Nem tão lost in translation, muitos encontros

Se dizem que é impossível ser feliz sozinho...

Se dizem que é impossível ser feliz sozinho...

*Por Dany Darko

Tóquio é a capital mais phina onde eu já estive. Não, melhor, o lugar mais phino onde pisaram minhas Melissas. A começar pela grande diferença em todo e qualquer espectro: ao menos no Ocidente, não creio que exista lugar comparável.

Como definir um lugar que reúne toda a modernidade do mundo misturado às tradições milenares? Ao lado de um arranha-céu, sempre tem um templo. Lolitas góticas se misturam entre kimonos pelas ruas. As lojas e shoppings imensos comportam a mesma lotação de lugares sagrados. Os milhões de olhos puxados que circulam diariamente num trânsito caótico, em metrôs lotados, em lugares atrolhados, mas sem jamais demonstrar um sinal de irritação ou impaciência.

A fórmula? “Smile is [the] best make up”, diz um luminoso na estação de metrô de Harajuku, o bairro dos jovens.

Lancôme, cancela meu pedido!

Lancôme, cancela meu pedido!

Um francês que encontrei em uma festa e que mora no Japão há 12 anos disse acreditar que a cultura japonesa é a última a manter a prioridade dos fortes laços de respeito entre as pessoas. Apesar de ter passado apenas dez dias por lá, foi essa a principal característica que notei, especialmente porque convivi com uma família japonesa durante esse período e que não nos poupou devoção e simpatia.

Reiko iria se casar em menos de uma semana e nos recebeu como se aquela fosse a época mais calma da sua vida. Não fez cena, não estava nervosa, não se estressou com nada. Ao contrário, ficava até de madrugada conversando comigo e com petit-ami, nos dando dicas de turismo, e, na nossa volta das andanças, sempre nos esperava com uma iguaria da culinária para nos apresentar.

Dois dias antes do seu casamento, motivo pelo qual estávamos lá, nos transferimos para um hotel, para deixar a noiva mais à vontade, o que foi motivo de desgosto da japonesinha. Insistiu, imaginem, para que voltássemos para a casa dela depois da festa de casamento – o que não aconteceu, óbvio, porque bom-senso é a atitude para (quase) todos os momentos, combinemos.

E foi a mesma complacência e respeito dessa família que fomos guiados por Tóquio e Kyoto nesses dez dias. O esforço pela comunicação parece sempre vir do lado oposto: o deles. São eles quem se desdobram em mil para nos decifrar os caracteres, para nos locomover na correria do metrô, pelas ruas que nem sempre têm nome, para desvendar os caminhos dessa cultura tão distinta.

“Can I help you?”, perguntou um senhor japonês que almoçava ao nosso lado em um restaurante e que percebeu nossa dificuldade de comunicação com o garçom. Ou a movimentação e troca de lugares das pessoas dentro do metrô para que eu e petit-ami nos sentássemos lado a lado. Os sorrisos e os agradecimentos deles em simples gestos nossos: ao cedermos a passagem na rua ou o lugar para um idoso em um assento. A palavra mais dita no japonês é, sem dúvida, arigato gozaimasu.

E, assim como a atenção e a devoção de seus habitantes, Tóquio não dorme. A cidade que amanhece as três da madrugada tem opção de tudo, para todos – a qualquer hora está pronta para servir, oferecer, surpreender. E ainda que a compreensão da língua não apresente grandes facilidades, na capital japonesa, a gente sempre chega a algum lugar ou a alguém: a um arranha-céu, a um templo, a um habitante que, após suas 12 horas de trabalho, nos guie pela direção correta. Mesmo que, na capital japonesa, não existam direções erradas. E nenhuma necessidade de tradução.

*Dany Darko fechou o rol dos casamentos 2009 no final de semana passado e avisa que não estará aceitando convites para uniões em mais nenhum canto do mundo esse ano, a menos que a festa conte com champagne japonês de flores de cereja. Medita aqui, às quartas, quando o jet lag permite.

6 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, festas phinas

6 Respostas para “Nem tão lost in translation, muitos encontros

  1. vini

    deu até vontade de visitar o japão e olha que não sou mto ligado no oriente.

  2. Muito bom o post! Nunca fui ao Japão, mas tenho um amigo que é nissei e mora há uns 15 anos lá e sempre compreendi que a polidez é algo intrínseco à cultura deles.

    Mas lá também tem uma taxa alta de suicídio. Será que eles não se cansam de ser simpáticos o tempo inteiro? “…mas sem jamais demonstrar um sinal de irritação ou impaciência”. Às vezes, como disse l’Andreis em outro post, é melhor colocar a irritação pra fora e chutar um pouco o balde…

    • Helena, acho que esse é o segredo que Dany e l’Andreis querem nos mostrar: quando ser cubana e quando ser japonesa.
      Já aprendi a ser as duas. Mas sempre encarno a entidade errada no momento errado. Affe.

  3. leo

    (Rodolfoooo, me serve um saquezinho, por favor?)

  4. Caroline Andreis

    ok, não vou casar este ano, então, dany. =)

  5. Di

    Quanta phinéssi essa moça!

    o texto? Ó-TE-MO, como sempre…

    Obrigado por compartilhar esses momentos phinos aqui!

    Beijão Dany

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