Miss Sadness and Me


Só as divas conseguem

Por Vini*

Eu queria escrever um texto alegre, descontraído e, quiçá, feliz. As ideias estavam todas anotadas no meu novo caderninho verde neon limão que comprei para exatamente isso: captar as ideias assim que elas me vêm, em qualquer lugar, em qualquer hora. Mas ao sentar para escrever esta coluna, me bateu aquela tristeza existencial que os escritores têm ao contemplar o cosmos. E, confesso, há horas que bem gosto dela.

Tenho que ser coerente. Se tentasse dar vida ao meu texto feliz, natimorto seria. Ainda há tempo para ele vir ao mundo. Vamos deixá-lo em gestação por mais alguns dias. Afinal, o útero é um lugar quentinho e confortável, até mesmo para os meus pensamentos.

Voltemos nossa atenção à nossa convidada da noite, Srta. Tristeza. Ela é exigente e pede a companhia adequada. Como bom anfitrião que sou, tratarei bem dela.

Ofereço a seus ouvidos o último álbum de Corinne Bailey Rae. Amy Winehouse que me perdoe, mas justiça seja feita. Antes de Back to Black estourar, Corinne já balançava os corações ingleses.

Eis que o marido da moça, um músico, foi encontrado morto em Londres. Poupemos os detalhes e vamos nos focar no essencial: o marido de uma mulher récem chegada aos trinta morreu.

Esta notícia me chocou desde que dela tive conhecimento. Quem me conhece sabe que sou insensível aos fatos noticiados nas folhas do jornal. Mas que fiquei com dó de Corinne, fiquei. Não nego.

O próximo álbum seria o segundo da carreira da moça. Todo mundo sabe que o segundo álbum é o mais difícil da carreira, especialmente com uma estreia bem sucedida. É ele que demarca se o artista é “One Hit Wonder” ou se veio para ficar.

Corinne então lançou “The Sea”, nesse 2010 que acabou de nascer. A primeira impressão: você é capaz de sentir a dor dela. As primeiras faixas são uma experiência de catarse. E aquele sentimento de pena começou a se esvair.

Ela não escondeu nada. Penso eu que ela não podia pensar em outra coisa. Para que negar o que se sente? E não se engane, phino leitor, pois o álbum não é só tristeza, tem seus momentos felizes também. Afinal, nem só de morte vive a vida. Sempre teremos alguma boa lembrança do que passou. Se assim não fosse, ela não cantaria aos quatro cantos que faria tudo de novo.

Corinne não negou sua tristeza. Lidou com ela do melhor jeito que pode e, como resultado, será reconhecida como a diva do neo soul que sempre foi destinada a ser.

Então, não liguem se eu estiver triste, nem tenham pena de mim. Eu e a Srta. Tristeza seremos sempre bons amigos e teremos nossas longas conversas. Ocasionalmente vou esperá-la, até mesmo com certa ansiedade. Mas ela é visita. Sabe que tenho outras coisas a fazer. Tirarei proveito do que ela me trouxer e, quem sabe, um dia poderei chamar o resultado deste processo de arte. No meio tempo, vou tentando, ouvindo quem um dia conseguiu tal façanha.

*Vini já esboça um sorriso ao ouvir “Paris Nights/New York Mornings” e tentará sorrir mais por aqui às terça-feiras.

3 Comentários

Arquivado em lição de vida, personalidade com PH, sentimentos phinos, Vini

3 Respostas para “Miss Sadness and Me

  1. Jouviã

    Vini, muito bom o texto tanto tematicamente quanto tecnicamente. Adorei a abordagem sutil da tristeza como uma personificação de Tristeza abrangendo o tema intimamente com cada leitor. Quanto a corinne eu ainda não ouvi o “The Sea” pra concordar ou discoradar. ‘Dorei.

  2. Adorei a Corinne Bailey Rae. Indo na fnac comprar CD, que não sei baixar música. Bjs

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