Complexo (?) de cinderela

Vai, glamourosa!

Vai, glamourosa!

*Por Vini

Há um mês, mais ou menos, fui assistir àquele filme “He’s just not that into you”. Odiei mortalmente. Drew Barrymore é uma péssima produtora. A única coisa que se salva é a cena inicial. Uma menininha loirinha apanha de um coleguinha no parquinho. Reação natural: procurar a mãe em busca de colo e uma explicação. (Com essa idade, a gente acha que mãe sabe de tudo: doce ilusão.) E a progenitora explica para sua garotinha que o macho em desenvolvimento assim o fez porque gosta dela. Confiando na mãe, a criancinha sai andando, saltitando e balançando o vestidinho, pois agora sabe que existe alguém no mundo, além de sua mãe, e o mais importante, do sexo oposto, que demonstra publicamente o seu afeto.

A infância das menininhas é recheada de exemplos suculentos que explicam por que o sonho de 90,75% delas é casar-se, de preferência, de vestido branco. Uma verdadeira lavagem cerebral e cultural. E vamos direto ao meu exemplo favorito: os contos de fada.

Bela Adormecida, a.k.a. Princesa Aurora. Loira, prestes a completar 16 anos, mora na floresta com suas tias-fadas-madrinhas para fugir da maldição de uma certa bruxa, praga essa que foi rogada ao nascer. Motivo da maldição: não foi convidada para o batizado da loirinha. Ai, ai, Senhor Rei e Senhora Rainha, que coisa feia! Ela era apenas uma bruxA, um ser do sexo feminino! Que fêmea que se preze gosta de perder uma festa e exibir o modelo última-tendência-do-mundo-medieval? Ou achar um bruxO pra enfeitiçar? Especialmente quando a Senhora Bruxa tinha um corpo bem mais sarado que as Tias-Fadas-Madrinhas. Um pouco de etiqueta e política de boa-vizinhaça mudariam bem a história.

Enfim, Princesa Aurora é criada no campo como senhora submissa, aprendendo as artes e os afazeres domésticos. Um belo dia, espeta o dedo no fuso de uma roca e adormece. O que me causa espanto, pois não era Aurora versada nas artes domésticas? Não deveria ter espetado o dedo, é a minha opinião, ou seja, a de quem nada entende de costura. Enquanto ela fica dormindo, Princípe Felipe, (mais velho, claro), que já tinha com ela flertado pelos campos e redondezas, tem que lutar contra a Senhora Bruxa, vencê-la e dar um beijo para despertar Aurorinha. Pressupõe-se que Aurora seja virgem, claro. E ela fica lá, deitada, sendo que Felipe podia fazer o que bem entendesse com ela. Não devia chamar “Boa Noite, Cinderela” e sim “Boa Noite, Aurora”. E se beijam, ela acorda e vivem felizes para sempre.

Vejamos agora outro exemplo: Branca de Neve. Princesa esfomeada e sem o mínimo de conhecimento de mundo aceita a maçã de uma velhinha muito das suspeitas. Por quê? Ela nem lava a maçã ao menos? Que tipo de comida ela fazia para os Sete Anões? Conversar com estranhos? Branca de Neve estava muito desatualizada e não-antenada, até para os padrões da época. E eis que ela adormece. O motivo de tudo: inveja da Bruxa-Madastra. Claro, ela é mulher… Queria ser a Gostosona-da-Terra-Média e que o espelho a dissesse… Bem, vamos censurar essa parte. E, então, Branca de Neve fica lá esperando mais um príncipe para ser salva, e o resto vocês já conhecem.

Agora, o meu favorito: Cinderela. Essa também aguentou a Madrasta e as irmãs invejosas. A pobre servia de empregada (leia-se escrava). Passava, cozinhava, lavava, bordava e o diabo. Um belo dia, as duas irmãs vão para a festa que o Príncipe promovia para achar uma esposa (o “reality show” da época). A Madrasta disse que Cinderela poderia ir, desde que tivesse feito todo o serviço e arrumasse um vestido. Cinderela era puro Girl Power. Fez todo o serviço e, com ajuda de seus amiguinhos animaizinhos, produziu ela mesma um modelo de festa super digno. As irmãs malvadas acabam com o vestido, infelizmente. Mas nem tudo estava perdido. Surge a Fada-Madrinha. Antenada com as tendências da última moda, faz-lhe sapatos de cristal, que creio serem scarpins. Um luxo. Cinderela vai para a festa, arrasa e conquista o Príncipe, com ajuda dos scarpins de cristal.

Enquanto Branca de Neve, Aurora e outras princesinhas meia-boca eram submissas, bobas, sem atenção, sem malícia e passivas, Cinderela trabalhava por aquilo que queria. Conseguir o Príncipe foi uma consequência de ter saído para se divertir na noite. Girl Power puro. Ela estava no comando. Samantha Jones ficaria orgulhosa.

Maio é o mês das noivas. E, bem ou mal, muitas meninas ainda sonham com o seu príncipe, seu casamento e, principalmente, matar de inveja as outras convidadas no dia casório. Não sei se acredito em casamento. Isto é assunto para outra coluna. Mas se o matrimônio é inevitável, sejam phinas, caras leitoras: scarpins de cristal no pé e atitude com ph como nossa amiga Cinderela.

*Vini já foi príncipe encantado de muita gente, mas não dá conta de selar a união. Cavaleiro andante, sai em busca de novos desafios para enfrentar que não sejam a monogamia.

5 Comentários

Arquivado em contribuição phina, festas phinas, lição de vida, mulher (realmente) moderna

5 Respostas para “Complexo (?) de cinderela

  1. Prefiro as heroínas modernas da Disney. Mulan é tudo de bom. Se infiltra no universo masculino, fica chiquetérrima até mesmo vestida de samurai. Luta ao lado de seu amado e ainda vira celebridade no reino. Apesar do que, eu ando me achando mais pra Fiona, depois que a produção acaba, me sinto uma ogra…rsrsrsrs

  2. Há tempos não me importo com contos de fada. Acho que é um problema pras bibas durante a adolescência, fomentam ilusões. Depois, ficam amargas.

    Gosto mesmo de adaptações más, com toques de realidade, de escritores atuais, como Sapatinhos Vermelhos, do Caio F.

    Na infância, gostava da Dona Baratinha: “Quem quer casar com Dona Baratinha, que tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha”. Vai entender…

  3. Eu fui a Bela Adormecida! Era na apresentação anual do ballet. Devia ter uns 12 anos. E o ponto alto era lá pelo meio da coreografia, quando o príncipe ia me acordar com um beijo…. na mão. Era bonito, louro, hétero e deu inúmeros beijos na minhã maõzinha em meses de ensaio.
    No dia do espetáculo, ele se aproximou e cochicou: a Waleska (coreógrafa) disse pra não te beijar na mão. Pensei “oba”. Mas o beijo era na testa….

    Viu só? Frustrante acreditar em contos de fadas…

  4. Ms.Riverside

    No final eu sempre volto pro borralho…

  5. Di

    Clássicos da vida!

    Adorei Vini.

    Abraços

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