Só pra sair na foto

acredita na foto!

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Por O Outro Lado*
(Em Busca do Feno)

Poucas coisas significam tão pouco hoje em dia quanto um casamento. Se você tem um mínimo de bom senso, já fez sexo por pelo menos cinco anos com a pessoa com quem está casando e morou com ela por pelo menos três. É preciso muita tendência ao suicídio pra casar com alguém sem ter certeza de que a pessoa é capaz de um estrogonofe decente, de uma relação sexual minimamente esclarecida e de que seu peido não é fedorento nem barulhento demais. Ou seja, só um louco casa de verdade.

Uma pessoa sã já está “casada” antes de casar. Exatamente por isso, as pessoas precisam fazer com que a data tenha alguma coisa de especial, para forçar este significado que um dia já foi tão óbvio. Os anfitriões arruínam a vida por meses antes da festa para agilizar adequadamente os preparativos. Os convivas, de sua parte, investem na compra ou no aluguel de trajes (muitas vezes “casados” com o traje do próprio noivo, para que ele não precise ter mais um gasto), maquiagem, presentes “de casamento” (carésimos) etc. Fortunas são gastas de parte a parte.

Já fui a pelo menos uns cinco casamentos na vida adulta, talvez mais. Desde casamentos faustosos em clubes exclusivos com bufês desbundantes até excrescências com vinho nacional, cerveja e maionese reunindo moscas no centro da mesa que não valeram nem a gasolina que se gastou pra ir até eles.

Nenhum, no entanto, me marcará mais que o casamento de minha irmã. Era um casamento que seguia a tradição britânica. Bilíngüe, o padre era inglês e falava um português igual ao do rabino Henry Sobel. Fui convidado a ser groomsman, uma espécie de padrinho. Minha mãe gastou uma entrada de apartamento no casório, sem exagero. Toda a cerimônia religiosa foi impecável. Quando chegou a parte realmente boa, que era comer e beber, o estelionato social: as crianças fizeram os doces de pedrinha, atirando-as umas nas outras; o jantar não ia além do medíocre; e, apocalipse imediato, não eram 2h e a fonte de bebida secou.

Pasmo, fui comentar com a responsável por minha existência e pela festa. Sua resposta: “eu mesma que mandei cortar, isso aqui não é orgia, já gastei demais e se alguém quiser mais bebida que vá a algum bordel”.

Por estes e outros motivos, um casamento que foi feito para aparecer só na foto. Minha irmã no dia seguinte não se sentia diferente, segundo ela mesma disse. Já tinha feito “tudo o que tinha pra fazer antes”, diagnosticou a mamãe. Nunca vi tanto desperdício na vida. Até hoje não entendo para que foi tudo aquilo. Nada mudou.

Obrigado, não preciso que me expliquem. Torço apenas para que os próximos tenham mais e melhor uísque.

*O Outro Lado é pela extinção gradual da humanidade através da não-reprodução.

14 Comentários

Arquivado em Em Busca do Feno, festas phinas, O Outro Lado, ralaçã sã?

14 Respostas para “Só pra sair na foto

  1. Também torço. A classe C é que é a feliz, com vinho nacional, cerveja e maionese. E algum significado pra tudo isso. Triste realidade.

  2. e eu nem queria casar mesmo.

  3. O Outro Lado é pela extinção gradual da humanidade através da não-reprodução: apóio muito.

  4. phinesse às parte, casamentos bons são os de emergentes ou os casamentos da roça. o que falta em bom gosto sobra em bebida e comida. e se for mais chegado aos noivos, ainda aproveita o fim da festa, quando todos bem mais à vontade , incluindo aquela tia mais pesada, que já tirou o sapato porque o pé inchou,e o cumpadre que bebeu doses à mais, põe as fofocas da família em dia…Se for festa na fazenda, melhor ainda, algumas duram o fim de semana todo…bjs

  5. É isso aí, Vini!
    Casamento bom é aquele que os convidados saem da festa diferentes de como entraram: com ressaca de tanto champanhe francês e dor nos pés provocado por horas e horas de boa dança.

  6. O casório da minha irmã foi bom.
    O uísque era 12 anos e o champanhe era brut e francês (sobrou tanto que só euzinha ganhei uma caixa inteira de “lembrancinha”).
    A mãe contratou uns fotógrafos que deixaram, milagrosamente, todo mundo mais bonito. Acho que rolou um fotoxópi caprichado ali.
    Fui uma festa boa, que saiu bem na foto.

    Aviso aos amigos: não casarei. Mas quando completarmos 20 anos de namoro (não riam), haverá festa. Phina e para poucos.

  7. Di

    Ótimo post!

    Quando me casar, prometo uma festa phina, farta e com muito bom gosto.

    p.s.: convidarei vocês!
    😉

  8. Ms.Riverside

    Fiz quinze anos e não debutei [nem quis viajar prá Disney]. Casei e não quis festa. E prometo não ter filhos ou casar outra vez!

  9. Pingback: Semana de noivos « Sextasessao’s Weblog

  10. Colega maluca 1

    Fui a uma festa de casamento de uma pessoa não muito próxima onde cada convidado deveria pagar sua bebida.. Ainda por cima, ao ir comprar o presente na loja indicada, só tinham restado mandalas gigantes para enfeitar paredes (se o termo for enfeitar..) pela bagatela de 180 reais, pode?

  11. Di

    já vi aqui no sul, em alguns casamentos, a janta ficar por conta dos convidados.

    peloamordavacajersey

    se não tem dinheiro para pagar uma festa de casamento, não casa! Junta só os trapinhos e sejam felizes.

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