Quem sabe um dia

Por O Outro Lado*
(Em Busca do Feno)

Depois de cortar o cabelo, um corte bom, por sinal, do tipo que há muito não conhecia, dirigia com muita calma pela Luís Góes. Olhava em direção ao lado esquerdo da rua quando sinto um impacto e o barulho característico das colisões. Um Gol preto havia aberto a porta sem olhar, e meu espelho retrovisor direito jazia na rua.

Estava perfeitamente calmo. Esta é uma das poucas vantagens de se ter um carro velho: você não está nem aí para ele, contanto que ande. A calma desapareceu quando percebi o responsável pela barbaridade. O carro estava estacionado na frente de uma cadimia, e vinha na minha direção um alterofilista bombadaço e tatuado. Seus manos desciam para ver o que tinha acontecido.

Eu juro que já não estava brabo e não ligava para o prejuízo, mas no momento em que percebi o risco que minha integridade física corria, pensei seriamente em entrar no carro e sair em desabalada carreira na velocidade que o Preju (como chamávamos o carro, numa época em que frequentava muito oficinas) permite.

Apertei a mão do marombeiro. Gelada. Foi então que percebi que ele nem cogitava partir para a ignorância. Muito pior foi o que ele disse depois:

– Diz aí, quanto foi teu prejuízo, bem?

Não houve troca de telefones. Me dei por muito satisfeito com os R$ 30 oferecidos. O espelho novo custaria R$ 10, mas isso eu ainda não sabia.

Sentei para beber um chope e pensar na cidade de bosta em que vivemos todos nós. O chope estava bom.

Problema semelhante não tem mais o meu amigo Nix. Carioca, mudou-se para São Paulo, como quase todo carioca que precisa trabalhar com comunicação, mas teve a sensatez de não suportar a cidade desde o primeiro instante. Fez os contatos que precisava e partiu. De volta a Copacabana, todos presumem. Errado. Nix comprou (ou alugou, não sei) uma casa caindo aos pedaços mais ou menos no caminho. Campos do Jordão.

Campos tem uns bairros bem afastados e foi a escolha dele. Bem longe da badalação pseudo-européia. Respira muito bem. Nunca foi muito de comer, mas prefere o pão feito na esquina da sua casa. Não convive com gente. Não sabe o que é cena indie há um bom tempo. Não vai a festas anos 80.

Um dia vou ser phino assim.

*O Outro Lado empurra com a barriga o momento de se ver livre da maioria das pessoas com quem é obrigado a conviver por morar num liquidificador de gente. Escreve aqui às terças, quando tem disposição e internet em casa. Já deixou de ir ao cinema há um bom tempo.

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10 Comentários

Arquivado em decisão com PH, Em Busca do Feno, homem phino, lugares com PH, O Outro Lado

10 Respostas para “Quem sabe um dia

  1. Até que a beeescha bombada foi phina, vai… mas, como diria a socialite do Terça Insana (Terça insana is sooooooooo last week), é muito difícil se rephinar em São Paulo. Mesmo.

    • O outro lado

      Muito feio dizer isso, mas a culpa é do Getúlio e da migração do campo para a cidade. Mais especificamente do sertão para as margens do Tietê e do Pinheiros.

      Boa foto, btw.

  2. vivi

    meu sonho é viver longe de gente.

    o Iggy Pop passou a infância numa van porque não gostava de vizinhos. o pai do Iggy Pop era o cara, sério.

  3. O post revela: há vida phina dentro de corpos bombados. Tá certo que ser beee ajuda a civilizar os esteróides.

    Sobre vida no campo, sou contra. Saí de Canfudó e pra lá não volto. Mas também não cheguei ao descalabro de ir morar em São Paulo.

  4. Di

    Ótimo post, quem diria que atrás de todos os músculos existiria algo phino.

    São Paulo? No máximo alguns dias, não troco minha capital gaúcha por nada no mundo – ou quase nada.

    😉

  5. Agora só ando apé, de bicicleta, lotação e carona; e nem sei mais quanto custa 1 litro de gasolina ou 1 passagem de ônibus.
    Mas voltar prá Cafundó do Sul também não volto não!
    Cineminha no fim de semana? Só se eu tiver segundas intenções!

  6. São Paulo é legal […] pra passear e conhecer um pouco da pluralidade etnica existente e era isso.

    Como diria o pessoal de um blog que costumo acompanhar:
    – moço, levante e vá!

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