Samba de Orly

é o Braziu na Zoropa

é o Braziu na Zoropa

Por Dany Darko*

Dia desses, no campus, ouvi um grupo de estudantes alemãs conversando, e, embora não entenda lhufas de nenhuma língua germânica, desvendei o programa das loirosas para aquela tarde. Elas iriam almoçar no restaurant universitaire, depois passar na bibliothèque, falar com a directrice de uma unité sobre prête de mémoires de psychologie de sei lá qual área (isso num intindi, também não sou tão stalker assim, né) e depois voltariam para o centre ville… bla bla bla (não prestei atenção em mais nada que um carrinho de Häagen-Dazs devia estar passando).

Achei engraçada a conversa metade língua materna, metade na língua do país atual. E nunca tinha percebido isso entre brasileiros até comparecer a um barbecue de uma colega na semana passada e me dar conta da bizarrice da situação. « Comprei um gâteau d’anniversaire », « quando vai ser sua inscription? », « minha soutenance é na semana que vem », « nos vemos hoje na soirée ». Ninguém parecia incomodado pela conversa híbrida, ao contrário, tudo fluía bem naturalmente.

O mais engraçado foram as apresentações. Essa é a Daniellá, esse é o Rodrrigô, o Gabrriel é da Ingénierie, a Manuelá é da Administration e por aí vai.

Um fenômeno parecido acontece comigo há um tempo: o de não achar palavras equivalentes para me expressar. Eu não fico mais chateada, mas me sinto gênée, consegui télécharger um seriado na internet, é muito mais simples falar soldes que liquidação… Fora que a chauffage (calefação) virou chofagem, gynécologue é a ginecóloga e uma bancária quase me deu uma surra de talão de cheque quando ela finalmente entendeu que eu não estava conseguindo preencher um formulário por conta da falta de espaço. Eu dizia que não tinha casiers suficientes e ela ficava me olhando com uma cara de « tu é louca de pedra ». Em casa, descobri que casier nada tem a ver com as casinhas dos formulários; significa armário. Dã.

À parte da língua, vejo que a situação se encaixa também para o comportamento. A gente acaba incorporando uma atitude daqui, outra dali e a convivência com o povo nativo induz a certos atos e reações. Já não sei sair de um lugar sem o tal do merci, bonné journée, au revoir. E esses dias achei um absurdo um vizinho ter passado por mim sem ter dito bonjour. Afinal, o que eu aprendi com a boa educação francesa é cumprimentar o próximo. Amém!

Enfim, acredito que todo mundo que tenha passado um tempo fora da terra natal se identifique com esses relatos de hibridação de nacionalidades. No barbecue que fui no final de semana, ouvi vários sobre as diferenças encontradas na volta para o Brasil (já que junho, julho e agosto é o fin de l’année por aqui e todo mundo aproveita pra viajar e visitar a famille).

A maior reclamação é daquela sensação básica de deslocamento, o encontrar tudo tão igual, mas tão diferente, a evidente inadequação. Sensação, aliás, que não está tão distante da vida e adaptação ao estrangeiro.

Ou seja, no fundo, esse sentimento é o mesmo; o que muda é o endereço e o telefone. Já a saudade, palavra para a qual não existe tradução, continua lá, quietinha, esperando o momento para o fim. Seja na ida, seja na volta, que todo o ser híbrido, além de comer saucisse com caipirinha de cachaça importada no barbecue, também tem o coração dividido.

*Dany Darko acordou sentimental e também queria feriado de 7 de setembro. Tem uma estranha liaison com o último pacote de pão de queijo do estoque e está vendendo a alma por 01 brigadeiro (antes que comece a escutar pagode). Viaja, aqui, todas às quartas, com atraso por conta da décalage d’horaire.

4 Comentários

Arquivado em É o Brasil!, correspondente internacional, Dany Darko

4 Respostas para “Samba de Orly

  1. vini

    eu sempre foi híbrido e misturo idiomas e acho muito bom. é a tal da globalização não? =)
    e realmente tem coisas que não se traduzem, logo a gente procura a melhor língua para expressar.
    e eu quero falar francês super fluentemente um dia.

  2. Vini querido: e nesse dia, quando tu falar francês fluente, tu me ensina também, por favor! =D

  3. Dany,

    eu tô dying de saudades de ti!!!!!

    Beijos

  4. Hahahahahahahaha! Não tinha visto esse comentário do Rafa Bundchen!
    Me phino de rir!

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