Eles estão em todo o lugar

Sorria, você está sendo observado

Sorria, você está sendo observado

Por Dany Darko*

Definitivamente, não há phinesse nas relações entre vizinhos. Por que as piores pessoas do mundo parecem escolher a dedo a proximidade com o nosso habitat? Nem Murphy explica, nem Morrissey salva, nem Norman Bates empalha.

Desde que passei a ter vida e casa própria, me assola a necessidade de interação com esses seres que carregam a curiosidade, a intolerância e a falta de bom senso no código genético. Porque vizinhos não são pessoas normais quando elas assumem o status do morador ao lado. Elas devem passar por uma transformação X-Men espírito de porco ou, vai ver, encarnam mesmo a coisa ruim quando elas avistam seus colegas de moradia.

Quando eu e L’Andreis éramos roomates, passávamos as noites exercitando nossa paciência com os estrondos e gritarias dos dois gremlins molhados que habitavam o apartamento de cima. Durante o dia, as duas criaturas pareciam mini-amostras de gremlins secos, lindos, gentis e educados. Mas não sei até hoje qual era o processo de transformação que acontecia acima de nossas cabeças. O que sei é que passamos várias noites sem dormir e a reclamar com os porteiros que urgia a presença de um exorcista naquele recinto.

Logo depois me mudei para um apartamento onde vizinhos debaixo chapavam toda a vizinha com o esfumaçamento de maconha ouvindo rock anos 70 – trilha sonora que o casal de lésbicas que morava em cima abafava com Ana Carolina aos cinco mil decibéis. Fora quando eles não resolviam se comunicar com os mais phinos xingamentos e palavrões durante a madrugada. Aluisio Azevedo mode on. Sweet.

Na moradia seguinte, nem me importava tanto com a menina que ensaiava “Shut up” do Black Eyed Peas com suas 47 amiguinhas bem em baixo da minha janela. Detalhe: enquanto eu redigia a monografia. Era dona Teresa, a zeladora, que encantava meus dias. Ela sabia quem chegava e saía do meu apartamento, a que horas, quanto tempo ficavam, as cores das minhas calcinhas, recebia cuidadosamente minha correspondência já que a caixinha do correio não podia cumprir essa importante missão. Também se encarregava de tecer tenros comentários sobre a raiz escura dos meus cabelos (“já está na hora de pintar de novo”), sobre o meu namorado (“é muito magrinho!”), meus amigos e me questionava até sobre as fezes da minha cachorra (processo que dona Teresa fazia questão de acompanhar de perto – nem Pandora tinha privacidade suficiente naquele prédio…).

No residência seguinte, encontrei a versão adolescente dos gremlins molhados. Logo que cheguei, fui informada pela gritaria de sua progenitora: Amaaaaaaaaaaaaandaaaaaaaaaa! A garota tinha a capacidade de envolver pai, mãe, irmão, avó e cachorro numa mesma briga e capacidade telecinética. Não sei quantas vezes ela destruiu o apartamento onde morava. Sei que, pasmem, ela também adorava futebol e, durante jogos, abria sua janela, a qualquer hora que fosse, e gritava que o Inter ia comer o cu do Grêmio. Mas nunca, nunca comia, porque no jogo seguinte, estava lá, Amanda, torcendo mais por uma relação anal entre as duas equipes que pela vitória de seu time.

E daí que, quando vim morar na França, perguntei pra Zeus se eu já tinha pago todos os meus pecados. A resposta: ele me mandou, como vizinho, uma criatura que carrega a malvadeza até no sobrenome. Maloisel não admite que haja vida no apartamento de cima porque, ultimamente, até nossa respiração o incomoda. Sobe pra reclamar que a gente faz barulho quando caminha e, para isso, escolhe a dedo os momentos em que estamos sentados. Não esquece nunca de nos ameaçar, de dizer que vai chamar a polícia, que vai reclamar com a imobiliária, que é a última vez que ele avisa, de entoar suas delicadezas aos gritos pelo corredor do prédio.

Concluo que a virtude da phinesse não pode ser aplicada com vizinhos, simplesmente porque eles não sabem o que isso significa. Pior ainda é a sensação da obrigação de dividir espaço com esses indivíduos sem qualquer relação conosco além do compartilhamento da mesma parede, chão ou teto e que adentram na nossa vida sem pedir licença.

Na tentativa de cortar laços, desisti até mesmo de cumprimentar alguns deles. Evitar é a melhor saída, assim não se cria, nem se dá espaço para nenhum tipo de ligação. Um double-loft na cobertura ou uma casa no campo também resolveriam o problema. Ainda não possuo, mas ainda chego lá.

*Dany Darko desperta com músicas dos índios peruanos que a vizinha de cima escuta enquanto passa o aspirador de pó e foge da vizinha ao lado que insiste em convidá-la para fazer jogging no parque. Só sobrevive, em nome da Phinesse, aqui, às quartas.

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11 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, lar phino lar, sentimentos phinos

11 Respostas para “Eles estão em todo o lugar

  1. “as fezes da minha cachorra”: desde quando tu teve cachorra menina? Cruzis!!!

    Faça como eu: more num prédio onde só você mora. Explico melhor. Onde vivo, só tem quatro apartamentos, e o meu é o único residencial. Assim, não há incomodação no horário em que estou em casa, ou seja, no momento de amor com a minha cama.

    Mas fica a dica: que tal um veneninho pro Maloisel? Não ia ser de todo o mal…

  2. vizinhos! ¬¬

    os meus (tanto faz os que tive em casa, ou no novo apertamento) TODOS, todinhos tem/tinham péssimo gosto musical.

    e o atual ainda canta, pra piorar a situação.

    e eu nem vou comentar dos moradores do ap de cima que estão num processo de troca de azulejos, todas as manhãs (não sei como existem tantos azulejos a serem quebrados naquele espaço tão reduzido).

  3. me identifiquei na parte dos vizinhos maconheiros. o melhor é que se eu quero entrar na onda da ‘chapação’ basta eu deitar em minha cama e esperar até umas 22h, que é o horário de pico da galera do bairro na casa do vizinho, mais precisamente no posto de luz de ambas as casa, que por sinal fica entre a janela do meu quarto e o meu banheiro.
    mas tudo, eu incomodo de vez em quando também, mas com a minha própria cantoria. eles que aceitem. e assim a gente vai vivendo.

    quanto aos vizinhos da Alice, sim: todos têm péssimo gostos musicais.

  4. Di

    Dany, teu post está ótimo!

    Acho que nunca tive algum vizinho que eu possa levar lembranças carinhosas…

    e, desde que tenho minha casa e vida própria, as coisas só pioram. Tenho verdadeiro HORROR do meu vizinho de janela, pois além de péssimo gosto musical, ele insiste em ficar olhando pra dentro do meu apartamento, como se tivesse perdido algo por lá!
    Outros são uns amores e, alguns, não tenho contato nenhum – graças a Deus.

    Acho que ignorar realmente é o melhor remédio!

    🙂

    Beijos

  5. Di

    Rafa, que inveja de ti! =P

    (inveja bíblica)

    😉

  6. O pior de tudo é quando vira caso de polícia mesmo. No último lugar que morei, os vizinhos acima do meu apartamento tocavam vaneirão às 3 da manhã, jogavam cinzas de cigarro na janela e gritavam o tempo todo. Quando fui reclamar descobri que o prédio todo já tinha reclamado, que eles já estavam em processo de expulsão por não pagar o aluguel e que a polícia já tinha aparecido várias vezes porque parece que as brigas do casal eram pra valer.

    Depois que eles saíram, veio uma véia que ficava sacudindo o tapete do cachorro dela e todo o pó e pêlos do bicho entravam no meu quarto. Pior que peguei ela várias vezes no flagra, batendo o tapete na parede e, ainda assim, ela negava o fato.

    Apóio totalmente a Dany na defesa pela não-sociabilização com vizinhos de prédio. Sério, para que a relação vire humana tem que ser uma casa com um jardim de no mínimo 20 metros de distância em cada lado.

  7. Já tive maus vizinhos, mas nunca criminosos (ufa).
    Tenho muita pena de um colega que mora ao lado de um psicopata. Trata-se de um homem que espanca a mulher e a filha.
    O editor já ligou pra polícia várias vezes e disseram que “não podem fazer nada”.

  8. Lei de Murhpy aplicada à vizinhos: os com péssimo gosto musical ouvem o som no mais alto volume. As velhas desocupadas não sabem o que é televisão e acompanham a sua vida como novela. Os mais barulhentos moram sempre no andar acima do seu ou ao lado. E os síndicos nunca irão tomar atitudes sobre reclamações, a não ser que elas sejam contra você… Nesse ponto , os índios parecem ser bem mais civilizados do que nós da tribo urbana…

  9. A Bela Vista pode ser asséptica e longe de tudo, mas, pelo menos, único conhecimento que tomo dos meus vizinhos são os Carolina Herrera que ficam no elevador.
    =)

  10. Thielli

    Gente, não tinha reclamações sobre vizinhos até mudar para esta casa. Moro num condomínio fechado com aquelas casas germinadas. Os vizinhos são tranquilos, o problema é que a casa fica em frente aos quiosques e à área de lazer!! Imaginem que ótimo: sábado e domingo à tarde, você tentando descansar, assistir a um bom filme, e lá fora rolando o sertanejão ou o “pancadão”. Entendam que Zezé di Camargo é alto nível perto do que o povo do Mato Grosso ouve… e quem disse que encontramos a síndica no findi? É assim mesmo… já tive que ouvir o famoso: “os incomodados que se retirem”. Posso? Beijão!

  11. Leticia

    Adorei!!!

    Acho que franceses sao realmente intolerantes.

    “You walk like a soldier” foi o que o palhaco do apartamento debaixo teve a cara de pau de me dizer em plena tarde de domingo, quando caminhei (e sou “petite”) do sofa da sala para o banheiro.

    Detalhe, moro em Montreal. Meu namorado na epoca, marido agora, engrossou a voz com o vizinho.

    No dia seguinte somos chamados pelo “concierge”, para nos dizer que o vizinho tinha ido reclamar… alegando que quase apanhou… E me diz o “concierge”: “you know… he’s french!”

    E eu com isso??

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