Capítulo 4: puxando ferro pesado

Berlim é fetiche até na construção civil

Berlim é fetiche até na construção civil

Por Rafa*
(Direto de Berlim)

O despertador toca às 5h, mas eu ignoro. Então já são 5h20, e Romildo me sacode. “Anda, Rafa, senão vamos nos atrasar.”

Coloco a primeira roupa que vejo pela frente e pego um iogurte na geladeira. Não me esforço muito com o meu modelito, afinal, é o meu primeiro dia de trabalho em Berlim e a firma dá uniforme. A preocupação com as tendências da moda ainda não chegou à construção civil. Nem mesmo em Berlim, phinos amados, o que eu acho péssimo.

“Como assim construção civil, Rafa, enlouqueceu?”

Explico. Há tempos, ando desanimado com o jornalismo. E quando Mario, de cidadania portuguesa, mas angolano de nascimento _e coração_, me propôs o trabalho de pedreiro, pagando 10 euros a hora, eu achei uma troca justa. Por dia, dá uma média de 100 euros, já que o trabalho é escravo, não muito diferente do de jornalista. Pesou também o fato de eu não precisar mais pagar academia, cujo ambiente é chato. Vocês bem sabem: vou, não que eu goste, mas porque sou a favor da beleza.

O foco, senhores, é no relevante, sempre: a coleção de inverno. Berlim está quase no verão e as promoções nas boutiques chiques do meu bairro preferido estão bombando. Então fiz a comparação monetária. Resultado: a vida como pedreiro me daria muito mais roupa.

Às 5h30 o trem chega. E eu vou conversando no caminho com Romildo, goiano. “Tava difícil, né, Rafa. Tive que trancar a faculdade. E não aguentava mais trabalhar no telemarketing daquela operadora de celular.” Naquele momento entendi por que ele veio parar na capital alemã. Muito mais digno ser pedreiro em Berlim. O trabalho é ilegal, claro, mas em casa Romildo escuta Mano Chao e fica tudo bem. Ele tem apenas 20 anos. Não serei eu a mandar o guri estudar.

Chegamos na obra. E começam as primeiras ordens. POLACO FAZ ISSO. “Não é polaco, é brasileiro”, explicam. POLACO BRASILEIRO FAZ AQUILO, corrije um dos chefes. Enfim, passo a ser conhecido como o polaco brasileiro da construção. Na primeira hora de batente, acho tudo muito engraçado e até me divirto. Mario me explica que tenho que trabalhar três semanas para ganhar pelas duas primeiras. Tudo bem.

Às 9h30 começa o primeiro intervalo. Estou esgotado, mas feliz. A dor muscular é parecida com a de duas horas na academia com um treino pesado. Sento num canto sozinho. Colega português se aproxima e começa a puxar papo. Assunto: a língua portuguesa. Segundo ele, “o português correto é o de Portugal”, “não existe português brasileiro”, etc etc. Na hora eu me lembrei das aulas de linguística do primeiro semestre de faculdade de jornalismo, mas achei melhor não me expressar sobre o tema. O dia seria longo. “Concordo, o português de Portugal é o legítimo”, digo, em bom português… brasileiro.

Calma, Rafa. Só faltam mais oito horas de trabalho, ou seja, 80 euros.

Com o meu atraso e a correria pra sair de casa, esqueço de preparar um lanche. Não há nenhum lugar por perto em que eu possa fazer uma refeição. Romildo, que disse que eu desistiria da labuta no primeiro intervalo, gentilmente me cede um pedaço de seu sanduíche. Agradeço e aceito.

Dividindo a refeição com o colega

Dividindo a refeição com o colega

Voltamos a trabalhar às 10h. “Mas Rafa, não entendi ainda muito como funciona o teu trabalho novo, me explica melhor.” Claro, gatinha. Pelo que o Romildo me falou, tem um dia que o povo faz o cimento (não me pergunta maiores detalhes, por favor, que não sou engenheiro, sou pedreiro). E nesse dia o trabalho é MUITO mais pesado. Por enquanto, a minha tarefa consiste em levar de um lado para o outro ferros gigantescos, tijolos, sacos de areia. Dói o corpo, gente, STADNERVUS! Tudo sem i-Pod, claro, a grande vantagem da academia, se continuarmos comparando. Melhor parar por aqui.

Já são 11h, e estou podre. O próximo intervalo é só ao meio-dia. Sento um minuto para descansar. (Queria tanto um café brasileiro nessa hora, mas não tem nem alemão.) Mario berra comigo. “Vamos polaco brasileiro”, diz ele, meio que sério, meio que brincando. Dou um sorriso e tiro forças não sei de onde para voltar. Aguento até o meio-dia, hora do segundo intervalo.

Não tenho almoço. Acho injusto pedir um pouco da linguiça de Romildo, preparada no dia anterior com esmero.

Então, peço as contas. Mario explica que não terá como me pagar pela horas trabalhadas. Tudo bem. Com 55 euros não daria mesmo pra levar aquele casaco chiquérrimo que eu tanto queria. Bora parcelar no cartão de crédito.

Volto pra casa, tomo um banho e durmo até as 18h. Acordo com dor no corpo. “Pra alguma coisa serviu”, penso. Vou até o supermercado, onde compro carne de primeira, batatas, legumes, queijo, dois vinhos bons. Preparo o melhor jantar. Espero Romildo e Mario, que também mora comigo, com a mesa posta.

Quando eles chegam, sentem o aroma do meu tempero. Jantamos. Falamos um pouco mais sobre a língua portuguesa, tema preferido de Mario.

O bife do polaco brasileiro recebe elogios.

*Rafa não poderá comparecer, no próximo final de semana, ao show do Mano Chao, para o qual Romildo e os demais amigos da construção civil já confirmaram presença. Motivo: o polaco brasileiro conheceu um casal de bichas norueguesas que o convidou para a colheita de narcisos da primevera em seu país. A frescura é tanta, que, claro, Rafa não resiste. Continua jornalista e solteiro e escreve aqui às segundas.

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10 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Rafa, trip phina

10 Respostas para “Capítulo 4: puxando ferro pesado

  1. vivi

    necessário dizer que me identifiquei umas 27 vezes ou nem?

  2. Rafa, seria um pouco triste se não fosse cômico!

    ótimo! 😉

  3. Caroline Andreis

    Nada como deixar o seu Caio F. aflorar em prosa e verso, mesmo que seja um Caio forte, musculoso e suado. Ui.
    Bora colher narcisos!

    =)

    bjs

  4. Colega maluca 1

    Tua boa vontade me conquistou

  5. Di

    sem disfarçar, caio na risada na frente da minha chefe. A-DO-REI!

    Uma phina semana pra ti Rafa…

    Abração

  6. Tunda de narcisos em ti e nas bichas norueguesas se tu me abandorares esse finde. Vou em Oslo te buscar “pelos cabelo”.

    Louis Garrel te despreza!

  7. Minha roommate em London namoriscou um pedreiro polonês. O rapaz era lindo, alto, forte, espadaúdo. Mas ela desanimava de dar toda vez que o bofe sorria e mostrava que tinha um desfalque no meio-campo na boca.
    Faltou contar se os teus colegas de “siviço” eram gostosos.

  8. Thielli

    Só uma palavra pra ti, Rafa: SENSACIONAL! bjos..

  9. Amor, morri mil vezes. Tu me enche de orgulho!

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