Michael Jackson e eu

Colete amarelo: Michael teve a ajuda de Madonna, Cindy Lauper e Menudo para transformar o brega em fashion e criar uma década paraíba

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Por O Outro Lado*
(Em Busca do Feno)

Era um disquinho com fundo branco e tinha um moço vestindo um colete amarelo e gravata borboleta branca. É claro que eu sabia que não era parecido com ele: um tio já meio grande, ainda por cima com a pele toda preta. O cabelo dele caía como um feijão sobre a testa. Ele olhava pra mim com uma expressão vazia, e eu ainda não sabia interpretar expressões. Ainda assim, busquei identificação com ele. Procurei gostar.

Meu primeiro disco. Era um promo que ganhava trocando por tampinha da Pepsi. Tinha Thriller, Beat It, Billie Jean e Human Nature. Eu escutava o disco, e, desde o princípio, a melodia de Billie Jean me soava angustiada. Human Nature era estranha. Ainda não descobrira o mais imperdoável defeito de todos: o cantor era efeminado. “Uma bicha”, sentenciou meu pai.

Não estou certo disso, mas acho que foi um choque até pra ele que aquele “crioulinho dos Jackson 5” tinha virado aquele pedaço de estranheza. Procurando ser misterioso na capa do disco, aquela expressão máscula de quem sofre por amor, mas de um modo macho. Um marketing de gosto bem duvidoso, como tudo o mais que se faria por toda aquela década.

De todo modo, segui gostando de Michael. Era meu primeiro ídolo. As músicas Beat it e Thriller eram bem fáceis – o arranjo da última, com a risada diabólica, era a própria subversão. Queria deixar meu cabelo crescer como o do Michael Jackson. Muito depois ouvi Beatles. A primeira música favorita – olhem só – foi Paperback Writer, a que inventou a distorsão e o punk rock.

O litígio com Michael Jackson veio com “Bad”. Depois ainda saberíamos que foi também o próprio começo do fim pra ele mesmo. Já não ficava bem um homenzinho que se considerava profundamente heterossexual vibrando com um cantor já virado em uma mulher. Branca. Decidi que bom mesmo era Guns N’ Roses.

Cheguei a ensaiar um reatamento com o megahit Black & White. Afinal de contas, o Slash tocava com ele. Não poderia ser tão ruim. Mas eu já gostava de Sepultura, o que impossibilitava completamente uma simpatia ainda que vaga pelo Wacko. Acompanhei com indiferença os escândalos, mas nunca ri das piadas.

Fui tomado de um inexplicável sentimento de vazio com a notícia e a cobertura da morte. Tentei apurar por telefone alguma coisa de Los Angeles, sem sucesso. A confirmação foi acompanhada da histeria mundial e da canonização. Para mim, foi mais um sintoma indisfarçável de que muito tempo passou desde que coloquei aquele disquinho na vitrola e escutei pela primeira vez aquela incompreensível miscelânea de teclados de Human Nature.

Fiquei triste. Why? Why?

*O Outro Lado é “bad”, mas também tem um lado sentimental que só mostra aqui às terças. Bem de vez em quando.

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5 Comentários

Arquivado em Em Busca do Feno, O Outro Lado, sentimentos phinos

5 Respostas para “Michael Jackson e eu

  1. a impressão que tenho é de que o Michael Jackson, meu ídolo de infância, já havia morrido há muito tempo…o que ainda restava era um fantasma, um esboço distante do que foi…

  2. vivi

    MJ é um simulacro, ele morreu faz tempo.

  3. Michael queria ser aceito, tadinho. Por que querer ser branco é menos aceitável do que querer ser magro ou fazer plásticas? No fundo, ele sempre foi gente como a gente.

    E mais: prefiro Michael e suas tentativas do que Cindy Lauper que segue horrenda. O clipe do ex-negrinho com Naomi é uma das coisas mais lindas e chiques desse mundo. Saudades de Wacko…

  4. leo

    ai pessoal, não dá um nojinho dos milhões de fãs ressuscitados após a morte do ex-negrinho (adorei rafa!), que foram no wikipedia ver o que o cara fez na vida além de quase atirar o filho de uma sacada?

    tipo, milhares de pessoas que só conseguem amá-lo MORTO.

    preguiiiiiiiiiiiça…

  5. Também tenho peninha. Ele acreditou que dinheiro podia compara tudo. Até mudar de cor. E estava errado?
    O Outro Lado, gosto quando tu escreves sobre a tua infância e adolescência. Parece que eras um projeto de homem meigo.

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