Navegar é preciso; quase todo o resto não

Por L´Andreis*

Lembro perfeitamente o dia que me embasbaquei ao saber que famosa frase dos navegadores portugueses [Navegar é preciso, viver não é preciso] tinha sido adaptada por Fernando Pessoa no poema de mesmo nome. Não era de necessidade que eles falavam, como Pessoa interpretava, mas sim de precisão, certeza, exatidão.

De toda a matemática que envolvia sair pelos oceanos de navio, ao contrário da vida, com variáveis demais para qualquer cálculo. Meu fascínio por comportamento humano vem exatamente daí, dessa busca por padrões que nós mesmos nos colocamos, desde a mais instintiva repetição até a adaptação a um grupo. Não há nada de mal nisso, é assim que lidamos para sobreviver entre incertezas. Infelizmente, nem sempre essas amarras nos favorecem e acabamos nos boicotando [quase sem querer].

Até onde se sabe, tudo isso acontece a partir de reações eletroquímicas no nosso cérebro. Não importando sua religião, estado de espírito, tribo, etnia, auto-suficiência, temos de aceitar que a questão primordial é essa. Se for um exu ou o espírito de uma cigana que está ali atuando para um desequilíbrio, não importa, o que conseguimos ver é a parte orgânica, e esta deve sempre ser levada em conta para nosso bem estar. Falo isso muito por ter sido criada dentro da religião de São Sigmund (Freud), e mais ainda por ter vivenciado na pele a desordem eletroquímica cerebral.

A psiquiatria, ainda incipiente, é o mais próximo que temos para entender nossas loucuras oriundas de questões biológicas, psicológicas ou sociais. E, quando falo em loucuras, não imagine alguém gritando em uma camisa de força, mas tudo que nos faz criar obstáculos para nosso bem estar. Buscar equilíbrio no meio de nossos lobos não deixa ninguém menos autêntico, não destrói personalidade, nem faz de ninguém um párea social.

Muito pelo contrário. É tratando uma questão orgânica que o indivíduo consegue forças para organizar o resto. Por mais que tenhamos uma rede de apoio, a nossa cabeça é que vai nos encaminhar para mudanças e não dá pra deixá-la doente. Tratamos os problemas da mente como bruxaria e tabu. enquanto deveríamos deixar a ignorância e ver isso como um problema de tendinite.

Você vai lá, toma antiinflamatório, faz fisioterapia e mantém com exercícios. Não é porque você não está sentindo dor que seu braço vai ficar [despersonalizado], diferente, dopado. A única diferença é que você está fazendo um tratamento que mantém ele em pleno funcionamento. Trocar a fonte queimada não altera os dados do hardware.

Por ser tão ligada ao que nos torna humanos, a psiquiatria está longe de ser precisa. Há muita tentativa e erro e interpretações. De qualquer forma, é o que a casa oferece e o melhor que podemos fazer em casos nos quais estamos em risco ou apenas em sofrimento.

*L’Andreis jura que é melhor não ser o normal, mas sem dor e angústia. Pira na batatinha toda quinta, aqui, e todos os dias, no twitter (@carolandreis).

8 Comentários

Arquivado em fica aí a dica, L’Andreis, lição de vida, sentimentos phinos

8 Respostas para “Navegar é preciso; quase todo o resto não

  1. Caroline Andreis

    Ishi. Significados diferentes. Obrigada, Diogo. Arrumadinho.

  2. vivi

    muito bonito e verdadeiro o texto, em uma semana em que também fiquei me questionando muito sobre o sentido das coisas, da vida. é foda.

  3. Sabedoria, e isso que tu ainda nem fez 30! ; )

  4. Caroline Andreis

    Obrigada, vivi e Rafa. =)

  5. elaine

    Excelente texto, “humano, demasiado humano”.
    Realmente, viver nao é preciso, e ainda bem, senao que graça teria, uma vida sem surpresas?
    beijao

  6. Caroline Andreis

    obrigada, dona elaine.
    beijão!

  7. Deixa de ser vida quando tentamos por rédeas em coisas que são fluidas demais. Quando normatizamos o amor e racionalizamos o carinho.

    Algumas coisas não são planejáveis. Não cabe traçar metas pro imensurável, pois precisão somente bússolas e astrolábios podem conferir.

    Navegar é preciso: viver não é preciso.

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