Itália, Dinamarca e um continente a escolher

Madeleine Peyroux pergunta: por que vocês ainda moram aqui?

Madeleine Peyroux pergunta: por que vocês ainda moram aqui?

*Por L´Andreis

Há alguns anos, a cantora Madeleine Peyroux esteve em Porto Alegre a perguntar, no meio de um de seus shows, se a platéia conhecia grandes cidades como Paris e Nova York. Surpresa com a resposta positiva de seus espectadores, ela continuou: então, por que vocês ainda moram aqui?

Não sou daquelas que acha que vale até virar travesti para casar com um europeu endinheirado e curtir o sol de Mônaco no lombo lipospirado, mas claro que tenho encanto pelo Velho Continente.

Como os leitores mais espertos já perceberam, sou de origem italiana, e aquele mash up de Berlusconi VS. Claudia Cardinale que habita em mim ulula de orgulho. Gosto de ser expressiva (quase histriônica), da dramaticidade, dos gestos, das explosões. A italianidade que se identifica com os filmes de máfia, com Fellini e Mastroianni e, longe de lá, nem se preocupa com o Gomorra. Aceito meu lado italiano como se deve, com romantismo, por isso adoro o musical e vou adorar o filme Nine.

Não é por esse bando de mulher gostosa, não. Uma das passagens favoritas do musical é o encontro do pequeno Guido com a prostituta (que no cinema será interpretado por Fergie) que lhe ensina sobre o amor. Em música e dançando tarantela (batendo o pandeiro nas partes do corpo certas), ela explica ao menino porque “Ti voglio bene” é a melhor maneira de dizer que se ama uma mulher. O eu te amo das outras línguas é etéreo, bonito demais, quase religioso. Agora, “ti voglio bene” é efêmero e carnal. Tu queres ali, na hora, mas significa muito.

Mais pra cima no continente, meu orgulho é a terra de Lars Von Trier. A loira e fria Dinamarca produz uma arte menos dramática mas nem por isso contida. Gente bonita, tempo frio, e o país mais feliz do mundo. Parece que, por lá, eles conseguiram o capitalismo perfeito. Mas do que social e outros rótulos, o que aconteceu de bom é exatamente o que as pessoas construíram entre si.

O instinto de competição foi congelado e, por lá, trabalhar além das 17h faz de você um incapaz que não conseguiu terminar na hora certa. Ao terminar o colégio, os jovens são incentivados a morar fora de casa com amigos e/ou namorados, ter um ano sabático, viajar, trabalhar em qualquer área ou ainda podem fazer disciplinas na Peoples College, as quais eles não precisam necessariamente determinar o seu futuro, só o presente. Quase italiano. Errar até os 30 é aprendizado por lá.

Respondendo a pergunta da Madeleine, lá de cima, eu ainda moro aqui porque a Dinamarca não desceu até a Itália. Eu queria a Capri ensolarada, efêmera, e exagerada, mas com a mente escandinava. Até entregava o Berlusconi pra eles jogarem no mar gelado.

*L’Andreis se sente bem em qualquer lugar porque, antes de italiana, é uma Polyana; porém, viraria travesti se o Lars Von Trier mandasse. Segue aqui toda quinta e no twitter (@carolandreis) diariamente, até que Copenhagen encontre Roma.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Itália, Dinamarca e um continente a escolher

  1. nunca ninguém me disse “ti voglio bene”. será que é porque eu nunca fui pra itália? será que lá tb vão me achar com cara de polonês… Ai, ainda prefiro a Alemanha e os novos artistas que parecem sujinho mas são bem limpinhos.

    beijos

  2. SS

    Madeleine, a gente ainda mora aqui porque a Itália mora na gente, cappice?

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