A brasileira perfeita

Que lindos olhos você tem

Que lindos olhos você tem

Por Dany Darko*

Um tempo atrás, um francês me disse que eu não sou uma brasileira típica. Sendo que ele classifica todas as criaturas que ele pega como “bem brasileira”, imaginei que o critério de classificação devia ser eu não pertencer ao rol de conterrâneas que ele tinha comido conquistado. Ou o tamanho da bunda. Mas não, é muito mais complexo que qualquer brasileiro possa imaginar.

As diferenças entre eu, a menos brasileira, e elas, as bem brasileiras, começam pela cor da pele. “Porque a brasileira típica é mais morena, gosta de sol, está sempre na praia se bronzeando”. Ou seja, né, é a musa do verão. Brasileiras do sul foram excluídas por conta do inverno. Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Rondônia, Acre, Amazonas e Roraima também não possuem brasileiras típicas porque um tsunami ainda não levou o mar pra lá.

Depois, as bem brasileiras passam longe do meu estilo. Segundo ele, apesar de a maioria das minhas roupas serem brasileiras, eu me visto como as francesas, que se vestem mal e são muito artificiais. Um doce de pessonha esse meu amigo. “A verdadeira brasileira é mais ousada, tem cabelos compridos e escuros, usa roupas mais curtas e justas”. Reconheceram? É a cigana Sandra Rosa Madalena.

Depois, as bem brasileiras têm atividades culturais e gostos diferente dos meus. “Os verdadeiros brasileiros gostam de carnaval, de ritmos tupiniquins, como axé, pagode, samba-rock, forró. Não se metem nesses buracos onde você vai.” E também não me meto nos buracos onde ele vai pra achar as gatchenhas dele: tenho medo. E completou: “gostam de dançar, rebolar, têm gingado”. Amigos phinos, não desfaleçam, mas talvez a brasileira perfeita seja a piriguete.

E, por fim, as bem brasileiras são simpáticas, alto-astral, estão sempre sorrindo e são muito felizes. O que não acontece comigo, claro, porque quem consegue sorrir com um abobado desse no seu pé? E alto-astral é a Xuxa! (Que também não se encaixaria na descrição do meu amigo da bem brasileira, por conta do biotipo europeu.)

Vejam bem o estereótipo criado com as minhas contra-características: para brasileira típica ser a Carmen Miranda, só faltou o cacho de banana na cabeça. E conhecendo a maioria das pintas que meu amigo francês pega, posso dizer que nenhuma se encaixa completamente nas descrições da “bem brasileira”. Porque, claro, a minha conterrânea típica só existe no imaginário dele e dos outros tarados, pervertidos, sem-vergonha. E a Carmen nem brasileira era. Então, concluímos: as brasileiras perfeitas são todas portuguesas.

E, entre a gente, amigos phinos, esgotou o repertório dessa história que ser ou não ser brasileiro é obedecer ao padrão praia, carnaval, futebol, corpo sarado. Assim como me queima as anteninhas encontrar conterrâneos orgulhosos porque não parecem brasileiros. “Aqui na França todo mundo acha que eu sou russa”, me diz uma aí. Nossa, que orgulho, não? Todo mundo sempre quis ser russo na vida, admitam.

Papo furado ou falta de conteúdo na conversa, sempre vão achar que a nossa nacionalidade não condiz com as nossas características. Se você é ruivo, vão achar que é irlandês. Se você é moreno, vão achar que é marroquino. Se você é mala, vão achar que é argentino. E não acontece só com os brasileiros, mas com qualquer um que esgotou o assunto e não tem mais nada de interessante pra falar.

Como me disse certa vez uma colega que me viu surpresa quando ela anunciou que era polonesa: “dispenso qualquer comentário sobre a minha nacionalidade baseada na aparência física”. Ela era morena jambo. Mas eu só tinha achado que o francês da moça era perfeito, nunca imaginaria que era estrangeira. Preferi me calar já que parecer francesa também poderia ofendê-la. Vai saber.

* Dany Darko acha que nacionalidade tem a ver com o lugar onde a gente nasce e só. Continua torcendo pela Argentina e pagando impostos no Brasil. Phina, às quartas, e rosa, nos outros dias.

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7 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, mulher (realmente) moderna

7 Respostas para “A brasileira perfeita

  1. Um dia, entra na aula em Londres uma colega nova: loira, olhos azuis, bunda mais pra G do que pra M, calça justérrima, simpática, falante. Sentou ao meu lado. Não tive dúvida, só podia ser gaúcha, e disparei em português um comentário sobre o professor.
    Era polonesa.

    • Paguei um baita mico com um amigo francês do petit-ami que eu jurava que era brasileiro. A criatura falava português tri bem, com sotaque paulista. Falei mal dos franceses em português e ficou aquele clima ótimo na mesa do bar. Ele ainda traduziu meu comentário para seus vários conterrâneos na mesma mesa.
      E aí tive certeza que ele era francês.

  2. Di

    só tu pra me fazer rir hoje Dany!

    ADOREEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEI!

    Eu, concerteza, não sou do ”tipo brasileiro” também!

    hehehehehe

    Beijãoooooooo

  3. vivi

    um cara me disse que eu não podia ser brasileira porque não tinha bunda grande.

    se meu chefe não estivesse por perto, jogava a bandeja na cabeça dele,

    ah, jogava.

  4. Caroline Andreis

    “dispenso qualquer comentário sobre a minha nacionalidade baseada na aparência física”

    Sou eslava e ninguém compreende. =)

    bjs, dany. saudades.

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