Capítulo 6: me dê motivos pra ir embora

Berlim: sinal verde pra ti

Berlim: sinal verde pra ti

Por Rafa*

O meu constrangimento na volta ao Brasil começa no aeroporto Tegel, Berlim, mais especificamente no portão de embarque. Falta cerca de uma hora pros funcionários da Lufthansa chamarem o pessoal para adentrar no avião, e a fila de brasileiros já está formada. Alguém me explica o motivo da antecipação da espera em pé? Pegar lugar melhor, como assim, se as poltronas são numeradas? Oh, povinho que adora uma fila.

Enquanto observo os brazucas, uma imagem quase me cega: uma loira oxigenada, com as raízes pretas aparecendo, enrolada na bandeira do Brasil. SOCORRO! Alguém interna a mulher, pelamor! Vergonha alheia. Ao meu lado no avião senta, graças a Deus, uma não-brasileira, e eu agradeço. Caso alguém resolva abrir a boca pra falar que está com saudades de algo que SÓ tem no Brasil, eu mato, ah, mato. Que mania!

Já em Guarulhos, aquela beleza de desorganização e mais vergonha do meu país. Filas e mais filas se formam. Primeira parada-fila: para ver se o formulário de declaração de bens foi corretamente preenchido (juro!). Segunda parada: para a polícia federal abrir o passaporte. Terceira parada: entregar o folheto devidamente preenchido para algum funcionário da Receita. E nessa brincadeira passam-se, no mínimo, meia hora. Quem agüenta?

Ok, eu acho de uma pobreza alagoana quem viaja para o exterior e volta falando mal do Brasil. Mas é inevitável não falar, principalmente quando estamos falando de Berlim, que tem tudo que São Paulo tem de bacana mais todas as vantagens de uma cultura de primeiro mundo. A comparação com a maior cidade brasileira nos mostra, o tempo todo, que, para viver nesta, é preciso ter muita, mas MUITA, paciência.

Vem comigo. São 6h da manhã da última terça-feira (meu primeiro dia no Brasil) em Guarulhos e pego um táxi, que me cobra um preço superior ao da tabela. Evito discutir. Tudo que mais quero neste momento é a minha cama. Deixo que me roubem. No caminho de volta para casa, TRÂNSITO. Juro por Deus-pai todo-poderoso.

É impossível não lembrar de Berlim, (1) onde há transporte público acessível até o aeroporto e a qualquer lugar da cidade. (2) Não há carros nas ruas. A capital do país famoso por grandes montadoras de automóveis anda de bicicleta e metrô. Saudade.

À tarde, perto da minha casa, um cara me pede dinheiro em tom de ameaça para tomar um café. Ok, você vai me dizer, há pedintes e mendigos em Berlim também. Claro que há, mas eles podem tentar dar um rumo pras suas vidas, se assim desejarem.

Vê se não é bacana: existem dois jornais na cidade que são vendidos por moradores de rua. Com o dinheiro do trabalho, eles podem comprar o seu tão sonhado lar e sair das ruas. Recebem toda uma assistência especial para isso. Mais: mendigo dá emprego pra jornalista na Alemanha. Não é legal?

Daí que, no dia seguinte à minha chegada, volto ao trampo. E trabalho 12 horas. Vocês vão me dizer que é normal. Não em Berlim, onde as pessoas trabalham no máximo oito horas. Juro, nunca vi um berlinense reclamar que está cansado, exausto, estressado… Ah, não preciso explicar, você sabe do que estou falando: escravidão.

Às sextas, no máximo às 18h, as pessoas vão felizes pras suas casas com uma garrafinha de cerveja na mão. Não há hipocrisia, como em Paris, onde a lei diz que não se pode andar bêbado pelas ruas. Francamente.

Aliás, o metrô, ótimo, por sinal, fica aberto a madrugada inteira nos finais de semana. Daí neguinho não pega o carro e se mata bêbado no primeiro poste que ver pela frente. Deixa eu contar uma pra vocês, que é boa. O jornal sensacionalista da cidade estampava a seguinte manchete: “Berlim brutal”. A reportagem tratava de três crimes na cidade. O mais grave foi umas meninas que tavam na rua e se machucaram porque um cara bêbado jogou o carro em cima delas porque as moças não quiseram aceitar a carona. Sério: foi um final de semana horroroso para eles. As pessoas não devem ter entendido nada quando me viram rindo enquanto lia o jornal. Brutal, sei…

Daí que no meu último final de semana em Berlim tinha parada gay. Bom, não preciso nem dizer que foi ótimo. Que as pessoas eram civilizadas, que tinha barraquinha de comida, que era pura diversão, mas que tinha um lado político sério. Foram cerca de 500 mil pessoas, e era possível transitar com calma, sem estresse entre os participantes. As pessoas bebiam, sim, mas não tinha gente caindo no chão como numa certa cidade brasileira, onde morrer também faz parte (relembre aqui).

Aliás, a cena gay é um capítulo a parte em Berlim. No maior club (não me venha falar BUATI, purfa), convivem em harmonia barbies, ursos, sadomasoquistas, os fetichistas vestidos de jogador de futebol (sério!), héteros, etc. Não há a segregação paulistana da The Week, por exemplo, onde só as musculosas têm vez.

É minha gente, tá difícil retomar a minha rotina em São Paulo. Também, quem manda eu me meter numa cidade onde o partido mais representativo é o verde e o prefeito, gay assumidaço (e classudo, elegante, bonito, etc, etc).

Mas, antes de você arrumar as suas malas e se mudar pra Berlim, eu vou logo avisando:

1) Os alemães não tem bunda;
2) Não tem feijão nem café brasileiro (mas tem caipirinha);
3) Faz muito frio no inverno.

Depois não venham colocar a culpa da infelicidade de vocês em mim se não gostarem da cidade.

*Rafa mora em uma cidade que lhe dá mil motivos para ir embora. Mas viu o filme Jean Charles no final de semana e não gostaria de trabalhar como ilegal em Berlim, por isso permanece. Reclama da vida aqui às segundas.

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13 Comentários

Arquivado em fica aí a dica, lugares com PH, Rafa, vergonha alheia

13 Respostas para “Capítulo 6: me dê motivos pra ir embora

  1. arruma um bofe europeu e de quebra a cidadania…casa e ganha o precioso passaporte vinho . o problema da ilegalidade desaparece…

    • até tentei, juro, mas eu sou burro e troquei o empresário rico de Frankfurt pelo estudante de História comunista, que, ao descobrir o meu lado ocidental capitalista, me deu um pé na bunda. eu não aprendo, não adianta.

      beijos

  2. Leticia

    Triste sentir vergonha dos conterraneos. Mas tambem sinto. Ha 10 anos no Canada, vivencio os episodios de aeroporto descritos acima, todos os anos…

    E no ultimo sabado, assistindo ao espetaculo do Cirque du Soleil (OVO) em Montreal, que tem muito Brasil no seu conteudo (musica, coreografa, etc, etc), quase me enfiei debaixo do banco quando uma fila de brasileiros atras de nos, comeca a gritar: “Brasil, Brasil, Brasil!!”. Ate entendo o orgulho, alias, foi o melhor espetaculo do cirque que ja assisti. Mas precisa “broadcast”??

  3. rafa, em breve tu não terá mais motivos pra sair de SP. be aware.

    bjones

  4. certamente temos um looooongo tempo pra percorrer até chegar no nível dos países europeus, mas pensando de forma pouco menos pessimista: somos jovens, eles ‘tiveram’ no mínimo 3 vezes mais tempo para errar e aprender do que nós…

  5. Di

    Tirar férias é ótimo, o problema é voltar pro trabalho depois…hehehe

    Arruma as malas de novo e vem passar uma temporada aqui no sul Rafa, estamos te esperando aqui na capital da bombacha e do chimarrão!

    Boa semena pra ti guri!

    Abraçãoo

  6. Uma hora em Berlim. Após nos instalarmos no hotel, caminhamos até Alexanderplatz. Então, o que o pai tinha me explicado na infância sobre “atavismo” fez súbito sentido.
    Não ousei falar ao administrativo o que pensei, com medo de escutar “tá louca?”.
    Mas, telepata, foi ele quem disse: “não fosse essa língua de merda, a gente podia vir morar aqui pra sempre, né?”
    É.

  7. quando tu veio? pra onde tu foi? só berlim?
    quando se mora em qualquer lugar do mundo sempre se acham mil problemas para se lamentar. mas devo concordar que sp… mas ainda deve ser melhor que roma. qualquer coisa pode ser melhor que roma.

    beijoooss

  8. ah, e berlim tem aquela língua chamada alemão…

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