Cantinho do amor (próprio)

Gustave Courbet me entende (The Sleepers, 1866)

Gustave Courbet me entende (The Sleepers, 1866)

Por Rafa*
(Loser Boy)

Essa história de eu querer o meu bem acima de qualquer coisa começou num belo dia em que escolhia frutas no supermercado. Estava eu num momento “compro-num-compro” umas ameixas muito caras e lindas, importadas sei lá de onde, mas que estavam pra lá de suculentas e me faziam babar. Eram tempos de vacas magras, por isso titubeava em levá-las pra casa. Minha madrasta virou pra mim, fatal, e disse: “Leva. Vai te fazer um bem”.

Concordei na hora. Foi naquele momento mágico, mirando as lindas ameixinhas roxas, reluzentes, que decidi nunca mais economizar em coisas saudáveis. (O que seriam duas ou três cervejas a menos no fim de semana comparadas àquelas preciosidades?)

Hoje, pago uma quantia considerável pela minha terapia, a academia que frequento é uma das mais caras, gasto muito quando vou a bons restaurantes e a conta do cabelereiro sempre ultrapassa os cem reau.

Em contrapartida, não tenho carro, pago aluguel e meu celular segue sendo dos mais pobrinhos. Paciência, não se pode ter tudo na vida. Mas o maior investimento –tirando, claro, minhas viagens para a Europa- foi na minha cama.

Escolhê-la e pagar muito por ela não foram tarefas das mais difíceis, confesso. Antes de nosso primeiro encontro, haviam se passado quase seis meses de noites mal dormidas em um colchenete num quarto que só cabia o fatídico colchonete. Maltrapilho e maltratado, só me restava escolher a melhor.

Até pesquisei durante aquela tarde de maio, e lá se vão dois anos de relacionamento estável. Mas foi amor à primeira vista. E não me arrependo de ter gastado cada centavo na minha queen size.

Daí que me veio outro “insight” na última sexta, quando conheci um moço bem interessante, mais velho que eu, mas cheio de estilo, personalidade e -por que não?- lindo. Bom, a lição que fica é: a necessidade de acúmulo de phinesse deve ser inversamente proporcional à perda de beleza com o passar dos anos.

Ou seja, se começam a aparecer as primeiras rugas, você tem que compensar oferecendo aos seus convivas bons vinhos, por exemplo. As peitiolas não são mais as mesmas, gatinha? Boa maquiagem, roupas lindas, papo interessante. Uma barriguinha de cerveja? NOT. Academia no lombo mocinho e muito charme para disfarçá-la, mas não esqueça que daqui um pouco o verão tá aí.

Por ora, o que tenho de mais precioso para oferecer é a minha cama. O que não é pouco. Posso garantir: todos que por ali passaram voltaram –ou quiseram voltar, mas não foram mais convidados. O único que veio até a minha casa e não quis mais saber de mim foi um que não teve o prazer de conhecer a bichinha, pois o ato foi consumado na sala, sobre colchonetes velhos e feios. (Nada a ver com fantasia sexual, tudo a ver com amigos sortudos e phinos que ocupavam o meu quarto.)

Nossa relação é uma loucura de tão boa. Não preciso ligar pra saber se ela estará disponível. Sempre está. Não reclama de terceiros e movimentos mais bruscos sobre ela. Não faz escândalo se derrubo vinho na sua roupa. Não pede. E se oferece mansa, sem apelação, principalmente às terças e aos sábados, quando ela é cuidadosamente arrumada e tem suas belas roupinhas trocadas.

Ai, que preguiça!

Ai, que preguiça!

Aos domingos, não abro mão de algo que os franceses também fazem questão: “faire la grasse matinée”. É aquela famosa preguiça dominical que acomete à maioria das pessoas. Aquela coisa de acordar e seguir na cama, levantar, tomar café e voltar pro berço, como se não existisse amanhã. Com Madeleine Peyroux na vitrola, então, a coisa fica muito melhor. Fica a dica.

Deve haver outras camas melhores. A king é maior, bem sei. No momento, não estou interessado, obrigado. A minha tá de bom tamanho. Não vou traí-la tão cedo. Só lamento profundamente não poder apresentá-la para algumas pessoas. Uma pena, elas não sabem o que estão perdendo.

*Rafa não é garoto-propaganda da Ortobom, e este não é um post pago. Não economizou em coisas boas e saudáveis no final de semana. Conheceu outra cama e foi muito feliz, mas ainda prefere a sua, da qual sai uma vez a cada sete dias só para escrever sua coluna. O resultado você confere aqui, sempre às segundas.

27 Comentários

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27 Respostas para “Cantinho do amor (próprio)

  1. minha cama não é queen size, muito menos de casal, mas é cama mais confortável do mundo.
    e nem adianta conhecer outras, a minha sempre é a mais pedida.

  2. vini

    eu não ligo mto pra cama.

    eu já tive, em casa de mãe, o mesmo colchão desde os nove. agora que troquei por um de mola de 1,88x 0,88, pq faço questão de cama de solteiro sempre.

    em viçosa adorava a minha cama. não era de mola, era de espuma, mas bem grandinha por ser de solteiro. dela sinto falta.

    odeio dividir com quem quer que seja, mas quem tem a sorte de passar por ela gosta tb.

    e eu já conheci a sua cama tb! hahahaha. realmente, ela é mara. sim, pq eu já cheguei e fui deitando. LOL. mas o que mais me fascinou no seu quarto foram os cds de kaiser chiefs e the ting tings.

  3. Já diria o Movimento Viridiano que devemos investir (não importa o custo) em coisas que têm maior presença no nosso dia a dia, como um bom colchão (meu último eu comprei por telefone, um horror! nunca façam isso), sapatos confortáveis e uma boa cadeira de trabalho. Quanto a todo resto, “menos é mais”.

    Agora, quanto às ameixas importadas, vou dar uma de ecochata… elas viajaram muito para chegarem aí, o que não é nada bom para o meio ambiente. O melhor é procurar frutas da estação, locais e orgânicas🙂

    • Movimento Viridiano? Vou me informar mais, parece coisa boa… Sobre as ameixas, Monica, tu tem razão. Problema é que sou totalmente a favor da beleza, e aquele dia as mocinhas me conquistaram. E olha que tavam bem boas. Mas estarei mais atento, prometo. Bjs

  4. vivi

    tu foi pego no flagra, rafa: ting ting é muito jovem. hehehehe.

  5. ai, minha cama! Oo ontem despedi-me dela, que é pequeninha, mas é ótima e minha, e agora vou vê-la apenas em findis, feriados e dias santos.
    e dai rafa pergunta: onde tu vai dormir gatinha? por ora num colchãozinho bem agradável, futuramente espero que numa cama – de solteiro, pq eu gosto delas, dá pra dividir com alguém na boa e também, pq é a que vai entrar no ap.

  6. vini

    opa, opa!
    dá pra dividir sim. (em prol das camas de solteiro.)
    se é pro pior acontecer – dormir junto – que seja bem juntinho!
    e ting tings não tem idade, vai.
    eu tenho 24! não sou jovem, nem tão velho…

    e toda rainha tem seu rei.

  7. Colega maluca 1

    Se a cama do rafa falasse…

    • …falaria de algumas lágrimas, alguns amores e também sobre noites mal dormidas. De gente especial e outras nem tanto… Mas falaria bem de mim, com certeza! : )

  8. Jouviã

    faço parte dos que preferem camas de solteiro, mas no meu caso é pelo fato de ter uma cama de casal e ainda morar com os pais, ou seja, ela nunca vai poder realizar seu objetivo primordial de abrigar um casal. dai, ela desenvolve outras funções principalmente a de guarda-roupa, sim que tudo acaba virando uma bagunça, mas já me acostumei com isso…
    camas de solteiro só abrigariam bem duas pessoas se fosse possível destacar um dos braços.

    ameixas sempre me tentam…

    • Ih Jouviã, bora sair de casa e aproveitar melhor essa cama de casal!

      • Jouviã

        o pior de tudo é que já tive o gosto da liberdade e tive que voltar pro ninho, mas assim que ajustar algumas pendências por aqui volto a morar sozinho, mas dai ficarei na dúvida: de casal ou de solteiro? rs.

  9. Eu tenho um quarto novo. A cama é linda, tem 1m10 de largura (não abro mão de cama de solteiro), mas não me apeguei a ela.
    Gosto mesmo é do meu closet.
    Ele é tão bonito que hoje abri e fiquei olhando para dentro. Aquela divisão linda, as estantes cheias de lugar para mais roupas, o sapateiro divino (e lotado) e aquele espaço interno onde, calculei, cabem quatro adultos. Três, se quiserem se movimentar um pouco. Dois se quiserem se movimentar bem.

  10. amo minha cama também e, só troco ela, por algumas noites na cama da pessoa amada…
    😉

  11. Sou reincidente nessa cama, a sortuda da noite do colchonete, e atesto: maravilhosa, edredon grifado, tudo.

  12. Pingback: Réquiem a três objetos amados « Em busca do phino

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