Carta aberta ao Sr. Inventor do Verbo Ficar

Por L’Andreis*

Porto Alegre, 5 de novembro de 2009.

Prezado Senhor Inventor do Verbo Ficar,

Completei, no mês que passou, 16 anos de convivência com sua invenção. Lembro muito bem da primeira vez que a vi de perto. A cena não era nada glamourosa, já era um sinal. Em um sofá do salão de festas do edifício Parque do Sol, em Litlle Italy, minha volta-e-meia melhor amiga beijava um moço tão louro quanto ela, porém equivalente à metade da largura do seu corpo. Para completar, a menina tinha quebrado a perna (coxão!) e estava com o gesso apoiado na mesa logo em frente. Apesar da visão bizarra, acabei “ficando” com o dono da festa, pessoa muito querida e atual REI da calefação em Campos do Jordão (bj, Lucas!). Assim, no mesmo dia que soube o que era, caí nesse redemoinho.

Tenho certeza que o senhor não está surpreso com esta carta. Ela tem como companhia uma série de livros (na maioria de filosofia francesa contemporânea) e 1.102.993 canções pop de todo e qualquer país ocidental. Além, é claro, de milhões de pais e avós que já se assustaram com tal coisa. O pedido vem da mesma constatação: fudeu. Não dá certo. Não dá mais. Não dá pra trabalhar assim. Cansou. Perdemos. Bandeira branca. S.O.S.

Eu não sei o que o Ilmo Senhor tinha na cabeça quando inventou isso. Se foi o velho e bom instinto masculino de espraiar a semente, lamento muito, nem eles aguentam mais. Ninguém mais sabe o que fazer. Estamos todos perdidos, sem qualquer noção de limites e fronteiras. Nossos amigos não respeitam nossos sentimentos por causa da sua definição. Nossos amantes não respeitam porra nenhuma por causa da sua definição. Nem nossos pais respeitam qualquer coisa quando o verbo ficar é colocado na roda. Sinceramente, nem a gente mesmo se respeita.

Longe de mim falar mal da revolução sexual, acho muito bonito o amor livre, principalmente quando é o meu amor livre, o que inclui escolher ficar com uma pessoa do jeito que eu quero, pelo tempo que eu quero, sem maiores complicações e adições. Mas não venha o Senhor me dizer que pensou em todas as variáveis quando criou essa patifaria, porque eu já pensei. Em todas.

E mesmo nas melhores condições de tempo e pressão, sua invenção é um risco pra corpo e alma. É uma maldade para o individuo, completamente esmagado pelo querer do outro, sem chance de manifestação sem parecer pity, antiguidade, caretice, neurose, psicose. Agride fazendo de conta que não. É frio querendo ser puro tesão. Jura que não é compromisso, mas pede que tu te dê muito mais do que se fosse. Enfim, meu Senhor, ficar por ficar é a maior mentira da humanidade.

Peço encarecidamente que o Senhor venha a público dizer que sua invenção não funcionou. Que, depois de duas gerações, 22.789.541.227 corações quebrados, 3.954.367 filhos de onenightstand, alguns suicídios e um disco inteiro da Scarlett Johanson, pode-se inferir que é um fracasso completo.

Agradeço sua atenção e aguardo notícias suas. E, por favor, sem novas invenções. Viver já era bem complicado antes.

Att.,

*L´Andreis tem compromisso com o EBDP toda a quinta, mas fica com o twitter quando dá vontade (@carolandreis) porque acha ele divertido. Acredita no amor, livre ou algemado (dizem que prefere o algemado).

11 Comentários

Arquivado em L’Andreis, lição de vida, relaçã? sã?, suplicando com phinesse

11 Respostas para “Carta aberta ao Sr. Inventor do Verbo Ficar

  1. Mas e agora, comofas?

    A única vez que uma relação amorosa deu certo comigo eu não fiquei. Já comecei namorando, sem saber se o sexo seria bom. Descobri depois que era. Isso que eu já tinha 21 anos.

    Depois de dois anos, resolvi que eu precisava “ficar”.

    E fiquei sozinho, até hoje…

  2. tô contigo. façamos abaixo assinado?

  3. Di

    ai, ai, ai…
    é um assunto que me machuca tanto, que em sei o que comentar, portanto, vou falar do texto, e não do assunto dele.

    Carol, ARRASOU! texto MARA, falou de algo que machuca, com um texto bem humorado e verdadeiro.

    Beijão e vamos nos encontrar pelas esquinas da vida portoalegrense!

    😉

  4. Caroline Andreis

    Bora fazer abaixo assinado, galere.
    Obrigada, Di.

    bjbj

  5. nandaobregon

    Amei o texto, como sempre.
    Bem-vinda a clube que criei esse ano. É o Clube da Mulher Antiquada.

    .

    Será que o ficar não precisa de uma regra matemática & tradicionalíssima tipo a dos encontros?

    Tipo, fica três vezes na terceira transa.
    Transa três vezes, na terceira decide se namora ou não.
    Namora três anos no máximo e decide se casa.

    .

    Fica a questã.

  6. emi

    ahn

    nao irei

    clube da mulher antiquada < enfim

  7. Adorei o texto.
    Sensato e digno. Alem de phino, claro!

    Beijos

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