A hora de voltar

Daddy's home!

Daddy's home!

Por Dany Darko*

Eu sempre imaginei a minha volta para o lar nos mesmos moldes da experiência de Andrew Largeman do “Garden State” (traduzido no Brasil como “A Hora de Voltar”). Na trama, depois de dez anos longe da família, o garçom e aspirante a ator, vivido por Zach Braff, retorna à casa dos pais, se depara com situações novas e antigas e encontra até um novo amor.

Tudo bem que eu estava só (só?) há dois anos longe de casa, que eu deixei muito mais obrigações no lado de cima do mundo que um job em um restaurante tailandês e que eu estou muito bem com meu petit-ami, mas a minha hora de voltar foi tão reveladora e renovadora quanto as aventuras de Largeman.

Quem saiu do seu local de origem e voltou depois de um bom tempo sabe bem do que eu estou falando. Não foi dificil me reconhecer naquilo que eu já nem lembrava mais que existia ou o que representava, ainda que eu acordei durante duas semanas seguidas com a barriga roncando de fome às três da manhã sem a menor ideia de onde eu poderia estar.

Nos primeiros dias, tive dificuldade com a língua e andava pelas ruas estranhando o português e surpresa com a quantidade de brasileiros por aí. Não por acaso, eu estava no sul de Santa Catarina dando risada cada vez que alguém me abordava com um « mocinha, ô mocinha! » e não com um « excusez-moi, mademoiselle », esbarrando nas pessoas e pedindo «pardon », sendo constantemente corrigida pelas enjambrações e adaptações francês-português.

Esse escritor é muito celébre – disse eu.
É muito o quê? – riu meu interlocutor.
Celébre.
Sê lebre é o coelho. O certo é célebre.
Ok, ok. Então me avisa com avanço se tu vais querer o livro dele.
Avanço só o desodorante. Acho que tu quiseste dizer com antencedência…
Ain, é culpa do fuso (vergonha, muita vergonha).

Mas além das redescobertas linguísticas e culinárias (como eu consegui sobreviver dois anos sem churrasco?) e de toda a culpa destinada ao fuso, percebi o quanto me fez falta essa receptividade, a conversa solta, o sorriso fácil e todo esse otimismo que « só a gente tem », me disse uma tia que nunca saiu do país.

Tudo bem que essa não é a melhor época para ser patriota com a insegurança borbulhando em qualquer canto do país, a corrupção batendo as tamanquinhas na nossa lata e Geisy Arruda sendo expulsa da universidade por conta do tamanho de um vestido. Em alguns momentos eu juro que pensei que ainda bem que eu vivo do lado de cá, embora eu continue pagando meus impostos em solo nacional.

Ainda assim, trouxe para cá o melhor que eu pude, além de cachaça, doce de leite e erva-mate encomendada pelo povo gaúcho daqui. Porque o melhor de voltar para a casa no Brasil (já que, depois de dois anos e meio, também me sinto em casa aqui acima dos trópicos, mas não da mesma forma) é se sentir ainda dentro de casa, como se eu nunca tivesse saído de lá. Mesmo que, a cada vez que eu abrisse a boca para dizer não importa o quê, todo mundo me perguntasse de que planeta eu vinha, voltei para a outra casa com a certeza que origem nasce e morre conosco.

E assim, retornei radiante para os Alpes, não porque tem sol lá fora (motivo número 1 da felicidade europeia – fenômeno que acontece, às vezes, entre os meses de julho/agosto), mas porque eu percebi o quanto pode ser phino ser brasileiro. Porque phinesse é quando eu abro o sorriso e digo que tudo vai dar certo, todo mundo sabe de onde eu venho.

E daí dá tudo errado, claro.

*Dany Darko chegou em ritmo de axé de volta à França, mas ninguém deu bola porque todo mundo está blasé por conta do frio. Aqui, com amor sobrando até o final do inverno europeu, às quartas.

Anúncios

5 Comentários

Arquivado em É o Brasil!, correspondente internacional, Dany Darko, diálogos com PH

5 Respostas para “A hora de voltar

  1. Será que esta coluna seria a mesma depois do apagão? socorro dani, pânico no brasil!!

    pena que não nos vimos. saudadeeeeeees.

  2. como em todos (eu disse TODOS) os países, temos nossas falhas. mas origem é isso, vai pra qualquer lugar conosco…

  3. O problema é que nem sempre a origem é uma boa companhia, né, Alice? Mas dessa vez não tive do que reclamar não (deixei o espírito francês em casa… ehehehehe!) 😡

  4. Di

    Coisa boa!

    A casa da mãe, sempre será nossa casa!

    =)

    Beijão Dany e dá próxima vez vamos marcar algo por aqui. Purfaaaaaaaaaaaaaaaa

    😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s