É tempo de dizer a verdade

I'm a driver, I'm a winner; things are gonna change.  I can feel it

I'm a driver, I'm a winner; things are gonna change. I can feel it

Lu Brüno*

No divã, estou aprendendo a duras penas a falar o que penso, tanto para a minha analista como para todos os outros seres de meu convívio social. Aprendi a deixar de pensar que sou só eu no mundo que: 1) tenho vergonhas; 2) sou estabanada; 3) gosto de quem não gosta de mim; 4) acordo gorda etc. Achava que as pessoas phinas não sentiam a insegurança que eu sentia, e eu queria manter minha poker face intacta. Já estava conseguindo mudar de atitude, sendo mais natural com a ajuda de alguns amigos cuja principal qualidade era a sinceridade para consigo mesmos e com os outros. Estava ficando cada vez mais fácil. Na teoria.

Só que outro dia minha psicóloga teve a chance de me aplicar, digamos, uma prova prática. Depois de eu ter passado quarenta minutos no trânsito para atravessar três quadras da Faria Lima, enfrentado chuva e fome, chego ao prédio do consultório dela e entro no elevador. Quando estava lá pelo terceiro andar, de repente, a luz se apaga e, logicamente, a caixa que teria de me levar ao quarto andar não se move. Penso comigo, otimista: “daqui a pouco volta ao normal”. Ledo engano. A minha preocupação maior não era nem com a sessão de terapia, mas com o encontro que eu teria com um gatinho mais tarde. Tentei não pensar nisso. Uma coisa de cada vez, não foi assim que nos ensinaram?

Após alguns segundos me conformando com a minha nova situação no mundo, pego meu i-pod para ter alguma iluminação e bato na porta de aço falando alto (não gritando, veja bem): “alo-ô, estou presaaaaa!”. Minha psicóloga — sabendo que eu estaria subindo, pois o porteiro interfonara — pergunta do andar de cima: “Luciana?? Espera aí que eu vou pedir ajuda”. Espero. Como se tivesse outra escolha.

Já ficando sem paciência com mais uma peça que o deus todo poderoso me pregara, abro a primeira porta, aquelas de aço divididas ao meio. Percebo que estou parada praticamente no terceiro andar, apenas um degrau abaixo. Tento a segunda porta de aço, mas só consigo abrir uma fresta de meio palmo, por onde entra um pouco da luz de emergência do hall.

Algumas pessoas que desciam a escada tentam me ajudar. Puxam a porta, duas de cada lado. Ela não cede. Juro que nessa hora pensei no SUPER-homem e no homem-aranha, mas meu SUPERego, como sempre, foi mais forte que todos eles e controlou rapidinho meu id criativo.

Eram 19h15, e eu estava trancada no elevador. Só pensava em uma coisa: preciso sair daqui até pelo menos 20h para conseguir chegar às 20h20 na Paulista, onde encontraria o garoto do qual estava muito a fim. Continuei mantendo o pensamento positivo. As pessoas cujos rostos nunca vou saber, junto de minha psicóloga, ligaram para a ThyssenKrupp, que produzira o referido elevador, e para os bombeiros.

Mas as coisas não estavam saindo tão bem quanto eu previra. Já eram quase 20h – estava presa havia 40 minutos. Meu celular começa a tocar. Era o menino. Não tive a coragem necessária para atender e dizer: “oi, desculpe, vou atrasar porque estou trancada no elevador, esperando os bombeiros”. Era ser muito loser numa noite só. Tudo bem que eu estava na minha fase de tentar dizer SEMPRE a verdade, mas aquilo já era demais. Ainda mais na frente da minha analista. Ele liga de novo. Não atendo. Então falo para a terapeuta, através da porta:

— Olha só, você que é minha psicóloga, precisa me ajudar nessa. Tenho um encontro daqui a pouco, ele já está me ligando, o que eu faço?
— Encontro com quem?
— Com fulano — não entendi a pergunta, será que fazia alguma diferença ou ela estava só curiosa mesmo?
— Bom, se ele está tão a fim, você tem que considerar a possibilidade de, se você disser a verdade, ele tentar vir aqui ajudar você a sair. É isso que você quer?

Não acreditei naquela resposta. Faria sentido algo assim se estivéssemos em 1940, quando o nível de cavalheirismo médio deveria ser beeem maior. Hoje, nem se a mulher estiver grávida os caras ajudam, imagina na situação em que eu me encontrava. Respirei fundo, tentando ser educada depois da resposta non sense.

— Não, não quero. Vou pensar em alguma desculpa.

Toca o celular de novo e vem uma mensagem: “você vem ou não?”. Fico com dó. Era muita mancada não responder e só dar sinal de vida horas depois, como tinha pensado em fazer. Resolvo ligar para ele, só que estava sem crédito, pra completar o meu dia de azar. Esqueço que a minha relação com a psicóloga é apenas profissional e, humilhada, peço, mais uma vez, ajuda:

— Me empresta o celular?

Ela não faz perguntas e enfia o dito cujo na fresta do elevador, solícita. Eu ligo e digo, curta e grossa:

— Olha só, acabou a luz aqui. Tô presa no elevador há quase uma hora. Vou atrasar com certeza. Agora cabe a você decidir se me espera ou não.

Ele disse que me esperava, sim, mas respondeu com uma voz desanimada de quem não estava acreditando muito na história. Minha psicóloga não fez nenhum comentário. Talvez na cabeça dela, eu, no fundo, queria que ele viesse me salvar, como o super-homem. Não era isso. Na verdade, eu taquei o foda-se de vez. Pensei que, se alguém tiver de gostar de mim, vai gostar do jeito que sou, mesmo nos meus dias de agosto. Não vou ficar fingindo que minha vida é uma sucessão de bons acontecimentos, porque, não, amigo, não é. E aposto que a sua também não! Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro, como diria Wander Wildner.

No final das contas, a luz voltou depois de 1 hora lá dentro, e eu saí do elevador. Encontrei minha analista nas escadas e a primeira coisa que perguntei foi:

— Você mudou o cabelo?
— Não, você é que está vendo a vida de uma forma diferente — disse, brincando, obviamente.

Eu estava cheia de adrenalina. Peguei um táxi e conversei horrores com o motorista sobre o que tinha acontecido. Cheguei no bar, e o menino estava lá, me esperando meio desanimado. Pedi desculpas mil vezes. Ele entendeu, mas disse que não teria acreditado na história se eu não tivesse aparecido. Tivemos uma noite legal, e eu fiquei orgulhosa de ter falado a verdade. Ele percebeu o meu modo de encarar as coisas e, num momento de uma conversa sobre exercícios físicos (!!!), me disse, meio tímido:

— Eu tenho um pouco de gordura localizada…
— Hum, eu também.

Nessa hora pensei que, talvez, essa história de dizer SEMPRE a verdade tenha um certo limite. Caso contrário, as pessoas e a vida seriam bem menos interessantes do que imaginamos. Enfim, eu estava no 8. Estou migrando para o 80. Talvez uma hora chegue no 40.

*Lu Brüno é über magra, mas acorda über gorda de vez em quando. Vai dizer umas verdades aqui sempre que julgar pertinente.

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5 Comentários

Arquivado em contribuição phina, diálogos com PH, lição de vida, mulher (realmente) moderna, relaçã? sã?

5 Respostas para “É tempo de dizer a verdade

  1. gente nova no pedaço. seguindo o nível do estabelecimento. bem vinda! (com ou sem -?!)

  2. essa é daquelas narrativas tão boas que parecem mentira. por sinal, para quem mais tiver dúvida como eu, Rafa atesta que é tuuuuudo verdade.

  3. Di

    ADORO gente novo e conhecimentos novos… sem contar que ADORO os que sempre estão por aqui!

    😉

    Lu, que dia heim! O menino deve ganhar uns pontos positivos por esperar…hehehehe

    Abraço

  4. Contribuição de primeiríssima phinesse. Saudade de La Brüno.

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