Coco ou cocô?

Tpm todo mundo tem: eu quero é glamour!

Tpm todo mundo tem: eu quero é glamour!

Confesso que tenho medo de filmes baseados em biografias de ricos & famosos devido aos excessos deste tipo de narrativa. Todo mundo fica lindo na história da sua vida quando é enquadrado pela sétima arte. Nunca falta luz, nem brilho, nem ação: é a vida que qualquer um gostaria de ter. E assim, dispenso vários: de Ray a Che; de Chaplin a Elvis; de Johnny a June. Porque dói no meu saco imaginário.

Em 2007, abri uma exceção para Piaf – Um Hino ao Amor, embora boa parte dos franceses estivesse na mesma relutância que eu. Também temia pelos exageros e pelos possíveis hollywoodismos do longa francês. Não sei se a história da cantora levada para as telas era toda verdade, mas tive uma boa surpresa. Saí do cinema acreditando que o filme cumpriu o objetivo ao qual se propôs: Marion Cotillard queria, mereceu e ganhou Oscar. Mas, ah, a gente já sabia, não é mesmo?

E foi nesse mesmo clima que petit-ami e eu esperamos um domingo à noite depois da quarta-feira de estréia (aqui os filmes estréiam na quarta) para não nos espremermos em filas enormes e salas cheias e podermos assistir tranquilos à Coco avant Chanel (ainda sem título em português e data de estréia no Brasil prevista para 30 de outubro).

O que mais me atraía no longa da diretora Anne Fontaine era exatamente a possibilidade de me deparar com uma biografia diferente, visto que o longa se foca na história da estilista antes da fama. Um ponto a mais era a aclamada interpretação de Audrey Tautou, aliada à curiosidade em relação a uma das grandes personalidades da moda – COISDI mulherzinha, como eu, vocês e todos nós que frequentamos esse wikiphino e sabemos o que é essencial para a vida de toda a PESSONHA. Amamos glamour.

O grande problema é que a vida de Gabrielle Chanel, antes de virar Coco, era tão ordinária que dá sono. Tirando o fato de que ela era mulher-travesti (L’Andreis, Em Busca do Phino, 2009) desde o começo, nada mais surpreende nesse filme cheio de obviedades e caricaturas, bem do jeitinho que Hollywood gosta.

Além disso – a maior contradição desse filme – é retratarem a vida da estilista, conhecida como um phino ícone do vanguardismo, paralelamente à vida de seus dois amantes, já que ela nunca casou. E aí, ao invés de vermos a Chanel travecona pisando nos calos dos machismos do começo do século e entrando de sola em quem engarrafasse seu caminho, temos que engolir um retrato de uma mulher reprimida e dependente.

E daí a gente fica naquela expectativa “falta muito, Papai Smurf?” durante quase duas horas. Porque, se o David Lynch não estiver na direção, a gente sabe que um filme deve ser composto de fatos compreensíveis e/ou relevantes que, no caso de Chanel, eram baseados em acontecimentos reais. E então que quando chega a parte mais interessante do longa, ele está a cinco minutos do final.

Já sobre a tão esperada interpretação de Audrey Tautou, era de se esperar mais. Até porque a atriz não precisou utilizar muitos movimentos faciais visto que a Chanel de Anne Fontaine só tem uma cara: a de chata.

Tudo isso sem falar nas repetições da biografia da Piaf: de novo, a historinha da órfã de mãe; de novo, a difícil vida da cantora de cabaré; de novo, o sofrimento da perda do grande amor da vida. Ai, ai, ai, isso mais me parece é novela mexicana. Aliás, se continuar assim, Beauvoir, Bardot e Deneuve já têm um roteiro prontinho esperando. Mas, por favor, dessa vez chamem Thalia para o papel principal. Também adoramos EMOÇÃ.

* Dany Darko canta e bate palma quando vê os desenhos Miyazaki, mas leva sua maletinha terrorista pra explodir o cinema caso se contrarie. Aqui quase sempre às quartas.

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5 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, moda versus phinesse, vergonha alheia

5 Respostas para “Coco ou cocô?

  1. Boa Dany! Não verei.

    Ótimo texto.

    Agora recomendo muito “Sinédoque Nova York”, não percam, phinos. Crítica meteu o pau, mas é lindo, lindo, lindo, total viajante, mas faz todo o sentido.

    Charlie Kaufman + Philip Seymour Hoffman: pra quê resistir? Eu é vou ver de novo.

    Beijo Brasil!

  2. Monica

    Hum… também não verei. E estreia aqui só dia 25 de junho (e eu estarei longe!). Adorei o “Tpm todo mundo tem: eu quero é glamour!”.

  3. Rafa, o “Sinédoque Nova York” foi super elogiado no NYT. =)

    Verei assim que puder.

    Dany, triste isso da Coco. Por que não mostraram ela DIVA chineleando a geral? Comunistas…

    • Amigos phinos: não recomento nem dispenso nada. Vejam, sim, Coco quando chegar aí!
      Por aqui, sigo aguardando com ansiedade o novo Kaufman (acho que os filmes americanos chegam a nado aqui; a França é sempre um dos últimos destinos deles).
      Bisous!

  4. Dany, obrigada por me livrar dessa.
    EBDP bem que podia lançar essa categoria de posts: filmes para não assistir. De uma enorme utilidade.
    Agora tenho que confessar: gostei de Che… achei até que o feiosíssimo Benício de Toro ganhou uns pontos de beleza ao encarnar o papel.

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