Filosofoia de boteco para grávidas

decida você

decida você

*Por Vini

É tudo uma questão de perspectiva, não é mesmo, minha gente? Aquela velha história: o copo está metade cheio ou está metade vazio?

Tenho uma séria desconfiança das pessoas felizes, especialmente pela manhã. Eu, no auge do estresse universitário, chegava para malhar arrastado com a cara amassada de sono e a instrutora me desejava “bom dia”, saltitante feito uma gazela que acabou de sair da aula de jump. E eu olhava para os halteres, olhava para os céus e me perguntava: “por que, senhor, por que ela me elegeu para dar bom dia e socializar a essa hora, sendo que eu ainda não estou verbalmente articulado o suficiente?”

Sentimentos noctívagos e antimatinais à parte, eu sou mal humoradozinho. Sou irônico e sarcástico e, sim, farei piadinhas sempre que achar conveniente. É assim que vejo o mundo, e ele não é pintado de cor-de-rosa.

E sou pessimista. E existencialista. E complexo. Talvez não por opção e sim por formação. E isso vem desde antes. Muito antes. Vem do útero, creio.

No oitavo mês de gravidez, a placenta descolou. Para os mais desavisados e que não lembram de biologia, a placenta serve de canal para passagem de nutrientes e tudo mais da mãe pro filho. Imaginem uma criaturinha rosada nadando no amorfo líquido materno e sem possibilidade de receber o básico e vital. Danger, Will Robinson, Danger.

Eu posso estar errado, mas ser prematuro no oitavo é mais difícil que no sétimo mês. Acho que é mais fácil sair no sétimo do que depois. ACHO. Médicos que me leem que me corrijam. Enfim, eis o desfecho: mãe ficou imóvel quase um mês para a placenta não sair do lugar. Ter um natimorto deve ser uma das coisas mais tristes da vida, e nem tenho útero e nunca carregarei nada nem ninguém no ventre.

Apesar dos pesares, vim a este mundo cruel. Saudável e com uns 2kg e 700, por aí.

Eu posso pensar que fui sortudo, afinal, nasci. Ou posso pensar que desde o útero luto pela sobrevivência e me dei relativamente bem. O útero foi meu primeiro copo.

Ou o copo está cheio porque bebemos metade dele, ou porque nos deram apenas uma metade. Podemos estar satisfeitos com a metade bebida. Podemos ter sede, querendo a outra metade que nos falta.

A metade é ambígua e não é inteira. Ela é um lado de dois. Se você sabe que a outra metade existe, você simplesmente ignora a existência da outra metade e aceita o que tem? Ou corre atrás até ter um inteiro?

E já aviso, caros leitores, que não falo de cara-metade, alma-gêmea e toda essa viadagem. Estou mais abrangente e profundo, obrigado. Aristóteles cunhou aquela máxima que acabou impregnando o pensamento ocidental: “a virtude está no meio termo”. Nem 8 ou 80, talvez um 44. Um copo pela metade, talvez?

Sócrates não hesitou e bebeu a cicuta inteira, morreu lutando no que acreditava.

Platão, discípulo de Sócrates, era apaixonado por este e nunca superou a morte de seu mestre. Fato líquido e certo para mim, como o líquido amniótico. Por isso inventou toda a baboseira no mundo inteligível superior a nossas formas sensíveis. Bem ou mal, ele fundamentou nossa busca pela perfeição que, supostamente, se encontra fora deste plano terreno.

Aristóteles, por sua vez, foi discípulo de Platão. Inspirou até Santo Agostinho, o qual serviu de base para a doutrina filosófica da Igreja Católica na Idade Média. E nem vou entrar no mérito da influência de Papa e seus Cardeias no nosso ocidente.

Pois bem, Shakespeare, entre o céu e a terra há mais coisa do que sonha nossa vã filosofia.

E milênios desde Sócrates, Platão e toda a galera grega, a filosofia pouco nos responde sobre as coisas debaixo deste firmamento ligeiramente anil.

A existência é cheia de copos pela metade, nos espreitando e provocando, querendo saber se vamos deles beber ou se vamos procurar outro drink para matar a sede.

*Vini, o existencialista, não estava embriagado ao escrever este texto e recomenda a todas as gestantes que fiquem longe de copos contendo álcool durante seus nove meses de gravidez.

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Arquivado em contribuição phina, lição de vida

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