O dia em que o cuscuz substituiu o foie gras

Bota água no feijão, pelamor!

Bota água no feijão, pelamor!

Por Dany Darko*

Uma das emissões de televisão mais populares da França é o reality show (tradução: programa de realidade) Dîner Presque Parfait (tradução: Jantar Quase Perfeito). O programa reúne, toda semana, cinco candidatos de uma determinada cidade ou região francesa, e cada participante deve preparar um jantar para os demais com aperitivo, entrada, prato principal e sobremesa. A decoração do ambiente e o clima do jantar também são avaliados pelos candidatos. O vencedor da semana leva pra casa mil euros.

Calorias à parte, o que me chamou mais atenção no Dîner Presque Parfait (preciso traduzir de novo?), logo que descobri a emissão, foi a intransigência dos participantes franceses. É uma diversão só vê-los se debatendo pela vitória no programa, criticando detalhes mínimos do jantar, do comportamento dos colegas e a revolta quando encontram a derrota.

Esse reality show que denota um dos maiores orgulhos franceses, a culinária, também dá margem a algumas características da personalidade desse povo, que é tão criterioso como mal humorado. Uma das reclamações mais memoráveis foi de uma participante que destruiu o jantar de um colega porque sua decoração de mesa era em tons vermelhos, cor que a francesa abominava. Também me diverti com a atitude de um participante que perdeu o apetite porque a entrada estava fria e se negou a comer durante todo o resto da refeição.

Comentei com amigos franceses que o programa jamais daria certo no Brasil. Primeiro, porque eu acho que não temos lá essa vocação para reclamações e/ou destruição alheia. Segundo, porque não somos um povo competitivo a ponto de levar uma janta para uma disputa de egos. Muito menos pela mixaria de mil euros. Todo mundo ia achar tudo lindo, maravilhoso, e a soirée (tradução: evento noturno) ia virar uma festança, que ia acabar de manhã, com todo mundo dançando, abraçado, e se querendo.

A edição do final de semana passado do programa comprovou a minha teoria. Stela, uma professora paulista de 36 anos que vive em Le Mans, região noroeste da França, encantou os participantes e a produção do Dîner Presque Parfait não só com a culinária brasileira, mas com sua simpatia. A participação da brasileirinha pétillante (borbulhante), como foi apelidada no programa, trouxe outro clima para as soirées dessa edição pela animação e o otimismo.

A edição do programa se divertiu destacando os comentários e as risadas da paulista, que se desdobrava em elogios pelos colegas. « C’est super! » (tradução: é super! ) e « J’adore! » (tradução: eu adoro) viraram chavões do programa por conta das vezes que Stella aplaudiu o desempenho dos participantes.

A recíproca foi tão verdadeira que a soirée da brasileira foi a vencedora do final de semana. No dia em que a feijoada substituiu o foie gras (ai, olha na wikipédia, vai!) e conquistou os paladares de seus convidados, teve até francês encantado com o carisma da moça. Em um dos trechos do programa, um concorrente garantia que Stela e ele tinham uma conexão especial, já que eles trocaram tantos olhares e sorrisos. Na página do profile da moça, também chovem declarações dos admiradores da simpatia da loirinha de franceses desacostumados com bom-humor e a expansividade.

(Confira aqui o menu preparado por Stela)

E, orgulho brasileiro – que também não é pequeno – à parte, é confortante quando um conterrâneo faz bonito. Vocês sabem que meu ceticismo não permite que eu seja desses nacionalistas que morrem enrolados na bandeira. Mas também não deixo de reconhecer que, em termos de generosidade e humanidade, a gente dá de mil a zero neles. Ou, como bem definiu uma amiga francesa, o jeito dos brasileiros faz chaud au coeur (tradução: calor no coração). Tão bonito! Fiquei até com vontade de beber caipirinha.

dany_avatar*Dany Darko não come foie gras, escargot, coelho e ostra porque seu chaud au coeur é contra malvadeza aos bichinhos. Mas mistura champagne com caipirinha, aqui, todas as quartas, e , quando dá.

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6 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, dica culinária, fica aí a dica

6 Respostas para “O dia em que o cuscuz substituiu o foie gras

  1. “Uma das reclamações mais memoráveis foi de uma participante que destruiu o jantar de um colega porque sua decoração de mesa era em tons vermelhos”

    Concordo e acho justo.

    “um concorrente garantia que Stela e ele tinham uma conexão especial, já que eles trocaram tantos olhares e sorrisos.”

    Preguiiiiiça!

    Na real, achei a Stela meio chatinha.

    Amei a coluna.

    Besos

  2. vini

    eu adoro ler textos de dany =)
    saudades deles.
    enfim, ao mérito.
    eu odeio tudo que a stela preparou. feijoada e maracujá são coisas que nunca como e não gosto mesmo.
    e eu acho que tenho um mau humor e sou crítico e chato igual a um francês. só preciso ir pessoalmente verificar isso.
    e foie gras é maldade mesmo, não comeria never ever.

    o bom mesmo é massa e viva a itália. \o/

  3. Caroline Andreis

    Legal que acham que a simpatia da moça é flerte.

    =)

    adorei.

  4. Aqui na Alemanha também tem um programa assim, “Das perfekte Dinner”. Aos domingos tem uma versao longuíssima, com umas 3 horas de duracao e celebridades B (“Das perfekte Promi Dinner”).
    Eu gostava de assistir, mas me enchi um pouco do comportamento dos concorrentes, que ficam xeretando a casa enquanto o anfitriao cozinha…

  5. Congratulations on your blog. Visit me and see a lot about culináriae revenue. http://artedecozinhar.blogspot.com/ Best Regards

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