Onde a infelicidade é permitida

I'm glamourous, never drunk!

I'm glamourous, never drunk!

Por Rafa*
(Loser Boy)

Nunca fiz a linha “ai-como-minha-vida-é-boa”. Ao mesmo tempo, detesto gente que vive reclamando e que se orgulha de seu cansaço. (Sai de perto, coisa ruim!) Fato: nada nunca caiu do céu pra mim – e não me queixo. Não sou lindo, não sou gênio, não tenho sexy appeal, minha voz não serve para rock star. Pior: meus amigos debocham de mim e dão risada quando me arrisco no violão. Ou seja, sou gente que faz.

Levantei e fui (relembre aqui).

Digo isso porque a vida não é bela. Ela consiste em acordar e deixar a cama pra mais tarde. Faz parte pegar ônibus lotado, trabalhar e, muitas vezes, não gostar. Comer e sorrir, como se não houvesse amanhã. Vivemos esperando momentinhos de felicidade. Talvez por isso valha a pena estar aqui.

Mas à noite, na rua…

Então guardamos para as festas a nossa melhor roupa, o perfume importado e – mais uma vez – aquele sorriso. Na balada, somos todos limpos e nos esforçamos para chegar bem perto do perfeito. E, ai que repetitivo que sou, quanta preguiça.

Houve um tempo em que eu acreditava que era na noite que eu encontraria a felicidade ou aquilo que eu acreditava ser o amor. Me enganei feio. E desculpaê amigo jovem, isso não existe. Tudo mentira.

Já voltei chorando pela Osvaldo pra casa, nos tempos de Porto Alegre. Já perdi lente de contato no meio da pista e pequei muito no cantinho. Então eu pergunto: é isso que nos prometeram? Foi pra isso que tu usou aquela roupa nova?

Ilusões superadas, hoje saio pra esquecer. Por isso, vou quase sempre aos mesmos lugares, como na virada alternativa que bolamos no sábado. Um exagero: começamos pelo rock indie, demos uma passadinha rápida pela década de 70 e, para terminar, fechamos a noite num buraquinho que tocava Brasil suado. Alguma produção, porque faz parte. Algum charme. E vambora. Em todos os lugares, em comum a cerveja barata e a música boa na pixta.

É para esses lugares que parto e encontro as pessoas erradas. Que me pego nos cantos fazendo coisas que lembram os velhos tempos. Que encontro seres humanos mal tratados e os levo para o conforto do meu lar, onde espalho um pouco de amor.

Foi pra um desses –o preferido das quintas – que parti na semana passada com um único objetivo: esquecer um pouco mais, mesmo que vez ou outra eu me pegasse lembrando de tudo que não devo. Em um dado momento, o clímax da festa. Alguém está trancado no banheiro, avisam. Pista toda se volta para a portinha onde atrás alguém supostamente deveria estar fazendo suas necessidades.

Logo, eu e minha amiga começamos a confabular até o chão: será que morreu? Se drogou até o último fio de cabelo? Então passamos a acompanhar o arrombamento daquela porta. Queríamos nada menos do que uma Kate Moss, louquérrima e acabada com a calcinha arriada no chão podre.

NOT. Eis que sai uma moça rindo. Zero glamour. Mal vestida. Sem graça alguma. Nenhum sinal do ilícito naquele corpo. Se o povo que frequentasse ali fosse a GERAU, certo que a guria ganharia uma bela vaia. Mas não era.

Porque a noite é assim mesmo, como o dia. Ok, você vai me questionar: “mas Rafa, tem aquela casa/boate que quando os caras compram não sei quantas champanhes grifadas toca a música do Super Homem?” Tem gatinha, até já fui lá, a trabalho, claro, e não passa de uma bela ilusão. Fica na tua mão entrar na onda ou não. Nada contra.

Eu prefiro os meus inferninhos. Sem glamour e com afetação na medida. São lugares dos quais saio às 7h com o sol a pino na minha cara: raios de luz que não me causam espanto algum mais. Cansei de choque de realidade –estou nela há muito tempo.

*Rafa tem se surpreendido pouco (ou quase nada) com a humanidade nos últimos tempos. Usa 100% de sua capacidade cerebral e às vezes até passa por “uma pessoa muito inteligente, quase um gênio”. Engana bem também aqui, às segundas.

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9 Comentários

Arquivado em festas phinas, Rafa

9 Respostas para “Onde a infelicidade é permitida

  1. indicação: aprecie sem moderação, apesar do excesso de realidade (choque!)

    ótimo texto amigo phino!

  2. “Es muy inteligente”, e isto é fato. Levante e vá, sempre!!! E cá entre nós: não te faz de gostoso que tu és bem gato sim 🙂

  3. Frustrações e decepções fazem parte da vida, não é, phino?

    Encará-las com maturidade é o que nos faz ser extra-classe. =) =*

  4. Luciana

    I’m just a little person,
    One person in a sea
    Of many little people
    Who are not aware of me.
    I do my little job
    And live my little life,
    Eat my little meals,
    Miss my little lid and wife

    And somewhere, maybe someday,
    Maybe somewhere far away,
    I’ll find a second little person
    who will look at me and say,

    “I know you
    You’re the one I’ve waited for.
    Let’s have some fun.”

  5. Di

    devemos aproveitar a vida do nosso jeito, como gostamos, sem se preocupar com o que os outros vão achar disso… Pois além de inacreditável, a vida é phina!

    Ótimo post!

    Abração e boa semana Rafa

  6. Colega maluca 1

    Adorei essa virada alternativa.. bem feito para a “tratante”. E sim, é bom ser simplório. Eu tenho sorrido por algo bem simples, com orgulho!

  7. Bonito texto. Tristeza phina.
    Mas agora chega!
    Estamos muito deprezinhos.

  8. phinesse não se compra. se faz por merecer e com certeza não é o local, muito menos a produção é quem vai comandar esse merecimento.

    ficadica!
    hehehe
    abração Rafa

  9. eu também não gosto de sair pra fazer pose. detesto lugar aonde as pessoas vão para ver e serem vistas. onde todo mundo olha pra todo mundo com ar superior. eu saio pela diversão. os frequentadores podem não ser os mais bonitos nem os mais produzidos, mas pelo menos são simpáticos …

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