Bater-boca com cafetão francês não é phino, mas ganhei a briga

Volevo coche avec moa se soa?

Volevo coche avec moa se soa?

Por SextaSessão*

Lendo no blog da Dany sobre um conflito numa calçada francesa (veja aqui), lembrei de uma das discussões mais peculiares que tive. O adversário só falava francês. Eu, inglês. Nos entendemos perfeitamente. E nos odiamos.

Paris, outubro, 2004. Administrativo e eu tínhamos saído do museu Centre Pompidou, caminhando sem destino. Era nossa terceira ida à França. E eu, confesso agora, preferia estar na Chechênia – ou qualquer outro lugar que não conheço – do que mais uma vez naquela cidade. Mas anfan, estava lá, andando por uma ruazinha comum, não fossem as mulheres maquiadíssimas e de baby dolls, paradas em frente a portas estreitas.

Administrativo alertou: vambora que essa é a Volunta** deles. Parei para bater uma última foto (essa aqui abaixo), com a vista de um arco (que não era o do Triunfo), e seguimos adiante.

A foto proibidona

A foto proibidona

Eis que um homem de camisa preta e terno grená cintilante nos alcança e toca no ombro do administrativo. Diz que eu tinha fotografado uma senhora. Aponta pra mim, pra câmera e pra uma gordinha de cabelos pintados de cor gema de ovo, vestindo baby doll rosa, mãozinha na cintura e olhar desafiador.

“Eu não falo francês. Poderia falar inglês, por favor?”, pede em francês o administrativo, na pureza de quem ainda não entendia o que se passava. Enquanto nativos se juntam à nossa volta, o cafetão aumenta o tom, se dirigindo só ao administrativo: “você está no meu país, fale francês”.

Administrativo me olha assustado. Eu interrompo (“deixa comigo”) e falo com o agenciador de bucetas, modo alterada on. “Se tu está reclamando de mim e da minha câmera, fale comigo.” O delinqüente se irrita, ainda olhando somente para quem ele considerava meu proprietário: “ela tirou uma foto daquela mulher. Ela não pode fazer isso no meu país”.

Aciono o modo ódio. “Vim para este país para gastar dinheiro, não para fotografar putas gordas”. Ao que a francesada curiosa que nos cerca aumenta, presumo que torcendo pelo conterrâneo.

Ele esbraveja para o administrativo: “eu quero essa câmera. Você vai me dar essa câmera ou eu vou chamar a polícia”. Administrativo me pede “pelamordedeus, mostra as fotos que ele nos deixa em paz.” Elevo o modo cafundoense à temperatura máxima: “isso mesmo, liga pra polícia, e eu vou contar o que tu está fazendo”, digo e aponto para o celular.

Ele finge discar. Eu repito: “Liga, vai. Nove, um, um. Liga pra eles”. Duvido que o filho da puta (imagino que era um negócio herdado da família) tivesse colhão de chamar a polícia. Mas, just in case, preparo um escândalo para fazer na frente dos policiais, ao mostrar a inocente série de fotografias do arco ridículo (que nem era o do Triunfo, porra!).

Administrativo, olhos saltando da órbita, me puxa pela manga do casaco, “mostra pra ele, mostra duma vez”, clama. Todo namorado de mulher cafundoense sabe como uma briga pode terminar (relembre aqui). Me pergunto do que ele tinha mais medo, que o bandido avançasse em mim ou que eu (modo psicopata on) batesse no sujeito.

Quando eu botei a mão na cintura e comecei a bater o pezinho, arremedando a puta caluniadora, administrativo grunhiu entre dentes: “Pára com isso! Liga essa porra dessa câmera de uma vez! Mostra pra ele.”

Relutei. Não queria ceder àquele a quem o cafetão considerava meu amo e senhor. Mas acabei ligando a câmera.

Então fiz a única coisa de que me arrependo. Disse: Would you like to see my pictures? “Você gostaria?”: que merda é essa que me fizeram decorar nas aulas de inglês? Maculei meu estilo soberano com uma frase polite. Ódio. Devia ter dito “essa puta é uma mentirosa, e eu vou provar”.

Enfim, mostrei: foto da rua com o arco ao fundo; foto do administrativo; foto do administrativo com o arco ao fundo, foto do museu; foto de SextaSessão no museu, foto de uns penduricalhos na frente do museu….

“E aí, cadê a mulher?”, perguntei. Ele manteve impávida a expressão de dono do pedaço, empinou o queixo e saiu andando. “Fucking idiot”, esbravejei.

Administrativo resmungou: “precisava xingar o cara?”. “É bom”, eu disse. “Esse merda tá furioso por ser xingado por uma mulher e agora vai dar uma surra na fofoqueira.”

**Rua Voluntários da Pátria, área do baixíssimo meretrício porto-alegrense.

*SextaSessão detesta briga e só entra em bate-boca quando sabe que pode ganhar. Não quer voltar a Paris jamé, mas aceita convites para discussões em outras capitais. Escreve aqui nas sextas-feiras e, nos outros dias, em seu blog.

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19 Comentários

Arquivado em diálogos com PH, sentimentos phinos, SextaSessão

19 Respostas para “Bater-boca com cafetão francês não é phino, mas ganhei a briga

  1. Típico, típico: eles brigam por muito menos que isso. Mas eu mirrito mesmo é quando eles xingam sem o menor motivo.
    E a puta que se achava Brigitte Bardot, uó! Hahahahaha! Merecia o Cesar da melhor baixaria com o seu momento quase-famosa!

  2. Uma coisa que ocorre frequentemente na França é as pessoas fingirem que não estão vendo uma coisa absurda acontecendo porque elas, na sua phinesse, não interferem na vida dos outros (nem quando for pra salvar um pobre dono de um quiosque de crepe de ser roubado por uma gurizadinha medonha). Explico: estava eu sentadinha num banco em Aix, esperando o namorado sair do trabalho, quando passa um grupo de pré-adolescentes em frente a um quiosque de crepe e, vendo que o proprietário não estava ali no momento, pegaram os potes de nutella. E foram embora, normalmente. Eu fiquei olhando e pensando: alguém no meio dessa francesada vai lá dar uns pitecos nos piás. E nada, todo mundo fez que não viu. Eu não aguentei e fui atrás deles, perdi toda a phinesse, comecei a xingá-los, arranquei os potes de nutella da mão deles e virei as costas. Eles ficaram olhando, meio que não entendendo quem era aquela maluca falando com um sotaque sei-lá-de-onde e que ainda teve a petulância de xingá-los. Vendo a situação, um francês finalmente resolveu intervir e, pasmem, levou um cuspe na cara de um dos moleques, que sairam correndo. E pasmem mais ainda: quando contei o que se passou pro dono do quiosque, ele nem se importou. Perdi a phinesse por nada.

  3. Colega maluca 1

    Um dos melhores textos de SS em semanas, amei! Se pensar em desaparecer, me suicido virtualmente, ouviu??

  4. Colega maluca 1

    E adorei que tu conseguiu provocar medo no administrativo, definitivamente um “homem mau”, como sabem os leitores do EPPH

  5. Colega maluca 1

    Eu entendo essa falta de medo de levar uma bofetada de um estranho quando somos provocadas.. Parece que apertaram o botão “bitch” e não desliga mais.. E, em geral, essas pessoas merecem mesmo

    • Não é incrível? A gente não sente nenhum medo quanto tem razão. O que senti foi – muita – vontade de bater nele.
      OBS: ah se fosse meu aquele bastão de beisebol que tu ganhaste hoje.

  6. Não consigo entender como as pessoas ainda preferem o administrativo. Eu não troco SS por nada nessa vida!!!!

    Bjs

  7. ana

    Pois acho que o Administrativo, phino tal qual sua mãe, não estava com vontade de bater o brim do cafetão francês, mas o rumo que as coisas tomavam…
    Entendo a preocupação dele.
    Por outro lado, quando a SS tem razão, sobe nas tamancas e ninguém segura!

    • Falando em tamancas, lembro de uma vez, lá na Vasco da Gama, em que bati muito com um tamanco no braço de um cara (desarmado, viu, mãe) que tentou roubar a minha bolsa.
      Bati tanto que o tamanquinho (um que tu comprou pra mim lá no Bom-Preço de Canfundó, viu, mãe) rebentou.

  8. S E N S A C I O N A L !

  9. kkkkk…barraco com biquinho…alguém filmou a cena ? Ficaria perfeita em uma dessas comédias francesas bizarras …

  10. O outro lado

    Eu só queria ouvir a versão do administrativo. Porque todo jornalista sabe: tem pelo menos dois lados e a verdade. 😀

    • Por que nos restringirmos a apenas a versão do administrativos? Vamos logo perguntar o lado do cafetão e da puta.
      Parece que o Rafa vai a Berlin e passa uns dias em Paris, não, Rafa?

  11. Does he ever lose his temper?
    E a puta gorda dizia alguma coisa?!

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