A má educação

Que modos são esses, mocinha?

Que modos são esses, mocinha?

Por Dany Darko*

A convivência com o povo francês anda pra lá de complicada e vejo que essa SITUAÇã só tende a piorar com o tempo de permanência na terra estrangeira. Nas últimas semanas, ando numa tal oscilação do “não sei se vou ou se fico” que até passagem para o Brasil andei comprando. Com volta, claro.

A verdade é que, logo que a gente se insere em uma cultura, o nível de exigência à adaptação a ela é menor porque você é novo na área, não fala direito a língua, não conhece todas as normas de comportamento e o círculo social é reduzido, o que diminui a PRESSã. Mas, depois de algum tempo em solo alheio, não tem mais desculpa que justifique as gafes, nem “desolée” que desfaça os erros: é guilhotina na certa.

Por um certo lado, até entendo e acato algumas exigências do povo anfitrião, já que a casa é deles e fui eu mesma quem me convidei pra festa. E confesso que suo a camisa pra me adaptar ao ambiente estrangeiro, não meço esforços e já não me ofendo mais quando alguém vem me puxar a orelha e me dizer “isso não se faz”, o que acontece com certa frequência, já que minha obediência é inversamente proporcional à minha atenção.

Por outro lado, também entendo quem chuta o balde quando não recebe tolerância diante da cultura desconhecida. Não é simples conviver com as regras dos outros, especialmente quando elas são infinitas e não vêm escritas em nenhum manual.

E não que eu queira puxar a sardinha pro meu lado, mas eu sinto falta do descompromisso, da relevância e do “não esquenta, não” do brasileiro. Tenho a impressão de que, aqui, eu tenho que estar sempre me justificando, pedindo desculpas, reparando meus erros, quando eu nem sabia que tinha errado. Vivo pisando em ovos. E, aí, quando acontece o contrário, eu tenho que “laisser tomber”. O “deixa assim”, dos franceses, parece que só vem em uma direção: a minha.

Logo que conheci petit-ami, no Brasil, ele tinha a frequente mania de me perguntar “eu tenho direito de fazer isso?” sempre que ele tinha alguma dúvida de como agir. Quando cheguei aqui é que percebi que essa era uma tradução literal do francês e perdi a conta do número de vezes que as pessoas me disseram “tu n’as pas le droit de faire ça”.

Eu não tenho o direito de fazer coisas simples, como beber alguma coisa sem brindar antes, de não dizer “bon appetit!” antes de comer, de olhar alguma coisa em uma loja sem a menor intenção de comprar, de atravessar uma rua sem agradecer o motorista que parou na faixa branca, de estar de bicicleta na calçada, etc, etc, etc. Enfim, coisas simples da vida, mas que torram a paciência de qualquer um quando a gente é impedido de relaxar um segundo e estar à vontade na grama pra tomar sol porque um tiozionho se incomoda com a nossa posição “indecente” e explica que a gente só pode sentar “daquele jeito” se está fazendo ioga. DAONDE isso?

Ohmmmmm! (uau, como saí GATCHENHA nessa foto!)

Ohmmmmm! (uau, como saí GATCHENHA nessa foto!)

O grande problema é que o “não se faz” se estende a todas as situações da vida e a gente entra nessa neura do “pode ou não pode?” que eles mesmos se colocam. Pode tomar um tipo de vinho quando o cardápio sugere um outro? Pode ir embora da festa sem se despedir das 87 pessoas presentes? Pode fazer a receita de um prato sem um ingrediente? Pode encontrar um amigo sem ter que estabelecer um rendez-vous com antecedência? Pode deixar de ir a uma festa para a qual fomos convidados quando a gente está podre de doente? Pode perguntar para o empregador quando ele pretende te pagar depois de um mês e meio de calote? Pra tudo isso, a resposta não permite nenhuma variação: não pode.

Mas eu posso, sim. E, muitas vezes, prefiro passar por mal-educada do que cair na frustração e no desgosto. Tudo tem limites e se eu ficar me preocupando com cada frescura imposta, minha vitamina C Vichy para a área dos olhos não vai mais fazer efeito, amigos phinos! Como eu sempre explico para petit-ami, caguei para as regras tradições existem para serem quebradas. It’s evolution, baby.

De um amigo francês que se cansou das justificativas e dos malabarismos para estar dentro do consenso, tive uma lição a qual levarei para toda a vida. Convidado para um almoço de Páscoa ir-re-cu-sá-vel, como todos os eventos franceses, ele já sabia que seria recriminado pela falta, mas tinha trabalho em excesso e não poderia comparecer. Ao invés de responder o e-mail com um milhão de pedidos de desculpas e frescuretes, disse, simplesmente, que não poderia ir. E finalizou, em inglês: “Don’t hate me because I’m beautiful”. Ficou para a história dos escândalos sociais grenobloises. E para sempre no meu coração.

*Dany Darko não é anarquista, nem niilista, foi educada em colégios católicos, mas veio a ser gauche na vida. Tem a certeza de que, de tanto criticar os franceses, qualquer dia vai ser deportada. Mas não pode voltar para o Brasil de tanto que já xingou os compatriotas. Dá nos dedos aqui, às quartas, e chuta o balde aqui, nos outros dias.

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7 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, decisão com PH

7 Respostas para “A má educação

  1. Dany, vc ficou linda mesmo fazendo yoga, parabéns!!

    Quanto aos franceses, não dá bola não. Tu é muito mais que qq regrinha metida à besta. Não vá a eventos, te preserva.

    Bjs

  2. regras são um saco! e as pessoas phinas (pelo menos essa lição eu acho que aprendi aqui) tem direito a ter suas próprias vontades e não ser maria-vai-com-as-outras!

  3. Thielli

    Dany, adorei o texto. Vou, inclusive, mostrar para o meu marido, que viajou a Portugal nessas férias e voltou encantado! Quer porque quer morar lá por uns tempos, com o irmão. Acontece que viver em outro país é bom por um tempo, pois as regras são muito diferentes das dos brasileiros (que não têm regras, por sinal). Portugueses, que eu conheci mais intimamente, são cheios de frescuras, demais para mim! Ele viajam 300km de Lisboa até uma cidadezinha na fronteira com a Espanha e PRECISAM parar no meio do caminho, mesmo que não estejam com fome ou “se mijando”. Simplesmente porque é assim que sempre fizeram! Isso me irrita! Mas que é bom viajar para a Europa e sentir um pouco da civilidade (só um pouco), isso é! Beijão!

  4. Monica

    Como assim não pode sentar “daquele jeito”? Que é isso? Ele é o policial das boas maneiras e da moral?

    Thielli, com conhecimento de causa, afirmo que tu tens razão: portugueses também são cheios de frescuras. Só para citar uma coisa sutil: existe uma ENORME diferença entre mandar um “beijinho” ou um “beijo” para alguém. Mas cada um, cada um. Eu cansei…

  5. regras socias são para facilitar a vida, pelo menos eu acho. São como sugestões …Se são levadas a sério como “regras” tudo fica muito previsível e mecânico. Somos pessoas e não robôs… E fala pro tiozinho, que indecente é a mente dele. Eu sento com perninha cruzada aonde eu quiser e sem nunca ter feito yoga…

  6. Apresenta para nós o amigo francês que se cansou das justificativas. Ele poderia, inclusive, escrever um post como uma contribuição phina no final de semana sobre essa transição da vida dele.
    Em inglês, por favor, que não somos todos assim tão phinos para ler em francês.

  7. bruzundanga

    Ainda não entendi os códigos parisienses. Na minha lógica porto-alegrense, marcar rendez-vous até faz sentido. Só que repetir 30 vezes pardon para o povo tirar bolsa-sapato-jornal do banco do metrô (ô povo espaçoso) me irrita diariamente. Parece que não fecha com as demais regras sociais. Idem para as motos circulando na calçada. É tão contraditório com o excesso de s’il vous plaît.

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