Sapateando no soufflé

Sopra forte que passa

Sopra forte que passa

Por Dany Darko*

Há meses a vida só concerne compromissos sociais e acadêmicos. É casamento pra cá, dissertação pra lá, obrigações mil e já nem lembro quanto tempo faz que eu não cuido mais das minhas vontades. Dar atenção a si mesmo é respeito próprio; personal caridade também é phino.

Minha professora de yoga diz que quando a dor muscular é forte a gente sopra e alivia. A professora de body sculpt concorda: “Soufflez, soufflez et soufflez**”, ela ensina. E, por mais que nesses momentos o alívio só passe quando eu mentalize um fofo soufflé de queijo, eu sigo firme, soprando o soufflé.

É pra soprar, mas eu quero comer

É pra soprar, mas eu quero comer

Como esse foi o semestre da caridade alheia – o que requer muitos exercícios de respiração e mentalização –, passei seis meses soufflant. Deu certo, até hoje. Relembro.

Ir esquiar com o amigo e quase pegar uma pneumonia porque na casa dele, no alto dos Alpes, não tinha calefação em pleno janeiro europeu. Soufflé de queijo magro.

Ir no casamento de outro no cu da Bélgica e aguentar a mala da dama de honra da noiva enchendo o meu ouvido com podes e não podes. Soufflé de roquefort.

Ter overdose hormonal, ficar do tamanho da Free Willy e pensar que estava grávida com todos os sintomas da tpm elevados à quadragésima sétima portência. Soufflé de camembert.

Engolir colega francesa rindo do meu sotaque e ser acusada de chamá-la de racista depois “co que é, minha fia?”. Soufflé de qualquer outro queijo muito fedorento.

Aceitar professora me chamando de “inacreditavelmente ingênua” (sic) e “excessivamente honesta” (sic) depois que um estudo de uma revista não teve o resultado que ela esperava (trabalho que ela foi paga para fazer e eu não recebi um euro, aliás).

Soufflez, soufflez et soufflez!

Ok, passou.

Ir no casamento de amiga de petit-ami na mesma semana onde eu tinha quatro trabalhos para entregar e presenciar cenas do tipo noivos na carroça sendo puxados pelo trator da família. Soufflé doce, que o salgado já não faz mais efeito.

Aturar orientadora me pedindo mil e uma merdinhas de esquemas, resumés e explicações metodológicas um mês antes de entregar a dissertação. Soufflé de chocolate.

Aguentar amigo de fuça torcida porque a gente não conseguiu ir no segundo casamento dele no Marrocos uma semana antes de entregar a dissertação.

Soufflez, soufflez et soufflez!

Funcionou de novo.

Na última semana de dissertação, coisas básicas acontecem, né. Tenho que engolir até mãe de colega me xingando de graça no orkut. Soufflé de chocolate, cobertura e uma bola de Haagen-Dazs, por favor.

Várias noites em branco corrigindo erros de francês que minha orientadora retorna com a singela mensagem REFORMULER – FRANCAIS MALADROIT (reformular – francês atrapalhado). Soufflé anterior com dupla bola de Haagen-Dazs e chantilly.

A impressora que pifa no dia da entrega do trabalho. As correções que insistem em se descorrigir, as citações e notas no pé da página que somem. Dez quilos do soufflé ali de cima, por favor.

E a ida para Berlim, uma hora depois de entregar a bagaça, sem nem bem arrumar as malas.

Mas Rafa e Morrissey me salvam – é a rehab dos soufflés. Segurei o vício até mesmo quando tive a proeza de segurar a chapinha quente, carbonizar minha mão e passar a viagem inteira com a pata enfaixada. Nem, nem.

Mas, eis que, quando chego em casa, descubro que tenho um projeto de dissertação para fazer para o semestre que vem, a necessidade de passar por seleção (de novo!) para o segundo ano de mestrado, Rafa cancelando dois dias antes a viagem para Paris, Fnac que não aceita bilhetes de volta, companhia de trem que não reembolsa, petit-ami que me xinga e, uma semana antes de ir para Tokyo, descubro que preciso de visto de turista, para o qual vou ter que viajar até Lyon, um dia antes da minha defesa de dissertação, para, muito provavelmente, não conseguir e não viajar. De quebra, ainda fecho a janela em cima do meu dedo queimado.

Mostra aí, Johnny, o quê a gente vai fazer com o soufflé da minha professora de yoga antes de cometer homicídio em massa e ir parar na prisão, onde viveremos sozinhos, em paz e felizes para sempre.

Desculpa phinas ou não, tudo o que eu quero hoje é mandar todo mundo tomar no piiiiiiiiiiiiiiiiii.

** Soufflez = soprem, do verbo souffler (soprar), tem a mesma pronúncia de soufflé, o bolinho.

* Dany Darko está soprando fogo no momento.

5 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, dica culinária, sentimentos phinos

5 Respostas para “Sapateando no soufflé

  1. Dany, respira! respira muito!

    e sopra toda essa uruca pra bem longe!

  2. Se mandar tomar no piiiiiiiiiii for de ajuda, pode mandar a gente também. Estamos aqui para isso.
    Banho de sal grosso pra ti, phopha, e força na peruca.

  3. Caroline Andreis

    Lindíssima,

    Se tiver tempo, lembre-se (5:25 deste vídeo), o soufflé must be gay. =)

  4. Monica

    Texto ó-te-mo! Adorei.

    Se for bater em alguém, lembre-se de mais uma lição do ioga: pulmão cheio aumenta a força 😉

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