Verdade ou consequência?

Era uma vez o meio-termo

Era uma vez o meio-termo

Por Dany Darko*

Numa soirée com o meu grupo de mestrado, observamos que nossa turma é formada por um grupo nem um pouco homogêneo. A maioria, claro, é composta por colegas franceses, mas cada um vem de uma região diferente do país. A outra parte somos, nós, os estrangeiros: um russo, quatro chinesas, um argelino, uma vietnamita e eu, uma brazuca.

Nessa vibe BUNITA e ÚTEL de discutir nacionalidades e diversidades, entramos no delicado assunto mitos, com a sutileza de uma colega francesa, como só os franceses sabem ser ogros diretos:

– É verdade que na China vocês comem cachorro? – se dirigiu a uma colega chinesa.

A coitada da oriental ficou branca, vermelha, roxa, transparente, muda, suou frio e interrompeu a resposta setenta e sete vezes antes de se esquivar num “não é bem assim” e instaurar um clima de inconformidade no recinto.

Cachorro na China, só quente

Por fim, ela explicou, toda cheia de dedos que, sim, os chineses comem carne canina, mas – não -, não são todos os chineses que se alimentam da iguaria. Segundo ela, o hábito de comer carne de cachorro vem de uma região do seu país. “E não é qualquer cachorro que vai pra mesa”, acrescentou, com medo que a gente estivesse pensando em sair dizendo por aí que todos os chineses servem totós em todos os almoços de domingo.

Imaginem, a gente fazendo essa maldade! Nem abri meu laptop na hora e vim publicar esse post no EBDP.

Afim de botar lenha na fogueira salvar a pobre da colega que estava sendo apedrejada por uma onda de perguntas que jamais teriam respostas definitivas, eu confessei que no Brasil a gente come coração de frango. Pronto, falei.

Ok, vocês não devem achar nada demais, mas a galère teve uma ânsia de vômito coletiva. Todo mundo acha nosso petisco um NODJO por aqui. Até tentei argumentar que o coração era salgado, temperado, assado, maquiado, etc.

Claro, não melhorou nada.

Pra acalmar a galère, fiz o favor de informar que não eram todos os corações de todas as galinhas que a gente usava, só os bem gordinhos. E que toda a galinha tem três corações, por isso ela tinha mais duas chances de vida depois de extraírem, com carinho, o primeiro coração (minha mãe realmente me contou essa história quando eu era pequena). E que não era todo mundo que comia coração de galinha. Os vegetarianos, por exemplo, dispensam.

Como todo mundo já estava no banheiro mesmo, fiz questão de completar que a gente come corações no churrasco, nas pizzas, no pastel, no bolo de fubá, no sorvete, no café com leite, na pamonha, na goiabada e nos lanches. (Lancheria do Parque, miliga!).

Só sobrou eu e o colega argelino, que estava comendo um kebab com molho branco. E ele me disse que reza a lenda que, para um bom molho branco, os árabes adicionam sêmen na iguaria. De boca cheia, meu colega garantiu que era tudo mito.

É gostoso e faz bem

É gostoso e faz bem

E foi a vez de eu dar uma passada estratégica no banheiro. Nunca mais pedirei molho branco em dobro.

Na volta, o grupo tinha entrado numa discussão sem fim sobre o uso do véu nos países árabes e o coitado do argelino é que estava na fogueira. Teve a infelicidade de dizer que concordava com a bagaça, já que não era somente uma questão religiosa, mas também cultural, de afirmação da identidade árabe.

Explicou também que não eram todas as mulheres árabes que usavam o véu. E que não era toda a população árabe que apoiava o uso do véu, que nem é obrigatório em todos os países.

Colega árabe desviou a atenção confessando que ele achava vergonhoso mesmo eram os russos cuja fama de seu povo se deve ao álcool. Mas nosso amigo eslavo explicou que as garrafas de vodka que ele havia trazido para a festa eram polonesas. E ameaçou ir embora com toda a cachaça se continuássemos colocando sua integridade na roleta. Como havia ainda cinco garrafas fechadas de vodka polonesa que não poderíamos dispensar, todo mundo se acalmou e ficou tudo bem.

Ou não. Porque os franceses resolveram dar sequencia ao quebra-pau a essa inteligente e saudável discussão:

– E o que falam da gente no país de vocês?
– Nada demais, não – a galère se esquivou.
– Nada memorável, por exemplo?
– Só que vocês não tomam banho, não usam desodorante, estão sempre mau humorados, são mal educados, blasés, xenófobos, racistas e se alimentam de coisas nojentas como escargot, foie-gras, boudin noir e que vocês elegeram o Sarkozy pra representar todas essas belezuras nacionais…

Salve, salve simpatia!

Salve, salve simpatia!

Nesse momento, todo mundo se levantou para a briga. A chinesa pegou uma adaga, o argelino puxou uma faca, o russo pegou uma garrafa de vodka polonesa (sem antes esvaziá-la no bico) e os franceses levantaram os braços.

Já eu saquei meu pandeiro de dentro da bolsa e sugeri:

– Ei, GERAU, vamos todos ser amygues? Vou tocar uma musiquinha bem legal e todo mundo vai dançar junto até o chão, chão, chão!

Foi quando a francesa me perguntou se era verdade que no Brasil existia uma dança em torno da garrafa. Tive muito medo. E eu poderia ter dito que não, que era tudo mito, enganação, lenda, mentira, não poderia?

Não poderia, não, pessonhas! Já esqueceram do post da semana passada?

– E você conhece essa dança da garrafa? – todo mundo quis saber.

Então argumentei que não era bem assim, que essa música já era antiga, passada, fora de moda, que hoje em dia a gente dançava mesmo era a surra de bunda

, que não era todo mundo que tinha molejo pra esse estilo musical, que…

– Mas você faria a dança da garrafa pra gente, em nome da phinesse?

FIM.

* Dany Darko escreve para os EBDP às quartas e faz performances em soirées, aniversários de criança, formaturas e casamentos no resto da semana. Contatos pelo email oquevaleéaintenção@ebdp.com.br.

7 Comentários

Arquivado em correspondente internacional, Dany Darko, vergonha alheia, vergonha própria

7 Respostas para “Verdade ou consequência?

  1. MELHOR POST! HAHAHHAHA SÉRIO, SEM COMENTÁRIO, MIMIJEI AQUI….

    MORRO CONTIGO, DANY, MUITO BOM!

  2. Saudades do xis-coração da Lancheria…

  3. Julia

    heheh saudade do x coração ai ai rssrs muito bom

  4. filipe

    dança da garrafa com vodka polonesa é fino

  5. Bruno

    Ainda bem que eles só ouviram falar da dança da garrafa até hoje, né?! Vergonhazinha dos axés da vida… ¬¬’

  6. kkkkkkkkkkkk

    Conheci o blog a pouquíssimo tempo e amei. Serei leitora assídua!

    Parabéns!

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