Nem tudo são soldes

O retorno das promoções: nem tudo estava à venda

O retorno das promoções: nem tudo estava à venda

Dany Darko*

Começo de ano é época de sales na Zoropa. Ou soldes, como dizem os franceses – as famosas PROMOÇÃS pós-festas. Confesso que eu não tenho lá muita paciência nem para fazer compras de Natal e minha sociopatia sua na neve só de ver as lojas lotadas pelo consumismo exacerbado. Mas o aniversário de uma amiga se aproximava e decidi que eu também merecia um mimo pelo esforço de ir à caça de um presente nessa maldita época de aquisições desesperadas.

(In)felizmente, não consegui entrar em algumas lojas porque tinha deixado minha armadura de ferro em casa. Pensei em entrar em uma loja de esportes para comprar luvas de boxe antes de encarar o desafio. Mas essas também estavam atrolhadas pelos pobrinhos do esqui.

Tive medo.

Galeries Lafayette sempre tem um pouco de glamour, certo? Não, errado. No hay brilho nenhum que se equilibre no salto nas épocas de solde. No stand da Levi’s, jovens se acotovelavam em busca do jeans com desconto de 5%. Na Cop.Copine, os preços eram os mesmos das épocas normais – o que contrastava com a anormalidade do comportamento das peçonhas. No stand da Diesel, uma atendente chegou com um imenso caixote de papelão. A euforia era tanta que tinha française dentro do caixote antes mesmo de as roupitchas serem despejadas por cima do balcão, do jeito que fosse possível.

O clima não poderia estar mais Veneza, Praça São Marcos, milho aos pombos. Na Princesse Tam Tam, me aventurei em provar uma camisa. Mal entrei no vestiário e alguém batia na porta, impaciente para entrar. Não tive estômago nem para vestir a peça. Na saída, fui interpelada por uma criatura que não tinha mais braços para segurar tanta roupa.

– Você vai ficar? – me perguntou, esbaforida.

– Deusulivre, estou indo embora agora mesmo.

– Perguntei se você vai ficar com a camisa.

– Ah, não, vou colocá-la de volta no cabide.

– Não precisa, eu vou comprá-la.

– Assim mesmo, sem provar?

– Em época de soldes, não se perde tempo nos vestiários. Enquanto eu estou provando, podem chegar novas mercadorias na loja.

– Ah, entendi. A camisa é toda sua, então. Você merece!

Feliz com a minha boa ação do dia, voltei pra casa sem o presente para a amiga aniversariante (excesso de caridade vira esmola). E o meu mimo foi uma linda salada da épicerie da esquina. Afinal, se eu não tenho vocação para economias de inverno, ao menos seguro as calorias para estar LIENDA para a coleção da primavera. A mais triste constatação desse dia de soldes é que dignidade nunca está na PROMOÇÃ.

*Dany Darko não é patrocinada pela Levi’s, Cop.Copine, Diesel ou Princesse Tam Tam, mas avisa que estará aceitando agradecimentos a sua generosidade publicitária, pelo correio, no tamanho 38. Normalmente às quartas, e, ocasionalmente, só hoje, no EBDP.

5 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, moda versus phinesse, vergonha alheia

5 Respostas para “Nem tudo são soldes

  1. Medo de fazer compras em Paris. A galere de cintão DOLCE & GABANNA a 10 euros me assusta. Por isso, eu só vou em boutique roots quando estou na capital francesa.

  2. vini

    o detalhe dos míseros 5% de desconto é a prova cabal do descontrole.

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