O que realmente importa

Só vale se for com LEITE MOÇA. Não me venha com chinelagem

Só vale se for com LEITE MOÇA. Não me venha com chinelagem

Por O Outro Lado*
(Em Busca do Feno)

Fui uma criança que conheceu desde cedo o que é um verdadeiro pudim de leite. Com a combinação adequada do açúcar, proteínas e gorduras, um pudim de leite não é perfeito nem mesmo passável se não harmoniza ovos, açúcar e o leite moça. A calda de caramelo grudenta.

O doce perfeito era feito por uma tia muito velha, com um odor que já naquela época não era dos mais agradáveis ao meu nariz ainda pequeno. Longe de ser uma mulher phina. Mas esta qualidade ela tinha. Sempre recebia num apartamento que parecia ainda maior com um pudim feito no dia, porém já gelado. Era uma espécie de vaidade, uma obrigação que cumpria sem questionamento, assim como tantas outras manias (era também incapaz de consumir até o final de uma forma de pão).

Uma criança para ter sido plena ou no mínimo vagamente feliz precisa de alegres recordações sensitivas. Esta é uma destas. Recordo também da areia sujando a sola do pé, ainda sem queimar porque era muito cedo. Lembro do salgado agressivo do mar de Copacabana. Algumas dezenas de graus abaixo na latitude, lembro do odor de pinheiros, de grama, do frio da Serra Gaúcha. Neste contexto lembro de molho barato feito com pomarola, de massa mal cozida. Um perfeito banquete porque era o pai que fazia, com o sabor da contravenção porque éramos só os dois, sem as outras. Vivíamos a plenitude de uma relação de mínimas palavras com o entendimento tácito de processos judiciais instantâneos.

Disso que estou a fim de lembrar agora. Da minha relação com estas pessoas que não estão aqui agora, mas que estiveram tão presentes e que me receberam sempre tão bem em suas vidas. Bem receber é a phinesse obrigatória e singela. Preparar algo especial para surpreender alguém que você gosta. A única coisa que realmente importa é sua relação com as outras pessoas (George Valliant).

*O Outro Lado não está muito pelo humor. Escreve aqui às terças.

5 Comentários

Arquivado em dica culinária, Em Busca do Feno, O Outro Lado, sentimentos phinos

5 Respostas para “O que realmente importa

  1. Colega turco e moça iraquiana passam por mim e observam uma lágrima escorrer pelo meu rosto no meio da biblioteca do Goethe de Berlim.

    Bom, essas recordações são lindas. Pudim de leite moça era o must-have da infância. TINHA que ter. Odiava quando a mãe fazia pudim de pão. Disgusting for a little sweet child like me.

  2. desde sempre fui uma pessoa que nao gosta de pudins, mas lembro das balas de coco que eram delicadamente feitas pela minha mãe. pessoa que, aliás, sempre me traz lembranças gastronômicas ótimas!

    moço da coluna, apesar de acusar tua falta de humor, achei a coluna um doce!

  3. vivi

    pudim ainda é minha sobremesa predileta. e acho que sempre será.

  4. lembrei do cheirnho de pão caseiro que minha vó mineira fazia…

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