Todo o carnaval tem seu fim

Mas dizem por aí que a vida continua

Mas dizem por aí que a vida continua

Por Dany Darko*

A dor não é um sentimento phino. Física ou espiritual, ela atrapalha a serenidade e se dissipa em lágrimas, revoltas ou silêncios – ou tudo isso ao mesmo tempo. Também não dá aviso prévio, chega sempre de sopetão e se instala o tempo que achar necessário, enquanto improvisamos artifícios desesperados e nem sempre bem sucedidos que encontrem o seu fim.

A dor da perda de uma pessoa querida, por exemplo, nunca tem fim. Ela começa após incredulidade da situação, atinge o ápice da loucura, nos corrói lentamente e deixa essas eternas feridas na alma que não cicatrizam jamais. Por vezes, se amenizam e voltam com toda intensidade quando a gente pensa que estava quase curado. Nunca estaremos.

A morte – já escrevi isso aqui antes – é triste e ridícula. Triste, para os próximos; ridícula, para quem se foi. E é majoritariamente indiferente para todo o resto da humanidade sem nenhuma relação com o defunto. « Ai, que flores lindas! », dizia, em cima do caixão do meu pai, uma mulher desconhecida da minha família. Entrou no funeral por curiosidade, comeu salgadinhos oferecidos pela funerária e levou uma flor de lembrança.

E, quando a morte tem data marcada, ela mobiliza a dor na mais alta intensidade que eu conheço, que é o desespero da morte pré-anunciada. E continua sendo ridícula para quem se vai, que espera esse momento com o coração na garganta a inevitável partida. E continua sendo triste, para os próximos, que passam as noites em claro rezando que o fim não seja tão cruel. E indiferente para o resto da humanidade sem nenhuma relação com o futuro defunto. « O importante é que ele amava muito vocês », alguém que eu nunca tinho visto na vida me consolava enquanto eu tentava fazer a conexão da morte de meu pai e amor dele pela família. Não entendi até hoje.

Lembro que nesse dia alguém me falou que um dia a gente compreenderia nossa perda. Também disseram que a dor alivia com o tempo, que a gente aprende a transformar o vazio em amor, em esperança, em boas lembranças, em sei lá o quê – todas essas coisas que inventam pra nos consolar, mas que todo mundo sabe que é puro blá blá blá. Afinal, tudo continua sendo eternamente dor, vácuo, perda. E as boas recordações existem, sim. Mas elas te lembram, a cada dia, o quanto a gente ficou involuntariamente pela metade.

De resto, a gente entende que tudo tem, efetivamente, começo e fim. « Todo mundo nasce e morre o tempo todo », me disse minha mãe, em uma mood blasée, um dia desses. Que a missa de sétimo dia do meu pai tenha coincidido com o dia do meu aniversário ou que seu aniversário de morte caia no começo do carnaval ou na quarta-feira de cinzas, whatever, é tudo aleatório. Se a dor vale alguma coisa, é pra isso que ela serve; pra confirmar que tudo é pó.

*Dany Darko está no auge do seu inferno astral e também odeia carnavais. Às quartas, por vezes cinzas, no EBDP.

10 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, sentimentos phinos

10 Respostas para “Todo o carnaval tem seu fim

  1. Dany,

    tua tristeza é linda e phina, muito phina.

    Saudades!!!!

  2. Pior é ver aquelas caras de “não sabemos o que dizer”. É incrível, todos vivem dando palpite sobre a vida alheia o tempo todo. Mas quando o assunto é a morte de alguém querido (e desconhecido pelo palpiteiro), todos ficam mudos, sem graça.

    Também perdi alguém bem importante na quarta-feira de cinzas do ano passado. Já odiava carnaval, agora odeio mais ainda. Esses dias relembrando foram foda, mas mais foda foi ver o constrangimento causado nas pessoas que não têm nada a dizer.

    • É, Ana, funerais são capítulos das nossa vidas que rendem vários posts, ou até mesmo livros. Vi tanta bizarrice durante o velório do meu pai que eu ficava me perguntando ser era eu que estava tendo alucinaçoes lynchnianas ou se aquilo estava realmente acontecendo. Freak show é pouco pra definir, ainda mais durante o carnaval…

    • Pow Ana, não sei se concordo muito contigo. Não é fácil esse momento também para os próximos… Eu nunca sei o que dizer nessas horas. Nas outras, sempre falo demais. Falar algo após a morte de alguém para um amigo não é o mesmo que dar conselhos sobre aquele bofe.

      Bj,
      Rafa

      • Tá, assim… me expressei mal. Eu também não sei o que dizer nessas horas, quando não fui eu quem perdeu alguém querido. Mas no meu comentário eu me referia à estranheza de quem tá ali, “ouvindo”, de ver como as pessoas não sabem como agir. Me embolei toda, mas acho que dá para entender, né?

        Enfim… as vezes, nessa situação, um abraço e a simples presença por perto são muitíssimo mais importantes do que qualquer palavra. Nessas horas a gente (eu pelo menos) só quer colo e não quer ficar sozinha. Não precisa dizer nada e dizer pode acabar soando forçado.

        Rá, e agora me diz… e quando a morte é do tal bofe? Família é fueda perder… mas perder um amor também é bem complicado, principalmente que sempre vai vir algum desavisado dizendo “daqui a pouco tu encontra outro”. Argh, como se fosse substituivel!

        Acho que era isso. é uma situação difícil mesmo. Para quem perde e para quem consola. Ainda mais no carnaval.

  3. Priscila

    Sei exatamente o que vc passa… Passei pelo mesmo problema (pai), na mesma época (carnaval)… A ferida nunca se cura e não há fala que prove o contrário de tudo o que vc escreveu no post…

    • Priscila, a gente precisa avisar as pessoas que já saiu de moda nascer e morrer no carnaval (diz a criatura que nasceu num sábado de carnaval). Essa época já é suficientemente insuportável pra adicionar mais amargura, eita…

  4. Lorreine Beatrice

    Daniiii, descobri seus textos🙂
    Ao menos uma vez, posso dizer que é bom começar com uma quarta-feira cinza.
    Beijo

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