Loser?

Tem como não amar?

Tem como não amar?


Por Rafa*
(Loser Boy)

Eu tinha 12 anos, estava na sétima série e fazia aula de teatro na escola. Parece comum, parece normal, mas não é. Não esqueçam que morava em Cafundó, onde uma das obrigações dos guris era ser muito macho e falar sobre cavalos.

Voltei no tempo e me lembrei daquela época na semana passada porque um moço me confessou que, aos 30, está, assim como eu na adolescência, tendo classes semanais de atuação. Diz que não quer ser ator, que é pura diversão. “Mas não espalha”, me pediu. Entendi perfeitamente a solicitação. Então, só vou contar pra vocês, phinos amados. Gente, pelamor, bico calado.

Retornemos ao ano de 1992, em Cafundó. Eu estudava no Colégio Divino Coração. (Pode haver nome de escola mais gay que esse?) As aulas de teatro eram apenas para a quinta e sexta séries, mas eu, como era muito metido, resolvi que queria e dei um jeito de participar. Como havia poucos garotos no grupo, me aceitaram. Após meses de exercícios, começaram os ensaios para a peça de final de ano.

Não sei o que passava pela minha cabeça. Nunca quis ser ator. Acho que entrei na onda teatral porque, na real, eu fazia tudo que ofereciam na cidade. Catequese, reunião dançante, missa, violão, vôlei, desfile de Sete de Setembro: não perdia nada. Rafa, não esqueçam, é gente que faz.

A peça chamava-se “Rurruca, o Ratinho que Queria Ter Asas”. O papel principal, adivinhem, coube a quem? A mim, claro, devido a minhas boas performances e empenho ao longo do ano. O enredo é mais ou menos o seguinte. Um ratinho queria muito ter asas (liberdade?) – mas MUITO mesmo – e sai em busca delas na floresta.

Pede ajuda para todos os animais que encontra pelo caminho. Porém só consegue atingir seu objetivo após fazer um pedido ao poço dos desejos. Volta pra casa após a conquista e é rejeitado pela mãe. “Você não é meu filho”, diz a progenitora do ratinho.

Daí tu me diz, gatinha: “Ai Rafa, que amor. E que história mais triste…” Não, fofinha, prefiro classificar como o “quadro da dor”. Imagine moi (leia-se “mu-a”), um adolescente desengonçado, alto, magro e com os membros inferiores e superiores desproporcionais, vestindo uma malha cinza coladésima ao corpo, no palco me expondo ao ridículo para a alta sociedade cafundoense. Uma espécie de OUTING precoce e súplica por um linchamento público, se é que vocês me entendem. Se não bastasse, ainda entoava dezenas de vezes a seguinte pérola durante a apresentação, a frase bordão do meu personagem: “Mamãe, eu quero ter asas, quero, quero, quero”. Socorro!

Pensar naquela época me remete a Pequena Miss Sunshine, ao qual assisti novamente neste final de semana. O filme é um primor, e, confesso, me acabo chorando toda vez que o revejo. Olive, a garotinha, é de uma ternura absurda. Mesmo pequena, vai à luta atrás de seus objetivos. Não é a mais bela, não é a mais inteligente, nem se veste bem, mas tem carisma e, o mais importante, força de vontade. Sabe o que quer da vida. De quebra, conta com uma família que dá, digamos, suporte artístico e emocional de peso.

Eles venceram!

Eles venceram!

No final da epopéia, a pequena tem a chance de desistir do concurso de miss, com o apoio incondicional dos parentes, que prevêem o FRACASSO da pobrezinha. Nada disso. Ela decide que vai –afinal, foram tantos meses de ensaio. E, vocês bem sabem, arrasa, apresentando, ao som de Super Freak, os passos que aprendeu com o avô.

“She’s a very kinky girl / The kind you don’t take home to mother / She will never let your spirits down / Once you get her off the street, ow girl”

Tá lembrada?

Na vida real, a minha, foi diferente. Faltando apenas duas semanas para a apresentação na escola, desisti de subir no palco. Traí professor e atores. Foram obrigados a improvisar. Da platéia, vi a atuação horrenda da menina que me substituiu e dos demais colegas. Ficou clara também a completa falta de senso estético de todos. Senti PAVOR. Não que eu ache que faria melhor. Mas já naquela época eu tomava consciência da importância de saber:

1) tomar sábias decisões;

2) onde é o meu lugar.

Winner or loser? Decidam vocês.

*Rafa é meio Olive, a garotinha de Pequena Miss Sunshine. Chora baixinho no cinema e escreve aqui às segundas.

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18 Comentários

Arquivado em decisão com PH, passado phino, Rafa, vergonha própria

18 Respostas para “Loser?

  1. vini

    eu acho que no fundo tem tudo a ver com questão de afirmação. às vezes a gente quer se afirmar pros outros (e não adianta, todo mundo tem esses momentos). em outros, basta a gente afirmar pra gente mesmo e tudo se resolve.
    =)

  2. Relembro e questiono: veio de Rurruca a inspiração para gravarmos “Quem quer casar com a dona baratinha?” para a disciplina de rádio, durante a faculdade?

    Quebra de protocolos é o que há de melhor nessa vida.

    • hahahahahhaha, não pira Dany. Nunca gravamos “Quem quer casar com dona baratinha?”. Foi “Tarzan e Jane ou quando o amor acaba”, um primor da rádiodramaturgia gaúcha, com direito a prêmio no Set Universitário.

      – Mim Jane, você Tarzan?

      Te acuerdas?

  3. É vero! Desistimos da dona baratinha pelo Tarzan! Como pude si confundirme…! Aliás, tu tem isso digitalizado?

    “Não, Tarzan. Eu, Jane. Você, Tarzan.”

    Ai, ai, saudades dos tempos áureos. Como éramos jovens!

  4. Di

    Rafa,

    Ao ler seu post de hoje, além de muitas risadas gostosas, lembrei dos tempos de sétima série e, vejo que também fazia teatro nesta época e também estudava no Cafundó em uma escola com um nome bem gay também (Colégio Primavera).

    hahahahahahahahahahaha

    Sobre o filme – Pequena Miss Sunshine – é lindo, emocionante e com uma mensagem sensacional!

    Boa semana!

    Abraços

  5. morro um pouco a cada post teu, meu amor.

  6. Também participei de uma peça na escola. Entrava perto do final, falava uma frase e saía. Nada traumatizante.
    Pior é que todos os anos tinha audição de piano (mêda) e espetáculo da escola de ballet (menos vergonha, pq era um bando de meninas dançando mal juntas).
    Foi bom, deu um belo treinamento para os vexames de porvir.

  7. Maeli

    Winner ou loser nao sei…
    Mas a historia rendeu um dos melhores textos teus que eu ja li :)))

  8. vivi

    eu participei de uma em que eu era O Homem Tempo e outra eu era um poste. isso não é uma brincadeira.

  9. vivi

    detalhe: não é o Homem DO Tempo. eu era o Tempo itself. entrava enrolada num lençol cheio de estrelas e luas coladas.

    o ó.

  10. Colega maluca 1

    todos somos losers, né?

  11. No jardim (sem trocadilhos), fiz o papel de “flor” em Chapeuzinho Vermelho.

    Sem mais,

    c.

  12. O outro lado

    Eu fui Rei Mago no jardim. E cantava em alemão. Dá pra dizer que isso foi relativamente win.

    No segundo grau houve uma adaptação de uma crônica do LFV. Não tão win.

  13. Ok. Estive no palco do São Pedro. O teatro. 😛

  14. Também vou confessar…duas vezes entrei em grupos de teatro. Na primeira cheguei tarde, o elenco estava fechado [eu tinha 9 anos], deram um jeito de encontrar um papel prá mim. Não riam pelamor: chama-se a peça A lenda da cobra grande algo do folclore brasileiro. Adivinha…eu era o toco de árvore onde a cobra grande se enroscava… [pedi prá não rirem] e tinha somente uma fala: “nada posso fazer”.
    Detalhes: a cobra grande [uma menina gordérrima de uns 9 ou 10 anos] questionava a vida enquanto se enroscava no tronco [euzinha…que respondia alto em em bom tom “nada posso fazer” enquanto procurava minha mãe na platéia].

  15. Eterna entusiasta do teatro infanto-juvenil, que nos dão ótimas histórias no futuro.

    Mas eu não desistia de subir no palco. Terei me tornado menos phina?

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