillon, em Londres, com um grupo pra lá de divertido. Mas nenhuma se compara às festas de Porto Alegre. Não tem lugar como qual.

*Dany Darko hoje vive en France e só bebe crémant, mas já tomou muito leite de cabra no Bar do João, avenida Osvaldo Aranha, Porto Alegre. Escreve aqui às quartas e nos outros dias. Sempre do além-mar.

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9 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, festas phinas, lugares com PH, vergonha alheia

9 Respostas para “There is no place like Porto Alegre

  1. Acho que o título da tua coluna poderia ser “there is no year like 1999” ou “ai, como éramos felizes”. Mas cansei de ser velho.

    Passei o findi em portalegre e me diverti como nos velhos tempos. Mas sem raves nem música eletrônica, por favor, que tudo tem limites.

    Tempo bom, que não volta nunca mais!

  2. clarissa

    CHORO com essa história.
    acho que dava um beijo na boca de quem cantasse bamboleo pra mim, mas sou magma de tão rasteira.

  3. bonito, dany.
    estou em sp e com saudades de casa tb.
    =)

  4. doce ilusão brasileira de que na ‘zoropa’ tudo é diferente, tudo é perfeito e tudo funciona melhor que no brazil. not.

    i do agree: there’s no place like porto alegre.

  5. A gente que mora em porto alegre às vezes não se dá conta de quão boa é nossa cidade e nossas festas. Ótimo post! Adorei seu blog. Abraços!

  6. Everton

    Muito bom ler este teu post!
    Pra mim nao foi 99, mas 2000; nem em PoA mas em Santa Maria; nem no Rio, mas em PoA. Da epoca underground sobraram as costeletas, e mesmo elas as vezes desaparecem.

    A boa noticia é que sabado a gente vai comer churrasco. A carne é dasoropa, mas sera no espeto, como em Porto Alegre 🙂

    Abraçao!
    There is no time like the underground age!

  7. em 99, eu era punk feliz em brasília… mas sim, sou apaixonada por porto alegre! (que nenhum brasiliense me escute, plix!)

    =*

  8. Não consigo lembrar o que estava fazendo em 1999.
    Sei que o dolar já estava subindo, e não teve viagem regada àquela orgina do 1 por 1.
    Lembro que não fui nas mesmas festas que vocês, mas meu irmão foi.
    Recordo que estava competando 7 anos fora do livre mercado.
    E que usava cabelo chanel.
    Mas que já tinha decido que iria viver, equanto pudesse decidir, em Porto Alegre.

  9. trencavel

    Hola! chamo-me Laura, sou francesa. Queria conhecer pessoas de Porto Alegre porque vou vivir em POA. Como é a cidade ? Nao encontrei muita informaçao.
    Obrigada

    Laura

    elyuren@hotmail.com

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