Capítulo 7: um tapinha não dói. Mas e uma esgoeladinha?

me chama de cachorra que eu faço au-au

me chama de cachorra que eu faço au-au

Por Rafa*

Era sexta-feira e minha amiga La-Pan, chinesa, estava arrasada em Berlim. Eu tentava consolá-la, mas não havia jeito. Ela estava muito triste por ter sido mal tratada por uma senhora alemã, para quem havia pedido uma informação. Furiosa, me contava ela, começou a xingar a velha no meio da rua: “Fuck me, fuck me!” Então que a rua toda começou a rir da cara da pobre orientalzinha.

Tadinha, trocou o “you” pelo “me” e deu naquilo. Eu, na verdade, estava chateado com a situação porque ninguém tentou comer a chinesinha. Se por acaso um dia eu saísse na rua e começasse a gritar “fuck me” e ninguém viesse tirar uma casquinha do meu corpo, seria a MÓÓÓRRRRTE. Principalmente se fosse em Berlim, a cidade dos fetiches.

Nos 30 dias que passei na cidade, pude perceber que há espaço para todos. No principal club gay, convivem em harmonia barbies, ursos, homens com trajes de jogador de futebol, sadomasoquistas, bibinhas, héteros e assim por diante. E, pasmem, eles se relacionam entre si.

Quando cheguei na capital da Alemanha, temi ser discriminado por conta dos meu traços que lembram um polonês, como aconteceu em Paris, que ninguém quis saber do meu corpinho.

Mas NOT. Fui muito bem tratado e bem recebido pelos berlinenses, que me acolheram e devolveram cada porção de amor que eu lhes oferecia. O ditado não diz que é dando que se recebe? Pois assim foi na maior parte do tempo.

Na minha primeira vez na Bergheim, a boate supracitada, eu dancei e bebi muito. Claro, muito bem vestido com um modelito Carla Bal, coisa que é para poucos, vocês bem sabem, não, phinos amados?

Só que já haviam se passado três horas lá dentro, e eu ainda não tinha beijado uma viva alma. E aquela situação estava me incomodando. Foi nessa hora que radicalizei e me joguei sem medo no bar onde ficavam os fetichistas. Com minha cerveja Becks nas mãos, observava aquela fauna de gente diferente e forçava o meu pensamento contra o preconceito. Por que não?

Acomodei meus devaneios e comecei a flertar com um moço. Calça de couro, que só fui descobrir quando ele se aproximou, dorso nu, malhado, mas não muito musculoso, rosto bonito. “Uma delícia”, concluí.

Bom, meu alemão é intermediário, e a conversa chega num determinado ponto que não avança. Mas como o beijo era bom, e eu não queria perder o bofe, fingia que entendia o que ele dizia. Sorria muito. E vez ou outra soltava uns “ja, ja, ja” (sim, sim, sim), o contrário da música de Amy Whinehouse.

Eis que o moço começou a me dar umas miradas de apaixonadinho, sabe? É aquele momento em que a outra pessoa pára e te olha, te desejando. Uma espécie de descoberta de um belo tesouro.

Michael (leia-se MIRRAEL, pelamor) dizia algumas palavras que pareciam de afeto, e eu retribuía com aquele sorriso. Então que ele começa a simular tapas na minha cara, como que insinuando o que faria mais tarde se eu aceitasse ir com ele para algum ninho do amor.

Confesso pra vocês que não sou chegado nessas coisas. Tapinha na minha bunda, por exemplo, não acho a mínima graça. Tem amigos meus que curtem uma pequena agressão na hora do “vamu vê”. Nunca foi a minha praia. Sou clássico.

Mas eu estava em Berlim, em férias. Pensei naquela música que diz “vamos nos permitir”. Se a cidade me aceitava como sou, por que não dar uma chance pro moço e seguir na sua vibe?

Fiz cara de quem tava gostando. Michael se encheu de felicidade. Eu era o seu par. Após a simulação de tapinhas, o homem da calça de couro começou a apertar minhas coxas de uma forma que não sei descrever, mas que provocava uma dor desconfortável, mas que dava para suportar.

Mantive a compostura e continuei o romance. Os olhos do alemão brilhavam. Foi quando ganhei o mais bizarro dos beijos. Enquanto nossas línguas se enroscavam, a mão dele acariciava meu pescoço de uma forma que eu nunca havia experimentado: me esgoelando.

Afastei Michael, e o sorriso, dessa vez, deve ter saído meio amarelo. A vontade de ir ao banheiro surgiu, porque sou bicha VI-VI-DA.

Então entendi que alguns preconceitos fazem parte e existem para o nosso bem.

*Rafa é tradicional, mas sempre procura fugir do óbvio. Tem uma relação estável e padrão com seu leitores aqui, às segundas.

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9 Comentários

Arquivado em festas phinas, Rafa, relaçã? sã?, trip phina

9 Respostas para “Capítulo 7: um tapinha não dói. Mas e uma esgoeladinha?

  1. vini

    hahaha.
    já li que algumas pessoas tentam simular asfixia na hora do orgasmo para aumentar mais o prazer.
    e tudo na vida tem um limite, não é? vamos dar graças ao super-ego pq id desgovernada não cai bem nem em berlin.

  2. Lauro Vidal

    Se tivesse morrido, a causa mortis teria sido estrangulamento fetichista. Ufa.

  3. Caroline Andreis

    olha, tlvz continue no tema na quinta. tá, na verdade não rolará pq mamãe lê o blog. bj, mãe!

  4. Caroline Andreis

    Em tempo, melhor cena ever de Sex and the City: quando Carrie troca o fuck you para o Mr. Big por fuck me no elevador. VALHAMEDEOS

  5. leo

    hahaha, um dos teus melhores posts rafa!!!!

    “o contrário da música da amy” já é um hit pra mim, tipo, uma lição de vida que DEVE constar na próxima edição do “momentos (pílulas ou gotas ou sei lá o que) de sabedoria”.

    saudade!

  6. Fico só imaginando o que ele estava te dizendo, enquanto tu dizias “sim sim sim”.

  7. Tu deves ter topado um sexo violento com o Michael sem saber, e acabou dando um perdido só por causa da esgoeladinha. Afe!

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